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Lições de leitura e mediação com Lygia Fagundes Telles
PublishNews, Suzana Vargas, 27/07/2022
Em sua coluna, Suzana Vargas fala sobre seu encontro com a "dama da literatura brasileira" e as lições aprendidas com ela

Lygia em leitura no CCBB ao lado de Nathalia Timberg, atriz que leu seu conto e Jonas Rezende, comentarista | © Acervo Pessoal
Lygia em leitura no CCBB ao lado de Nathalia Timberg, atriz que leu seu conto e Jonas Rezende, comentarista | © Acervo Pessoal
Muitas vezes pergunto a mim mesma o que faz com que estudantes de letras, alguns formados, com doutorados ou especializações, e professores de literatura esqueçam sua missão maior: formar leitores. E esqueçam que isso pode acontecer por vários caminhos, mas que, com certeza, a teoria excessiva pode atrapalhá-los, atuando como um encantamento absolutamente enganador. Ou seja: tanto falo sobre um livro que acabo me iludindo de que fiz a leitura da obra. Aconteceu comigo, não somente em meu início, mas ainda continuo a correr o sério risco de cometer esse autoengano mesmo agora, depois de tanta estrada e trabalhos desenvolvidos justamente na área de leitura.

Mas o que teria isso a ver com Lygia Fagundes Telles? Tem a ver com minha formação e com o primeiro encontro ao vivo e a cores com ela, num momento em que vivia encarcerada pelo mestrado em Teoria Literária e quase totalmente entregue às importantes descobertas que ela me oferecia, organizando melhor meu pensamento, aguçando minha percepção dos textos lidos, colaborando enfim para me tornar uma leitora mais crítica, mais perspicaz.

Pois bem: o meu primeiro encontro pessoal com Lygia tem a ver com essa breve reflexão inicial. Era o ano de 1985, e eu havia adotado seu livro mais conhecido à época, Mistérios, uma antologia de contos retirados de outros volumes já publicados por ela. Havia conseguido, numa noite de autógrafos, convencê-la a comparecer à faculdade onde lecionava para conversar com os alunos. Lygia aceitou meu convite, mesmo sem me conhecer muito bem, e sua ida à faculdade se transformou num grande acontecimento. Principalmente para minha turma, suficientemente motivada pela leitura.

Ainda surpresa com o convite aceito, me preparei muito para o encontro. Na verdade, muito além do necessário, lendo ou relendo alguns de seus livros, lendo também sobre sua obra e, claro, trabalhando com os alunos. De modo que foi uma Suzana cheia de citações e análises estruturais que recebeu aquela mulher belíssima, alta, elegantérrima, com penetrantes olhos verdes, vestindo um tailleur bem cortado e um inusitado colar de pérolas. Voz anasalada, fumando muito, era a simpatia e a beleza em pessoa. Tinha alguma pressa e precisei garantir que o encontro duraria apenas uma hora. Para cronometrar esse tempo, pois havia outros afazeres no Rio, ela tirou o relógio do pulso e colocou-o em cima da mesa no auditório onde conversaria com os estudantes. Faculdade em polvorosa para receber a grande dama da literatura brasileira, como a chamavam.

Apresentei brevemente a autora e pedi-lhe que falasse sobre o livro como um todo, destacando um ou outro conto que lhe interessasse mais. E que lesse o final de Venha ver o pôr do sol, um dos contos que haviam mais impressionado a turma. Ela fez o que pedi e leu belamente o final do relato quando o ex-noivo da personagem principal a deixa trancafiada num dos mausoléus do cemitério abandonado onde haviam marcado o encontro.

Quando terminou, eu, por insegurança ou sei lá porque cargas d’água, fiz-lhe uma pergunta que – a pretexto de demonstrar leitura ou erudição, praticamente já continha a resposta. Queria saber sobre o tipo de narrador escolhido, os porquês das escolhas de personagens, da travessia do cemitério e seus detalhes. Usei termos sofisticados como narrador intradiegético quase assombrando a convidada pela complexidade do assunto. No fundo, acho que aproveitava, como só acontece quando estamos plenos de informação, para fazer eu mesma, vaidosamente, um discurso exibicionista de meus conhecimentos. Ao que Lygia ouviu calada, talvez surpresa, mas sinceramente interessada. Quando terminei a lenga lenga de narradores e citações ela me disse calmamente: “Não sei se entendi sua pergunta, Suzana, quase não li os autores citados por você... Mas gostaria muito de saber a sua opinião. O que você pessoalmente achou do texto, do tema, do modo como contei, dos espaços e reflexões". E me desarmou na frente de todos os alunos, com gentileza, com precisão.

Eu, que não esperava uma declaração daquelas, fiquei estupefata. Com um misto de vergonha, de constrangimento, balbuciei algumas conclusões bem óbvias sobre o conto, mas aquele breve momento inicial me colocou para pensar justamente no que estava fazendo ali, diante de uma das nossas maiores escritoras, tentando mostrar erudição quando as questões que se apresentavam eram tão simples. Tão humanas, quase óbvias. Esse constrangimento felizmente passou, pois um aluno veio em meu socorro (sem o saber) e fez uma pergunta mais modesta, mas mais eficaz sobre amor e morte, assuntos flagrantes do conto. Ao que ela respondeu magistralmente, como só quem escreve um texto daquela natureza pode responder.

Outras indagações interessantes se seguiram, de uma plateia com pouca leitura e informação, mas com uma curiosidade genuína e a honestidade intelectual dos leitores desarmados. Da minha parte, permaneci calada (ou quase) por minha vez desarmada na minha arrogância de especialista, percebendo, talvez, finalmente, que uma leitura não é feita apenas da erudição de quem lê, mas da sensibilidade com que nos debruçamos de modo pessoal sobre o texto: ponto de partida e de chegada de nossa percepção.

As perguntas dos jovens continuaram diante de uma Lygia que esquecera o relógio, descera do palco, recostando-se no tablado e respondendo a todos com uma cortesia de fazer inveja. Da minha parte, ficava contemplando/ouvindo suas observações a respeito de seu próprio texto, território insondável enquanto percebido apenas com ferramentas outras que não nossa sensibilidade. Lembro-me bem de que uma estudante fez uma pergunta das mais comuns para uma entrevista. Perguntou-lhe se a personagem do conto lido havia morrido ou se havia sido libertada do mausoléu por alguém. Lygia sorriu e respondeu com outra indagação: "O que você acha, querida? A resposta só poderá ser dada por você, eu já não sou dona do texto que escrevi. A dona é você."

Não vou precisar dizer o quanto aquele primeiro encontro com Lygia mudou minha forma, não somente de ler ou trabalhar textos, mas meu próprio modo de estar no universo literário. Mais livre de muletas e amarras, mais segura do caminho que escolhera. Eu estava em meus inícios, é certo. Mas foi fundamental aquele gentil confronto e seus desafios. A partir dele pude não somente ler mais livremente como deixar minha sensibilidade de leitora apurar o ouvido e o olhar. Eis o que Lygia me ensinou. Muito cedo, por sorte. A tempo de transformar minhas ambições de ser professora ou crítica literária no sentido estrito do termo e me transformar numa leitora comum, começando a trabalhar por uma leitura mais livre.

Estivemos juntas outras vezes, em viagens, em lançamentos de livros outros, mas quando penso em sua presença na minha vida profissional, lembro dessa manhã. Tento, de alguma forma, transmitir algumas convicções semelhantes aos mediadores de leitura que muitas vezes oriento. Sem abdicar da teoria (cuja percepção é essencial na estruturação das análises) ou das informações necessárias (históricas, filosóficas, linguísticas), consigo enxergar que todo esse arsenal de conteúdos precisa localizar-se apenas como categoria auxiliar à minha leitura pessoal.

Uma das poucas vezes em que me vi a sós com Lygia pude indagar-lhe sobre as curiosidades que muitas vezes me assolavam como, por exemplo, como era a leitora por trás da escritora. "Nada demais", respondeu, "o segredo é você saber, talvez estudando, talvez organizando as ideias. O resto é conversa e falsa teoria. E o que restar da teoria deve fazer o texto criar vida e não morrer sufocado pelas citações", me disse como quem conta um segredo a céu aberto.

Mas o que mais me impressionava naquela mulher era a simplicidade com que lidava com sua circunstância de ocupante da cadeira número 16 da Academia Brasileira de Letras, tantos livros e prêmios, traduções, para além de uma formação em Direito e Educação Física, de uma infância em Sertãozinho e uma inesperada vinda para São Paulo onde permaneceu até nos deixar. Para além mesmo de sua luta política que beirava a audácia em seus romances e contos, de seu medo de aviões e de sua paradoxal crença em Deus (tantas vezes evocado por seus personagens). É que, dizia, "quem escreve tem vocação e consequentemente paixão. E a vocação não pode exigir sucesso, Suzana, por isso não podemos existir para além do que somos".

Uma única vez pude estar com ela sem interrupções. Foi no restaurante de seu hotel preferido no Rio, o Trocadero. Estávamos milagrosamente sozinhas no imenso local por cujas vidraças à noite podia-se ver a praia de Copacabana. Pude contar-lhe a grande contribuição que deu ao meu trabalho dentro e fora das salas de aula. Rememorei meu constrangimento aquela manhã no auditório da faculdade. Ela sorriu satisfeita pelo testemunho, disse que não lembrava de absolutamente nada, claro. Mas me confessou que uma das coisas mais entediantes ao longo de sua “carreira” como escritora (ria ao dizer isso) era, de fato, os professores de literatura ou pesquisadores que chegavam com seus discursos prontos, com suas conclusões, com suas certezas e citações. Eis.

Vesti a carapuça cedinho e tentei como até hoje tento não estender muito minhas perguntas além da importância que realmente têm. E da objetividade que necessitam ter. O resto é com o escritor, dono e senhor das respostas mesmo que elas não estejam de acordo com as lições e mais lições que apreendemos de certas pessoas somente pelo fato de existirem. Com suas inseguranças e medos. "Escrever é lutar contra seus medos", disse Lygia uma vez a outro grande leitor, José Castello.

Mas talvez o que mais expresse sua importância – afora sua obra – de astúcia e densidade ímpares, capaz de nos passar a impressão de que suas histórias não eram inventadas, mas a pura expressão da realidade, era o fato de se assumir como uma trabalhadora da palavra. A escrita como destino e profissão ou como ela mesma referia: “tento desembrulhar a mim mesma, desembrulhando as personagens, de modo que são e não são faces de mim mesma. Ou de todos.”

Lygia se foi nesse início de ano. Com mais de 100 anos de idade e com quase todos os reconhecimentos literários a que se pode aspirar (Prêmio Camões, indicação ao Nobel, alguns Jabutis). Nem precisamos dizer que sua obra permanece, mesmo que a seu ver, sempre escapasse como um peixe vivo. Conservava consigo alguns adágios de mestres como Cioran que recitava sempre que possível: “Não confundir pessimismo com a lucidez, porta que se abre e nos oferece mesmo na desilusão uma saída: a saída da ilusão”.

Viveu lúcida como sua produção, cujo mergulho é nossa herança. Inaugurou, sem saber, para mim, uma outra forma de perceber e me entregar à literatura e à tarefa de formar leitores, sendo, eu mesma a medida de chegada e de partida dos textos e autores a serem explorados. Cada autor tendo seus caminhos e dando seus testemunhos conforme nos fala Lygia em um trecho de A disciplina do amor, espécie de diário a esmo que foi publicado em 1996:

12 de dezembro

Nada fácil testemunhar este mundo com tudo o que tem de bom. De ruim. Um mundo grande, que vai além da chácara do vigário. Diante si mesmo, diante do papel o escritor se sente grande porque sua tarefa é digna. Pode ser corrompido, mas só raramente corrompe.

Obrigada, Lygia



Nesse espaço, Suzana Vargas vai apresentar histórias que ela escreveu para lembrar ou lições que aprendeu convivendo com grandes escritores da literatura brasileira. Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, José J. Veiga, João Antônio, Victor Giudice, Moacyr Scliar e Jorge Amado são alguns dos nomes que atravessaram a vida da escritora, professora, curadora e produtora cultural. A coluna - intitulada Escrever para Lembrar: o que os grandes escritores me ensinaram - integra as comemorações dos 20 anos do PublishNews, celebrados em 2021. Para conhecer mais da trajetória da titular da coluna, assista à participação da fundadora do Instituto Estação das Letras no PublishNews Entrevista de julho de 2020.

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