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No palco, com Cora Coralina
PublishNews, Suzana Vargas, 13/08/2021
No quinto capítulo da série 'Escrever para lembrar: o que os grandes escritores me ensinaram', Suzana Vargas conta o que aprendeu com a poeta

Não. Não estive no palco com Anna Lins dos Guimarães Peixoto, nossa Cora Coralina, mas sentada no chão muito próxima dela. Quando a vi pela primeira e única vez, Cora estava acomodada no centro de um teatro lotado e eu ainda não sabia quem era aquela senhora de 93 anos, talvez com menos de 1m50, pele trigueira, olhos miúdos e sorridentes, cabelos puxados em coque de vovozinha. Não, também não estive em Goiás Velho onde ainda irei, mas para escrever sobre o assunto desta memória, talvez isso não faça tanta falta. Voltando ao início, fui expectadora atenta de sua performance no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, por ocasião do 1º Festival Nacional das Mulheres na Artes, evento que reuniu, em 1982, mais de 10 mil participantes nacionais e internacionais, promovendo 600 espetáculos onde as mulheres eram protagonistas.

Era o mês de setembro e foi minha primeira viagem na chamada “selva de pedra”. Àquela altura eu já tinha tido meu primeiro livro de poemas editado e andava às voltas com a publicação do segundo. Foi uma viagem de grandes descobertas, quando conheci pessoalmente alguns escritores e artistas já famosos e com os quais, no futuro, eu viria a ter algum tipo de proximidade, como Lya Luft, Marina Colasanti, Adélia Prado, Renata Pallotini, o casal Alice Ruiz & Paulo Leminski, estes dois últimos apresentados pela poeta Astrid Cabral.

Mas voltemos ao palco; lá estava Cora Coralina, sentada, lendo seus poemas e contando para nós um pouco de suas histórias de vida, de como teve coragem de resistir, coexistir e transistir nas palavras de Oswaldino Marques, seu primeiro prefaciador. Falava com tranquilidade sobre sua vida de lutas contra os preconceitos numa pequena cidade, onde o fato de escrever e publicar livros gerava controvérsias familiares, a ponto de ser impedida pelo marido de participar da Semana de Arte Moderna para a qual havia sido convidada. Contava esses fatos com tranquilidade, sem bandeiras desfraldadas no encerramento do Festival onde viera divulgar seus livros, àquela altura sendo lançados um pouco mais comercialmente. Em agosto ela havia completado 93 anos e tinha o espírito tão jovem como nossa República que também nascera em 1989.

Eu, que apenas havia ouvido falar sobre ela e lera alguns dos seus poemas, comprei seu livro mais conhecido Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais (ainda sem editora oficial) e esperava a hora dos autógrafos para me aproximar. Era noite, e o teatro, onde caberiam umas 400 pessoas, devia estar com o dobro da capacidade a ponto de nos sentarmos no interior do palco. Como a proximidade com seu aniversário era muito grande, a organização resolveu cantar um sonoro parabéns que Cora Coralina ouviu, claro, muito satisfeita, e continuou a falar por algum tempo ainda. Mas foi sua fala de agradecimento à gentileza das flores e do bolo que me chamou a atenção, sendo fundamental para minha cabeça lotada de teoria literária e às voltas com questões metodológicas sobre criação e criatividade. Fundamental, digo, para que eu entendesse alguns fenômenos importantes sobre a capacidade do escritor de criar a partir de mundos outros que não apenas os reservados ao próprio ego. Ela se levantou, não sem alguma dificuldade e disse: "Obrigada, amigos, fiz 93 anos e me orgulho de ter sempre todas as idades do mundo!"

Engraçado como as revelações acontecem às vezes através das meias palavras. Eu estava sentada na beira do palco e quase caí para trás. Explico melhor: na época, andava ensaiando meus primeiros escritos para crianças e nada do que escrevia chegava a me satisfazer. Parecia alguma coisa extremamente difícil (como acho ainda que é), mas diante daquela afirmação tão categórica, a ideia da dificuldade não necessariamente chegou a sumir de todo, mas deslocou-se para outro lugar. Quer dizer: o tempo se deslocou na minha perspectiva existencial e literária ou seja: se tenho dentro de mim todas as idades do mundo, então posso voltar a ter oito anos ou menos ou mais à hora que quiser. E essa não seria meramente uma ilusão de ordem psicanalítica. Nem literariamente ilusória, já que até então havia ensaiado alguns poemas infantis que nunca me satisfaziam, parecendo estar sempre aquém das crianças às quais desejava me dirigir.

E a pergunta que surgia no horizonte era: como escrever para crianças sem deixar de ser eu mesma? Sem fingir ter cinco anos ou nove? Até então a boa literatura infantil brasileira era quase um mistério, com poucas vozes de grande destaque e uma produção quantitativa e qualitativamente deficiente, ao contrário dos tempos atuais em que sobejam qualidade e quantidade nas edições. Alguma coisa dentro de mim sabia que escrever para os pequenos não poderia ser um passatempo, um mero jogo de palavras ou de rimas. Eu precisava ser criança. Mas como? Tinha duas filhas pequenas e – como diria Homero – não basta apenas ter, é preciso ser. Era preciso ser e não ser criança se quisesse ousar alguma coisa nesse terreno ainda infértil que era eu mesma e os livros que viria a escrever.

A frase de Cora Coralina dita assim, num palco, engendrou na minha percepção algo que somente a arte poética poderia me explicar. Aquele famoso eu lírico que é e não é o poeta, os fatos e o tempo que na hora de escrever permanecem numa espécie de limbo onde a cronologia não existe e a quase loucura habita. Mas não se trata de mito (ui!). Ser criança sem deixar de ser adulta e ser adulta, sem deixar de ser criança, foi o que a fala de Cora Coralina me revelou. Tudo é uma coisa só: ao criador só resta aceitar essa condição e brincar com ela. Se quisermos chegar ao coração da criança ou de outro universo basta acionar esse lugar já existente dentro de nós. A infância e a juventude não pertencem ao passado, nascem a todo momento, flutuam no presente em nossos gestos ações e reações.

Ao ouvir aquela mulher (que procurei mais tarde, na esperança de debater sobre o assunto, a pretexto de autógrafo) quis estender a conversa, mas ela me falou de coragem e medo ou melhor: o medo de ter coragem e apostar (ela sussurra isso no autógrafo que posto mais adiante). Me aproximei da mesa onde ela estava ainda tímida e fiz algumas referências às suas palavras. Ela respondeu, olhando miudamente nos meus olhos, que viver e escrever ao mesmo tempo exigem coragem e isso a vida iria me ensinar. Ao ouvi-la, lúcida e translúcida, me dei conta de que estava diante de uma grande intelectual e ao mesmo tempo de uma doceira, uma vendedora de livros em Andradina (SP), uma mulher que fugiu de casa para casar com o homem que desejava, uma (pasmem!) candidata a vereadora que aprendeu a datilografar para escrever seus livros. E que ao falar de seu quintal podia falar para o mundo. Cora: uma feminista de forno & fogão, Dra. Honoris Causa pela Universidade de Goiás, a mulher cuja casa de porta aberta e tacho de doces virou museu. Poeta-cronista de sua vida e de sua cidade que cantou/contou com ritmos livres e libérrimos.

Não importa. Foi sua liberdade de ser e de produzir entre versos livres e libérrimos, foi esse passeio dentro de si na corda-bamba entre infância e velhice que a fez chegar ao coração de Goiás, praticamente reconstruindo a cidade para nós. Daí que seus livros são líricos e marcadamente épicos, cultivadamente rudes e enternecidos no dizer, ainda, de Oswaldino Marques que a compara a um Whitman interiorano. Quem lê sua Oração ao milho (transcrita abaixo) percebe o monumental documento que sua obra significa.

Havia (ainda há?), na época, um certo estranhamento quando se falava em Cora nos meios acadêmicos. Sua imagem surgia, muitas vezes, apenas como a velhinha que escrevia “versinhos” e fazia doces cristalizados para sustentar os quatro filhos, mas separo isso para bobagem, como diria Manoel de Barros. Talvez eu tenha vivido para ouvir o que precisava.

Mas o que teria a ver isso com a infância? Tem a ver com universalidade de sua obra e com o fato de ela mover-se em todas as direções, dos becos de Goiás a seus labirintos internos. Com eles arquitetou um mundo, uma filosofia, um modo sempre novo de estar.

Mover-se dentro de sua Idade, muito mais ao lado da realidade que da linguagem, num formidável equilíbrio que lhe permite escrever assim, ao falar de um menor abandonado:

...“Ninguém comigo na floresta escura

E o meu grito impotente se perde

na acústica indiferente das cidades..”

Trata-se do mesmo adolescente ou adulto de hoje (abandonado ou não) e do ser humano de sempre. E não há mistério. Cora, atenta ao mundo do século XX, sentada no meio de todos os séculos, escreve através deles, no centro do palco, no centro dela mesma foi, para mim, a imagem perfeita de como acontece a criação.

Nesse espaço, Suzana Vargas vai apresentar histórias que ela escreveu para lembrar ou lições que aprendeu convivendo com grandes escritores da literatura brasileira. Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, José J. Veiga, João Antônio, Victor Giudice, Moacyr Scliar e Jorge Amado são alguns dos nomes que atravessaram a vida da escritora, professora, curadora e produtora cultural. A coluna - intitulada Escrever para Lembrar: o que os grandes escritores me ensinaram - integra as comemorações dos 20 anos do PublishNews, celebrados em 2021. Para conhecer mais da trajetória da titular da coluna, assista à participação da fundadora do Instituto Estação das Letras no PublishNews Entrevista de julho de 2020.

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