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Victor Giudice ou a literatura na banheira
PublishNews, Suzana Vargas, 14/07/2021
Em novo artigo da série 'Escrever para lembrar: o que os grandes escritores me ensinaram', Suzana Vargas fala sobre sua relação e o que aprendeu com o multiartista Victor Giudice

Bem difícil vai ser falar sobre Victor Giudice, esse multiartista, escritor inigualável que a literatura brasileira ainda vai reconhecer devidamente. E a dificuldade reside justamente na intimidade maior que tive com ele. Não seria numa banheira, mas também nela e logo vou explicar como isso se dava. Morávamos ambos em Vila Isabel o que facilitava nosso contato mais pessoal, embora seu bairro de origem fosse São Cristóvão, cenário de muitos de seus contos e romances. Costumo dizer que ele foi uma espécie de padrinho intelectual que tive a alegria e o privilégio de ter ao alcance do telefone e da vista, num momento em que os celulares não existiam ou eram escassos e não se pensava em redes sociais.

Victor era um homem relativamente alto, de pele alvíssima, tinha escassos cabelos que ora esticava num rabo de cavalo, ora ocultava sob um boné. Possuía uma calvície proeminente e pequena barba grisalha, usava óculos sobre uns vivíssimos olhos castanhos. Parecia muitas vezes ter saído de um de seus incríveis contos. Gostava de modo quase juvenil das surpresas e tinha generosidades inesperadas. Uma vez me perguntou com sua voz anasalada: ‘Menininha, você gosta do Borges?” À minha afirmativa enfática, me estendeu nada menos que as poesias completas em espanhol do bardo argentino que comprara numa viagem a Buenos Aires.

Capa do livro 'Salvador janta no Lamas'
Capa do livro 'Salvador janta no Lamas'
Mas voltemos à banheira do início. Antes dela, quero dizer que com ele aprendi - apesar de já estar nessa estrada desde a década de 80 - para que serviam as oficinas de criação literária. Aconteceu em 1996, na semana de abertura oficial da Estação das Letras, espaço que criei acompanhada dele e de uma dezena de escritores importantes do Rio de Janeiro. Estávamos ambos, eu e Victor, na recepção do pequeno espaço no Largo do Machado quando adentrou uma candidata a aluna para a Oficina do Conto da qual Victor seria o orientador. Ela me pediu informações sobre o curso. Satisfeita por atender uma das primeiras clientes dos cursos que necessitavam desesperadamente de alunos, tive a ideia de dizer a ela que o professor da oficina estava presente e que ele mesmo poderia dar-lhe a explicação solicitada.

O diálogo entre os dois me deixou estarrecida. “Minha senhora, começou Victor, por que razão deseja fazer a oficina do conto?” Perguntou isso de modo simples e direto. Desejo escrever a história da minha família, foi a resposta tímida. “Mas, disse ele - para minha total surpresa - para escrever a história da sua família, você não precisa fazer uma oficina.” Ao ouvir esse diálogo paradoxal e memorável que praticamente desmentia todos os propósitos do espaço, fiquei quase indignada. Achei que havíamos perdido definitivamente uma aluna, já pensando em como pagaríamos o aluguel etc. Tratei de não ouvir mais a conversa que para minha surpresa, eles continuaram. Ao final, a senhora saiu matriculada e satisfeita.

Capa do livro 'Os banheiros'
Capa do livro 'Os banheiros'
Esse diálogo surreal escutado entre um afazer e outro da burocracia em negócios dessa natureza me colocou para pensar de modo muito particular sobre o que significa escrever e fazer literatura. Me referi a isso no dia seguinte quando conversamos ao telefone, enquanto Victor tomava um de seus famosos banhos de banheira. Nesses banhos ele costumava ler, revisar seus livros e conversar com os amigos ouvindo óperas. Quando não, escutava-se muitas vezes a água gotejando enquanto ele dissertava brilhantemente sobre algum fenômeno, literário ou artístico. “Regra número um, menininha, me disse, as pessoas precisam saber que quando fazem literatura estão criando uma realidade paralela. Se afundarem na pobreza de suas histórias pessoais, jamais darão ao fato literário sua transcendência essencial. E continuou: um personagem nunca será uma pessoa. Buenos Aires somente existiu porque foi uma invenção de Borges. Balzac inventou a sociedade do século XIX, real. Seu trabalho sobreviveu à sua vida pessoal, suas idiossincrasias amorosas e desastres financeiros e projetou um mundo muito maior do que seus contemporâneos conseguiriam alcançar. Madame Bovary, c’est mois, lembra Suzana? Flaubert era um homem... Ou não? E se pudéssemos responder, que importância teria? Onde está a família pessoal nos contos de Cortázar, nas profundidades do Sertão, de um Guimarães Rosa? A realidade pode e deve ser inventada na ficção.

Desliguei o telefone. Para que serviriam mesmo os cursos que ensinavam a escrever? Talvez tivesse obtido a resposta entre bolhas de sabão e água quente. Aquilo era bem mais do que uma aula sobre criação literária. Mudava os propósitos mesmos do trabalho a ser desenvolvido no espaço que havia criado recentemente e era necessário que mais pessoas soubessem acerca desses claríssimos mistérios.

Mas nada disso seria novidade para mim e um olhar para a obra verdadeiramente grandiosa desse amigo me fez enxergar a sua capacidade de invenção, de fabulação, de dar verossimilhança às realidades mais absurdas desse “planeta irreal”, como ele costumava dizer ao referir-se ao mundo em que vivemos. Com efeito, ele foi um escritor muito à frente de seu tempo. Esteve na vanguarda de muitos movimentos literários hoje apresentados como novidades. Do miniconto às experimentações mais irresistivelmente sensoriais. Sua genialidade estaria registrada já no livro de estreia, Necrológio, publicado em 1972 pela editora O Cruzeiro onde podemos ler O Arquivo, conto monumental que inaugura um novo modo de falar sobre a realidade brasileira universalizando-a, numa época eivada por alguns regionalismos para os quais talvez uma foto bastasse. Não por acaso esse texto foi traduzido em mais de cem países e é encontrável na antologia Os cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Ítalo Moriconi. Nessa mesma toada seguiu-se Os banheiros publicado pela Civilização Brasileira, de onde retiro o texto A lei do silêncio que acompanha essa memória logo abaixo. Victor publicou dois romances Bolero (Rocco) alegoria à Nova República, tão premonitório das absurdidades que hoje vivenciamos e O Sétimo Punhal (José Olympio) romance policial para o qual tive a honra de escrever a orelha. Não por acaso era um dos escritores preferidos de Rubem Fonseca que conhecia seu papel fundamental na ficção dos anos 70/80 e mais.

Capa da obra 'O museu Datbot'
Capa da obra 'O museu Datbot'
Só olhar de relance e ler o universo subjetivo em que morremos dia a dia, para dizer com suas palavras e saber que o verdadeiro ficcionista eventualmente poderá trazer a reboque as histórias familiares, mas não necessariamente da sua família, numa fatura empobrecedora e umbilical. Mas nada disso ficaria em pé sem sua lucidez e versatilidade. Escreveu peças, uma delas, Ária de Serviço, monólogo encenado pela atriz Bete Mendes, no Centro Cultural Banco do Brasil. Atuou na imprensa brasileira como crítico literário e manteve durante anos uma coluna sobre música clássica no Jornal do Brasil, em paralelo ministrou aulas de literatura e música erudita em universidades e centros culturais. Compositor do popular ao erudito, escreveu sambas enredos perfeitos que cantava acompanhado de uma caixinha de fósforos na mesa da minha casa, tocava piano, atuava. Tratava-se de uma metamorfose ambulante, dedicada à atividade criadora, tudo isso com leveza e ao mesmo tempo entrega e densidade.

A máxima da banheira ele levava para sua vida pessoal: intensidade, humor e a mais pura inventividade estavam presentes no seu cotidiano. Qualidades que qualquer escritor deveria trazer incrustradas dentro de si. As oficinas resultaram, sim. Tanto que o mundo povoou-se delas, tanto mais enriquecedoras quanto mais verdadeiras e distanciadas do fato particular que impede a literatura de chegar até nós. E essa é apenas uma das diversas lições que aprendi com ele. O conto A lei do silêncio que escolhi para leitura do público (disponível abaixo) mostra sua atualidade, ousadia e percepção da realidade mais fantasiosa que a própria criação e a criação tanto mais útil quanto mais inventiva for. Por isso mesmo fazer literatura definitivamente não é escrever sobre nossa família. Ave, Victor!

NB: Victor faleceu num novembro de 1997. Não pude estar presente na ocasião mas ele frequenta meu universo como se nunca tivesse saído de cena.


Nesse espaço, Suzana Vargas vai apresentar histórias que ela escreveu para lembrar ou lições que aprendeu convivendo com grandes escritores da literatura brasileira. Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, José J. Veiga, João Antônio, Victor Giudice, Moacyr Scliar e Jorge Amado são alguns dos nomes que atravessaram a vida da escritora, professora, curadora e produtora cultural. A coluna - intitulada Escrever para Lembrar: o que os grandes escritores me ensinaram - integra as comemorações dos 20 anos do PublishNews, celebrados em 2021. Para conhecer mais da trajetória da titular da coluna, assista à participação da fundadora do Instituto Estação das Letras no PublishNews Entrevista de julho de 2020.

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