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O dia em que briguei com Drummond
PublishNews, Suzana Vargas, 13/04/2021
Suzana Vargas inaugura um espaço no PN. Na coluna 'Escrever para Lembrar: o que os grandes escritores me ensinaram', ela vai trazer histórias de convivência com figurões da literatura nacional, começando por Carlos Drummond de Andrade.

Nessas minhas andanças literárias, como escritora, professora, curadora e produtora cultural já aconteceu de tudo e aprendi muito com o convívio com alguns dos grandes mestres da nossa literatura. E é um pouco desse tudo que pretendo dividir com vocês aqui nessa minha coluna no PublishNews, intitulada Escrever para Lembrar: o que os grandes escritores me ensinaram. Começo lembrando um dos fatos, talvez, mais marcantes do início da minha vida de escritora: uma briga com Carlos Drummond de Andrade. Abaixo, justifico o injustificável.

Foi em abril de 1981, eu saía do Palácio Gustavo Capanema (prédio do antigo MEC) quando, num daqueles enormes elevadores, me vi frente a frente com ninguém menos que Drummond, nosso poeta, um ídolo para mim. Surpresa. Estupefação. Ele estava ali tal qual o conhecia de jornais e revistas: com sua calvície característica, seus olhos miúdos por trás das lentes redondas, sua magreza (ia dizer secura). Era relativamente alto, não muito mais que eu. Não me viu, olhava para baixo, sem grandes interesses por uma jovem de 26 anos, cheia de ímpetos e pequenas ousadias.

Ao vê-lo, meu coração parou, fui tomada por uma espécie de êxtase, uma glória, talvez delírio. Em poucos segundos, me veio à memória minha infância em cidade pequena, recheada por seus versos que memorizava por puro prazer. Frente a frente com aquele ser franzino e circunspecto, tive a ideia de puxar algum tipo de conversa, alguma coisa qualquer que pudesse fazer a esfinge falar. Mas, por onde começar?

Tinha de ser mais rápida que os 14 andares do elevador. Alguma ideia teria de surgir antes que Drummond saísse. Não surgiu. Na falta de coisa melhor, saí atrás dele que caminhava com passos curtos e apressados. Tive de correr para alcançar aquele ser quase diminuto e semovente, mesmo sem saber ainda como abordá-lo. Então, na minha cabeça de leitora inveterada e de escritora estreante, lembrei que um ano antes eu havia enviado ao Mestre meu primeiro livro de poemas e que tinha recebido dele um cartão gentilíssimo (os cartõezinhos de Drummond eram conhecidos: todos os autores da época, ao publicar, os recebiam pontualmente). Essa sua pequena atenção para com os neoescritores fez fama ao longo de sua vida.

Reuni toda coragem que tinha para chamá-lo. Ele parou no átrio perguntando o que eu desejava e – como ainda não atinasse o que dizer, comecei quase gaguejante, falando sobre o livro que havia enviado no ano anterior. Ao que ele - que tinha fama de reservado - respondeu com sua proverbial secura, perguntando se eu ainda não havia recebido seu cartão. Disse que sim ainda confusa sobre a adequação da abordagem. À minha resposta afirmativa sobre o recebimento, ele falou quase entredentes que então estava tudo certo. “Passar bem” ou assim entendi, já bastante decepcionada. E continuou, mais veloz ainda, denunciando parada e perda de tempo, me deixando extática, desconcertada na minha expectativa juvenil.

Àquela paralisia seguiu-se uma espécie de revolta, uma quase indignação. Ora, quem ele pensava que era para me tratar daquela forma? Meu egocentrismo falava mais alto. E essa espécie de revolta expressei numa longa carta que enviei a Drummond na qual contava da minha infância e juventude entre seus versos e sobre a imensa decepção que aquele encontro me provocara. Perguntava, entre tantas bravezas, por onde andava o seu Sentimento do mundo? Seu humor? Sua poesia que me havia conquistado por andar de Mãos dadas comigo? Muitas perguntas e, claro, reclamações sobre sua conduta naquele encontro. Evocava minha pequena cidade, uma cidadezinha qualquer e meu desejo de atenção frustrado.

Acho que minha carta surtiu algum efeito pois sua resposta veio de modo quase imediato. Não havia internet, mas os correios funcionavam muito melhor do que hoje, com certeza. Sua resposta chegou à minha casa numa segunda-feira, em folha branca A4, caprichosamente escrita em Times New Roman com sua assinatura ao final. Pulei de alegria, mas logo à leitura um misto de vergonha e arrependimento tomou conta de mim. Esse constrangimento mudou radicalmente meu olhar para mitos e ídolos. Foi meu primeiro contato com a real dimensão da arte e do artista, tão necessários a quem escreve em qualquer idade. Digitalizei a carta que está logo abaixo ou transcrita no fim deste texto.

Para ser sincera, aprendi a lição, mas demorei muitos anos até assimilá-la em suas dimensões que até hoje nunca cessam de se acrescentar. A vergonha de ter escrito aquela carta me levou escrever para o poeta alguns dias mais tarde e me desculpar pelo puxão de orelhas que tinha levado. Fui mais longe: consegui seu telefone e liguei. Ele foi gentil, reparei que possuía uma vozinha fina tendendo a desaparecer ao final das frases. Polido e sintético como sua pessoa, talvez como um poema que costuma dizer muito com pouco e que cresce como fermento dentro de nós. E só.

Nunca mais tive o prazer de vê-lo. Toda vez que lançava algum livro presencialmente (uma raridade) por alguma misteriosa razão eu não podia comparecer. Mas se pudesse encontrá-lo eu agradeceria muito o fato de, ao assumir-se como ser existencialmente falho, ele me liberava também para a grande aventura que chamamos vida. Nela estão inscritas nossas vitórias, nossas supostas derrotas e nossa condição de seres em estado de mobilidade, nem heróis, nem anti-heróis. Esse texto que torno público pela primeira vez, muito mais que um documento atento a uma jovem “decepcionada” testemunha a grande figura humana de Drummond que eu – com a visão turvada pela admiração e arrogância – não conseguia vislumbrar.

Mais tarde, ao ler WH Auden sobre os perigos do narcisismo do artista e a luxuriante paralisia da autocontemplação (que todos corremos), compreendi alguns dos tantos sentidos desta breve e potente carta. As lições aprendidas com sua leitura me foram e são úteis no convívio com o meio artístico e muitas vezes pensei nela como uma espécie de Carta a um Jovem Poeta, onde Rilke fala a Kappus que o engajamento com a poesia é antes de tudo, um compromisso com a nossa condição humana (em primeiríssimo lugar) e à qual nunca podemos renunciar. Que ela seja útil e reveladora aos leitores, poetas ou não, é o que desejo.


Rio, 11 de abril, 1981

Suzana:

Meu Deus, como é difícil duas pessoas se entenderem no mundo pela expressão do rosto e pelas palavras! É o que mais uma vez na vida concluo ao ler sua carta. Nosso brevíssimo encontro no pátio do MEC deixou na sua cabeça uma triste impressão da minha pessoa. E eu trouxe comigo uma grata impressão de você. Nem de longe me pareceu que você se decepcionara, já não digo com minha figura humana, sequer com meu jeito.

Suzana, eu não sei bem reagir quando alguém me aborda na rua para dizer qualquer coisa simpática, relacionada com os meus escritos. Sou tímido, minha cara. De nascença. Mal pronuncio duas ou três palavras encabuladas, de agradecimento. Mas fico feliz por dentro, pode acreditar. Para um escritor, nada melhor do que sentir a simpatia do próximo pelo que ele escreve. É o melhor prêmio, infinitamente superior aos de ordem material ou acadêmica.

Mais uma vez, foi o que aconteceu naquele breve instante no pátio do MEC. Eu ia apressado, com uma amiga que estava atrasada para um compromisso. Não fosse isso, a conversa seria mais longa, embora não possa garantir que eu desse uma melhor impressão de mim. Você me falou do livro que me enviara há tempos. Eu vivo sempre com a preocupação de não ter tempo para manter em dia minha correspondência. Quando lhe perguntei se eu havia agradecido o oferecimento, é porque receava estar em falta, como frequentemente estou. E gostei de saber que – no seu caso – não estava. Só isso. Tanto que depois comentei com a amiga: “Ainda bem que não deixei de agradecer à essa moça”.

Eu não separo o homem do escritor, Suzana. Acho que um e outro devem ser a mesma pessoa. Quando aquele é superior a este, é porque há um desequilíbrio moral, e isso não me agrada. Não vejo nada de extraordinário no ser humano que faz literatura, arte ou ciência pelo fato de criar. É um ser como todos os demais, contingente, inseguro, necessitado de carinho, capaz de errar e errando geralmente muito. O artista não é indivíduo à parte. Suas necessidades vitais são as de todo mundo. Sua vida é a de qualquer um, limitada pela doença e vigiada pela morte. Procure juntar os dois, artista e gente, e evite julgar pelas aparências e no decorrer de um segundo. Isto não é uma censura, longe de mim a intenção. É o pedido de alguém que já viveu muito e pode verificar como são ilusórias as impressões e expressões fugitivas. DE qualquer modo, sabe? gostei de você ter me escrito contando sua decepção. Você foi sincera e espontânea. Eu gosto disso.

O abraço e a simpatia do velho

Carlos Drummond

Nesse espaço, Suzana Vargas vai apresentar histórias que ela escreveu para lembrar ou lições que aprendeu convivendo com grandes escritores da literatura brasileira. Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, José J. Veiga, João Antônio, Victor Giudice, Moacyr Scliar e Jorge Amado são alguns dos nomes que atravessaram a vida da escritora, professora, curadora e produtora cultural. A coluna - intitulada Escrever para Lembrar: o que os grandes escritores me ensinaram - integra as comemorações dos 20 anos do PublishNews, celebrados em 2021. Para conhecer mais da trajetória da titular da coluna, assista à participação da fundadora do Instituto Estação das Letras no PublishNews Entrevista de julho de 2020.

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