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Como e (sobretudo) por que ler Machado de Assis na escola
PublishNews, Henrique Rodrigues, 1º/02/2021
Em sua coluna, Henrique Rodrigues analisa os riscos de se abolirem as leituras de obras clássicas em sala de aula

Não sei se o assunto disparado pela opinião do youtuber Felipe Neto sobre a leitura de Machado ainda está em pauta nas discussões entre os interessados no mundo dos livros. No mundo dos influenciadores digitais, grandes questões têm o mesmo peso das pequenas, geralmente niveladas por estas tanto no tempo de debate quanto na profundidade das discussões. E, claro, no Maracanã da internet todo mundo vira técnico.

O problema da leitura de clássicos na escola é tão velho quanto andar para frente, e é complexo demais para ser resumido em tweets. Observando a repercussão do caso nesses dias, percebi que houve bastante polarização de perspectivas baseadas em simplismo, como tem sido prática dos debates – se é que podemos chamar assim. A repercussão geral variou desde a concordância identificatória com o jovem (“sim, esses clássicos são chatos mesmos: me julguem”) até a estupefação calcada na autovirtude (“não entendi, pois reli toda a Comédia Humana de Balzac aos 13, no original”). Vamos ver o que tem no meio disso tudo.

Para início de conversa, não creio que seja justo demonizar Felipe Neto. Sejamos sinceros para puxar da memória a quantidade de vezes em que ouvimos – ou mesmo repetimos – que determinadas leituras impostas durante os anos de aprendizado escolar não têm relação alguma com as nossas vidas, ou então porque simplesmente parecia difícil. Não é novidade.

O que torna problemático esse tipo de afirmação é que, dada a influência do youtuber, todo um contingente de pais, alunos e até mesmo alguns professores podem embarcar nessa onda, atropelando todo o esforço de educadores, bibliotecários e demais agentes envolvidos na mediação cultural entre os clássicos e seus potenciais leitores.

O autor como leitor

Incialmente, é muito interessante observar como a apresentação as obras clássicas se deu na formação de alunos que se tornariam escritores. A ideia de que os artistas da palavra foram devoradores do cânone desde cedo vai por água baixo quando observamos suas biografias. No livro A formação da leitura no Brasil, as professoras Marisa Lajolo e Regina Zilberman apontam que vários autores tiveram dificuldades com obras monumentais da literatura durante a infância e adolescência. Paulo Mendes Campos revelou numa crônica: “Logo na primeira página, embirrei com o tal Machado de Assis”. Se houve essa resistência dos vocacionados para a arte da palavra, imagine-se nos demais alunos.

E vale lembrar que a inclusão de literatura brasileira no currículo escolar se deu tardiamente, em função da preferência por obras estrangeiras como referenciais – quadro que, ironicamente, parece ter permanecido, quando entramos numa livraria e nos damos conta de que a produção nacional quase sempre fica escondida nos fundos do estabelecimento.

O poder ultrajovem

A formação de professores, da inicial até a continuada, é um dos nós no ensino de literatura. No primeiro momento, as faculdades de Letras estimulam seus graduandos a debulharem obras literárias como pesquisadores, gerando ótimas reflexões específicas, mas sem atentar para o fato de que esse modelo não funciona para adolescentes do mundo real.

É preciso entender os jovens e ouvi-los. Apenas há pouco tempo o jovem tem sido visto como um ser autônomo, não mais uma sobra da infância misturada com arremedo de adulto. Creio que seria importante trocar a fatídica pergunta “o que o autor quis dizer?” por “o que essa obra te diz?”. O escritor Italo Calvino, no seu Por que ler os clássicos, aponta que a experiência literária nos primeiros anos é cercada por essas dificuldades: “De fato, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso, inexperiência da vida.”

Há não muito tempo, uma jovem me pediu ajuda num trabalho cabeludo de Ensino Médio sobre um conto de Machado de Assis. A questão era tão hermética que me pareceu apenas a transposição do que a educadora recebera durante a graduação, prato cheio para afastar uma possível leitora com quem Machado sempre tentava dialogar. E a jovem ainda me garantiu que adorava Shakespeare! Para que ela não se afastasse para sempre do nosso maior autor, contei como foi meu primeiro contato com o Bruxo do Cosme Velho: lá pelos 12 anos, visitando uma tia, vi entre os livros kardecistas um tal Memórias póstumas de Brás Cubas. Abri e, pela famosa dedicatória ao verme, achei bem engraçado. Só anos à frente descobri que não se tratava de livro psicografado.

Machado de Assis como um direito

Não temos um histórico de valorização moral do livro e da leitura, que se tornam elementos estranhos no ambiente doméstico de uma sociedade extremamente desigual. Nesse contexto, a desvalorização da atividade docente, especialmente das redes públicas, faz com que professores assumam uma carga horária imensa, sem sobrar tempo ou energia para a leitura, seja de clássicos, contemporâneos ou histórias em quadrinhos. Aliás, estar parado e lendo, mesmo para profissionais da área, não costuma ser entendido como um trabalho. Ninguém diz para um piloto de corridas, enquanto ele treina: “Olha, você está apenas dirigindo...”.

E vejam a ironia: Felipe Neto deve ter estudado em escola particular, com professores bem pagos e, supostamente, eficazes no processo de formação de leitores literários. Machado de Assis, pelo que consta, nunca frequentou uma escola.

Peguei o título desta coluna emprestado de um livrinho que recomendo sempre: Como e por que ler os clássicos universais desde cedo, de Ana Maria Machado. A autora de Bisa Bia, Bisa Bel apresenta, de forma muito clara e objetiva (sem trocadilho com a editora da obra), que a leitura é um direito, não um dever. Desse modo, cabe à sociedade apresentar as obras clássicas como uma herança a que todo cidadão precisa conhecer. Mesmo que seja para não gostar. Acredito que esse ponto é um dos mais relevantes na questão, que ganha mais contorno social, ético e estético quando pensamos na recente valorização da negritude de Machado de Assis. É importantíssimo que jovens das comunidades mais pobres do Brasil, solapados por todo tipo de discriminação, saibam que nosso maior escritor era muito parecido com eles. Não nos esqueçamos de Antonio Candido, no seu referencial ensaio O direito à literatura, quando afirma que ela “humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

Clássico é clássico e vice-versa

Ainda que muita gente torça o nariz para a literatura por considerá-la difícil ou chata, ela também não poderia ser abolida apenas por esse motivo. Se a linha de pensamento for estendida, a Matemática quase sempre é complicada e também deveria ser. Química Orgânica na mesma esteira. Existe uma disciplina chamada Cálculo que faz estudantes de Exatas tremerem nas bases, mas dizer que ela deveria ser abolida de currículo é apenas uma bobagem, como é uma bobagem a afirmação de Felipe Neto. Caso se deixasse o “mercado” definir o que se lê nas escolas, teríamos um desastre sem tamanho sobre o qual nem quero falar.

Prefiro seguir junto aos meus colegas que estão na linha de frente, para quem toda pessoa tem o direto de ler Machado de Assis. Investindo na mediação da leitura, com professores tecnicamente preparados e também leitores, com pais que façam sua parte nesse processo, não precisaríamos parar nossas vidas para lembrar da importância de um clássico por conta de um influenciador digital que se expressou de forma inconsequente. Ou ele também acha que na Espanha deveriam parar de ler Cervantes e, na Inglaterra, Shakespeare poderia ser sumariamente abandonado?

Machado de Assis é um patrimônio que diz muito sobre nós, ainda hoje, e provavelmente dirá amanhã e depois. Como nos lembra Ana Maria Machado, “clássico não é livro antigo fora de moda. É livro eterno que nunca sai de moda”.

Henrique Rodrigues nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, em 1975. É curador de programações literárias e consultor para projetos e programas de formação de leitores. Formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 24 livros, entre poesia, infantis, juvenis. www.henriquerodrigues.net

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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