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Meu apanhadão da década
PublishNews, Henrique Rodrigues, 22/12/2020
Em sua última coluna dos anos 2010, Henrique Rodrigues apresenta um panorama literário do período

No final de 2010, caso alguém nos perguntasse como estaríamos em 10 anos, dificilmente haveria uma previsão que passasse perto do quadro atual. E não digo apenas por estarmos (sobre)vivendo na maior crise sanitária dos nossos tempos, mas porque a produção e circulação de literatura passou realmente por bastante coisa.

A década teve altos e baixos, podendo ser vista como um copo meio cheio ou meio vazio. Sim, a tecnologia caminhou, independentemente do setor livreiro, ora facilitando a vida, ora atropelando nossa falta de estrutura básica. Governos mudaram, seja no voto, seja no golpe. A censura deu as caras, ao mesmo tempo em que são buscados novos caminhos para garantir a liberdade de expressão. Para tentar resumir o período, vamos lá.

Balanço geral

Andamos em moonwalk no que se refere à leitura em geral. No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes da OCDE (Pisa), o Brasil está em 407º lugar dentre os 473 participantes. Já o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) aponta que 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais – ou seja, não conseguem realizar, total ou parcialmente, tarefas rudimentares relacionadas à leitura e escrita.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que talvez seja a mais relevante em termos quantitativos sobre o assunto, vem nos mostrando nos últimos anos o tamanho da lacuna cultural no âmbito do setor. De cara, sabemos que 44% da população não costumam ler livro algum, sequer um trecho.

Vamos repetir: em relação a livros, quase metade dos brasileiros não lê nada, xongas, neres de pitiberiba.

Segundo a Retratos, a maior fonte de acesso a livros seriam as salas de leitura das escolas. Mas não são. O Censo do MEC de 2017 aponta que 61% das escolas públicas não têm o equipamento. O Projeto de Lei 9484/2018, que cria o Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares e aponta esses espaços culturais como obrigatórios, está tramitando no Senado, e tem como meta o ano de 2024.

Taí uma promessa para os anos 2020 que deveria ser cumprida, custe o que (e quanto) custar. Lembro que, se estou escrevendo estas linhas aqui, é porque passei pelas maravilhosas bibliotecas dos Cieps (Centros Integrados de Educação Pública), último projeto de educação decente que o Rio de Janeiro teve, isso nos anos 1980.

Esses grandes projetos não precisam acontecer só quando passa por aqui o cometa Halley, não é?

Compras de governo: vício e virtude

A interrupção do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) em 2015 caiu feito uma bomba no setor.

Se esse fato trouxe alguma vantagem foi o fim de um círculo vicioso. Pouco se falava abertamente sobre o assunto, mas muitas editoras, especialmente no segmento da literatura infantil e juvenil (LIJ), criavam livros unicamente direcionados para essas compras, estabelecendo os formatos e conteúdos dos editais públicos como padrão para autores e ilustradores. Não era raro trechos de obras terem que ser alterados durante a edição porque tal palavra poderia ser mal interpretada e a obra excluída da lista de aquisições.

Por conta do volume de obras distribuídas, alardeou-se durante anos que o governo brasileiro era o maior comprador de livros do mundo. Uma crítica feita ao modelo alertava que muitas obras não eram bem lidas ou trabalhadas na escola, sendo muitas vezes abandonadas nos cantos das unidades. Quando fui superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, constatei que muitas escolas de Ensino Médio, de fato, recebiam uma enxurrada de materiais, seja do próprio Governo Federal ou de empresas privadas, sem qualquer planejamento, preparo de equipes ou mediação.

Sobre esse ponto, é uma lacuna que também não foi resolvida na década. Ainda que os profissionais da área estejam cansados de saber que a mediação literária constitui uma etapa fundamental para o estímulo à leitura, não existe política pública para essa atividade no Brasil. Há bons exemplos de projetos na iniciativa privada, mas apenas pontuais, nada que renda estatística para o tamanho do país.

Aliás, o programa “Conta pra mim”, do governo atual, supõe que os pais têm preparo e tempo para aplicar os conteúdos – de qualidade duvidosa, vale dizer – que estão no site. Nesse processo há tantas falhas metodológicas e conceituais que não vou me ater a ele, apenas comparar com o que, para alguns, deve soar até como elogio: desde o Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), implantado durante a ditadura e encerrado em 1985 como um grande fracasso, não se vê nada tão bizarro.

Precisamos falar sobre os PDFs

No final dos anos 1990, quando a Revolução Digital se firmava, cansei de ouvir, até entre entendidos da área: “essa tal internet vai matar o livro”. Não só não matou, como os livros ficaram mais bonitos. Olhe aí para a sua estante e compare o design das obras lançadas nos anos 1980 e 1990 com os mais recentes. Parece que as páginas tomaram banho de loja, não?

A turma que nasceu nessa década criou fanficts, grupos de discussão, juntaram-se no Orkut, blogs, Facebook e em todas as redes possíveis. Há autores, ignorados pela crítica, que são best-sellers e verdadeiras celebridades em plataformas como Wattpad.

A garotada usa o que tem à disposição. Mas sempre que visito escolas e eventos para conversar com a turma, um fato é confirmado: para experiências mais longas, os jovens parecem preferir o bom e velho livro impresso. A ideia de possuir esse objeto portátil que não gasta energia, dura décadas e não quebra se cair no chão é confirmada por aquelas cenas surgidas nas últimas bienais de livros: jovens carregando malas cheias de volumes adquiridos com prazer e afeto.

Por outro lado, há uma quantidade imensa de livros piratas sendo distribuídos em sites, grupos de redes sociais e clubes de leitura. Se você digitar no Google o título de um livro, ele logo completa com o termo “pdf”.

Pessoas muito bem intencionadas, ativistas, professores inclusive, não hesitam em pedir e passar PDFs de livros até em Whatsapp. Surpreendo-me quando profissionais com quem tenho contato fazem isso, o que demonstra a falta de conhecimento sobre como funciona a cadeia produtiva de um livro. As obras que não estão em domínio público são protegidas pela Lei de Direitos Autorais 9610/98.

O argumento de que livro é caro me convence quando estou numa escola pública falando com jovens. Mas não se sustenta se quem diz isso tem um celular de milhares de reais e paga o valor médio de um livro numa cervejinha artesanal, não é?

Piratear livro é privar todos os profissionais que trabalharam nele até ganhar o formato final, como editores, diagramadores, revisores, capistas e distribuidores. E todos sabem: daquele valor de capa, apenas 10% vão para o autor, que é o garçom da literatura.

Literatura: de quem para quem?

Creio que o problema da pirataria não é uma causa, e sim consequência de vários fatores. Inicialmente da falta de mediação, da ausência de valor moral do livro em casa e na escola. Acreditem, ainda tem muita gente que associa livro a algo besta, de rico, um passatempo de elites que não tem algo mais prático com que se preocupar. Quebrar esse conceito talvez seja um dos maiores desafios.

Outro aspecto é a forma equivocada de ensinar literatura em geral. Devo estar me repetindo aqui, mas nas últimas décadas cansei de ver congressos, simpósios, colóquios, palestras, debates, seminários, mesas-redondas, conferências, workshops, oficinas e mais toda sorte de formatos cujo conteúdo preconiza que é preciso atualizar o currículo escolar de literatura. Mas não adianta, continuamos no Barroco, Arcadismo etc., chegando no Tropicalismo, quando enfim acaba a terceira série do Ensino Médio.

Meu filho mais velho, aliás, está se preparando para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Foi bolsista numa boa escola particular aqui perto, mas o conteúdo de Literatura poderia fazer tudo com ele na base do decoreba, menos criar um leitor espontâneo ao longo da vida. Fiz um teste: que ele pedisse a ela uma dica de autor ou autora mais novo/a, de hoje, contemporâneo/a, que esteja em atividade. A indicação foi Ariano Suassuna.

Nessa década a produção literária cresceu muito. Vale notar que as editoras pequenas assumiram um protagonismo nesse escoamento da produção, revelando uma diversidade brasileira que pouco se conhecia. As facilidades tecnológicas permitem que pequenas edições sejam feitas e distribuídas independentemente das grandes redes de livrarias, que estão mal das pernas.

É preciso dizer: nunca se lançou tanto livro ruim, mas é melhor que seja assim do que como era antes, quando publicação era um sonho dourado e restrito às elites – se não financeira, a uma classe média que sempre ocupou os espaços de escrita, edição e divulgação literárias.

Por falar em divulgação, a década marcou o fim de vários suplementos literários, especialmente na mídia impressa, que agoniza a cada ano. Por outro lado, vimos a ascensão dos booktubers como figuras mais importantes na divulgação de livros. Mesmo que a maioria não tenha muito conhecimento ou bagagem, restringindo-se aos nichos de fantasia, chick-lit e congêneres, o fato é que ter uma obra comentada pelos mais conhecidos significa livros vendidos. Daí que as maiores casas editoriais estejam tratando essa galera com tapete vermelho, para as famosas “parcerias” (oh, eufemismos do mercado...). Creio que esse movimento tenda a continuar, porque já existem muitos booktubers mais preparados e conscientes do seu papel de mediação cultural. Taí uma nova profissão se estabelecendo.

Não posso deixar de citar a popularização das atividades voltadas para a criação literária. Seja em projetos de circulação de oficinas, seja no estabelecimento de espaços voltados para esse fim, há um grande interesse no estudo e na prática da escrita. Não por acaso vemos vencedores de grandes prêmios cujos livros foram resultado de oficinas ou cursos.

Outro avanço perceptível foi a inclusão de literatura contemporânea nos estudos acadêmicos. Se há algumas décadas a faculdades de Letras torciam o nariz para o que saísse das suas zonas de conforto, são comuns não só a inclusão de obras contemporâneas, contando também com a própria participação dos autores em aulas e eventos. Além da leitura, a inserção de cursos de escrita criativa nas universidades tem aberto novas possibilidades para o surgimento de novos nomes, como é comum lá fora há muitos anos.

Por último nesse tópico, também acompanhamos o retorno dos clubes de assinaturas. Muitas pessoas têm saudades do Círculo do Livro, de modo que receber títulos selecionados por especialistas pode contribuir muito para a criação de um acervo de qualidade nas residências.

A volta da censura

Um episódio emblemático nesses anos foi a proibição de venda de uma HQ na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2019. O prefeito Marcelo Crivella mandou recolher a revista porque dois personagens estavam se beijando. Escrevi sobre isso aqui.

Infelizmente, não se trata de caso isolado. Em praticamente todas as áreas da cultura o cerceamento à liberdade de expressão é um fato que vem ocorrendo nessa última metade da década. E o mais triste é contar com apoio popular – que, por sua vez, tem deficiências básicas de leitura. Driblar a censura é uma necessidade como a que tiveram os artistas brasileiros durante a ditadura, cujas práticas moralistas sempre se baseiam na “proteção da família”.

A ascensão do pensamento de extrema direita desencavou pensamentos e práticas que pareciam enterrados para sempre. Caberá às novas gerações erradicar esse mal pela arte, pelo discurso e pelo voto.

Eventos literários

A década de 2010 consolidou o formato que a Flip implantou na anterior. Continuaram a surgir eventos com o conceito de festa, mais informais, voltados para o encontro com artistas e menos com a venda de livros. As Bienais, que recebem centenas de milhares de pessoas, parecem viver uma crise de formato, precisando se reinventar. O crescimento da programação cultural já demonstrou esse processo nas últimas edições.

Dos novos eventos, destaco a Flipelô (Festa Literária do Pelourinho), que soma a paixão literária à energia do Pelourinho, criando uma atmosfera pulsante e riquíssima. A Bahia merecia um acontecimento desse porte. E o surgimento da Festa Literária das Periferias (Flup), que deixa de ser um evento estritamente literário para se apresentar como uma revolução cultural no Rio de Janeiro, carnavalizando os territórios de expressão numa cidade desigual e com tantos problemas sociais. Não por acaso, a Flup recebeu no Reino Unido o prêmio de melhor evento literário do mundo, desbancando até a Flip.

Saraus, slams e cordéis

Mas quero sair das páginas, porque a literatura falada e cantada no Brasil tem se estabelecido com grande força. Unindo a tradição do cordel e do repente com a potência dos saraus e slams, essa valorização das oralidades talvez seja o grande movimento literário da década.

Essas práticas se associam diretamente às ações afirmativas e de valorização da diversidade em todas as suas dimensões: geográfica, estética, racial, etária e de gênero. É importante destacar que, pela primeira vez, diversos grupos até então excluídos dos processos artísticos brasileiros tiveram voz, sendo importantíssimo que esse movimento não retroceda.

Para seguir viagem

Não sei dizer o que vou almoçar amanhã, de modo que não tenho a menor capacidade de prever o que vai acontecer na próxima década. (Tenho um livro de poemas, aliás, que se chama “Previsão para ontem”...) No entanto, podemos pegar alguns fatos e pensar no que pode ser feito.

A consagração tardia de uma autora como Conceição Evaristo nos dá certo norte. É fundamental valorizar pretos e pardos como legítimos autores de uma literatura de qualidade, que precisa ser lida e estudada em escala nas redes públicas e privadas. Creio ser tão importante ler Machado de Assis quanto Carolina Maria de Jesus, pois são dois clássicos que souberam desenhar a nossa sociedade.

Ao mesmo tempo, precisamos valorizar a produção literária local. Em todo o país existe uma produção literária, seja oral, seja escrita, que merece circular pelo estado, pela cidade, pelo bairro. E quando digo valorizar, significa moral e financeiramente.

Para isso dar certo, os professores precisam ser os nossos grandes leitores de literatura, pois multiplicam a prática hoje e nos futuros leitores. Nesse processo, seria necessário criar uma política pública literária, com planejamento e coragem de abandonar modelos que deformam leitores para a vida inteira ao obrigarem alunos a decorar “o que o autor quis dizer”, pergunta que violenta toda a criatividade da literatura.

Por fim, espero que na próxima década mais pessoas tenham livros em casa, e que eles sejam vistos como algo tão essencial quanto seus celulares.

Até os anos 2020, camaradas!

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa Oi Kabum!. Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 13 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance O próximo da fila (Record), publicado também na França. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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