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Incidente em Antares
PublishNews, Henrique Rodrigues, 10/08/2020
Em sua coluna, Henrique Rodrigues reflete sobre o livro como caminho para o desenvolvimento do país

O Brasil é grande em tudo, sobretudo na desigualdade. Existem muitas carências em vários lugares, onde tudo está em falta ou então nunca chegou, algo incrustado na nossa cultura que parece não desgrudar por nada. E falar da ideia do livro como caminho para o desenvolvimento para o país virou um lugar comum, quando na verdade é o contrário, pois na prática é algo incomum pacas.

Lembro-me bem de quando, há poucos anos, estive na livraria Leitura de um shopping na Barra da Tijuca. Ela estava promovendo um saldão, pois iria fechar as portas. Por falta de clientes, segundo o atendente que em breve estaria sem emprego. Era a tal crise, porque desde que tenho consciência de mundo ouço dizer que estamos em crise. Ao sair, notei que no restaurante Outback havia uma fila de espera imensa. Para alguns setores não existe crise – ainda que eu acredite que a classe média sofre de crise existencial sobretudo, mas isso não é assunto pra cá.

Pra cá trago um fato que nos surpreendeu por esses dias: o ministro da Economia ensaiando mais um moonwalk político e retroceder a indústria do livro ao taxá-los, o que iria, obviamente, aumentar os preços e tornar a leitura ainda menos convidativa para o cardápio da população. De cara, o aumento seria de 12% no preço final. Essa tributação atropelaria a isenção de impostos em livros definida pela Constituição de 1946, sugerida por Jorge Amado. E também a lei de 2004, que também retirou a cobrança de PIS e Cofins do setor.

E o escritor, o garçom da leitura, que já fica com apenas a gorjeta de 10% do preço de um livro, afinal vai receber menos que o governo.

Tudo errado, ministro. É um tiro no pé, pois até os livros comprados pelo governo ficariam mais caros. Ouça especialistas do setor, que já passam por perrengues há anos. E me vem o saudoso Millôr Fernandes: “Pro homem comum, economia é guardar dinheiro. Pro economista, economia é gastar o dinheiro do homem comum.”

Se para os abastados ficará mais difícil, imagina para os que não são ensinados a valorizar o livro como um item de consumo relevante na sua dieta cultural. E se o governo é o primeiro a distinguir ricos leitores de pobres não-leitores, está garantida a nossa desigualdade. Para o ministro, eles, os pobres, estão interessados apenas em comida. Eita, ferro. Será mesmo?

Por conta da pandemia, tenho visto algumas notícias de inclusão de livros nas cestas básicas doadas para famílias com pouca ou nenhuma fonte de renda. E se durante esses meses de quarentena a boa, velha e eficaz leitura silenciosa não for uma atividade cultural das mais interessantes, escreva aí nos comentários e justifique.

Essas ações, em sua maioria promovidas por empresas, ONGs e outras iniciativas privadas, não são novas, mas são sempre muito bem-vindas. As respostas da população contemplada com esse até então estranho item, geralmente, são muito positivas, evidenciando que a gente não quer só comida, mas também diversão e arte, como cantam os Titãs. É normal que as pessoas não sintam falta do que nunca foi apresentado, de modo que a recepção desse objeto muitas vezes causa o choque emocionante de uma nova descoberta.

A imagem do livro ao lado do feijão e do arroz, se feita em escala e longo prazo, como política pública, poderia preencher a vergonhosa lacuna educacional brasileira. Porque se esse objeto portátil, não perecível e amplamente durável não for a mais eficiente fonte de conhecimento, aprendizado, fabulação e transmissão de ideias entre as gerações, escreva aí também, camarada.

Talvez a valorização moral – e, por extensão, financeira – dos livros seja o primeiro passo para o desenvolvimento de uma sociedade. O ideal mesmo seria que todas as pessoas fossem para as livrarias como vão ao supermercado – ou ao boteco e Outback, pelo menos.

Uma das provas dessa demanda reprimida por leitura ficou muito clara nesses dias, quando foi inaugurada a biblioteca comunitária Marginow, em Antares, favela localizada na ponta da Zona Oeste do Rio de Janeiro. O projeto é tocado pelo escritor Jessé Andarilho, nascido ali, que ocupou um posto policial abandonado para montar o acervo, composto em sua maioria por doações de amigos e conhecidos. O mais interessante foi saber que o espaço, nos anos 1980, era ocupado por um grupo de mulheres que lutavam pela melhoria da comunidade.

Antares fica no bairro de Santa Cruz, que tem o pior IDH do estado. É um dos lugares cuja população, segundo o ministro Paulo Guedes, não entra em livraria. Então como explicar os registros de dezenas de crianças, jovens e adultos que estão indo lá pegar livros e depois voltam emocionados, ansiosos pelas próximas leituras? O interessante, segundo Jessé, é que não há cadastro ou qualquer registro para os empréstimos, e ainda assim todos os exemplares têm voltado.

Antares é uma palavra mais conhecida por conta do romance de Erico Verissimo. No livro, uma greve de coveiros faz com que alguns mortos saiam pela cidade, revelando a imoralidade dos seus habitantes. Como acontece com o Brás Cubas de Machado de Assis, esse distanciamento os permite criticar à vontade os vivos.

Não deixo de pensar que a estratégia furada do ministro para aumentar o preço dos livros tem relação com essa alegoria. Admitem zumbis, mas não zumbis conscientes.

Jessé Andarilho teve a vida mudada ao ler um livro, aos 24 anos. Foi revelado pela Flup – Festa Literária das Periferias, e hoje tem dois romances publicados pela Alfaguara, do grupo Companhia das Letras. Conheci-o num evento literário quando lançou o primeiro livro, e depois tive o prazer em dividir com ele uma mesa no Salão do Livro de Paris, onde falamos sobre a importância da literatura como motor para recriação do mundo. É o que ele está fazendo.

O que esse escritor está realizando em Antares, ao oferecer livros no lugar onde havia vigilância e punição do Estado, é de uma subversão tão simbólica quanto necessária. Não por acaso, nesses dias, uma rádio deu a notícia falsa de que o antigo posto policial abrigava milicianos, levando a uma ação policial que fez crianças se deitarem no chão e apontarem fuzil para o autor. Ao que parece, os livros estão incomodando. E por isso mesmo é que essa biblioteca, para mim, é uma grande fonte de cidadania, e precisa receber todo o apoio possível.

Porque é assim, num incidente, que podem nascer as grandes revoluções.

Henrique Rodrigues nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, em 1975. É curador de programações literárias e consultor para projetos e programas de formação de leitores. Formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 24 livros, entre poesia, infantis, juvenis. www.henriquerodrigues.net

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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