Publicidade
Publicidade
Literaturas de (ou para) existência
PublishNews, Henrique Rodrigues, 05/11/2018
Em sua coluna, Henrique Rodrigues lista anotações sobre os nossos tempos de mudança

Entre leituras de viagem, a correria cotidiana e pescarias no lago da memória, tento olhar o futuro enevoado. No tempo comprimido, as ideias nos chegam rápido, em camadas sobrepostas, numa megacebola cujo maior desafio é tentar tirar sentido de cada etapa antes que ela seja obliterada – com ou sem choro. Tempus fudit, camaradas!

Entre o transe e o trânsito, enumero a seguir um rol de gaguejos, pitacos, potocas whatsáppicas, instantâneos que ficam na peneira das ideias nesses dias de tantas curvas.

Trânsito: acompanhando um projeto voltado para a cultura geek em Goiânia, aprendo com adolescentes, em meio à profusão de cores, sons, cosplayers e uma avalanche de signos lúdicos e estéticos, que os dragões são símbolos representativos dos medos mais primitivos dos mamíferos: répteis e fogo. Por isso queremos dominá-los, pois assim teríamos acesso ao tesouro guardado, que somos nós mesmos. Fui ao “Dicionário de símbolos” e não havia essa referência específica, mas prefiro acreditar nos nossos jovens.

Eleições: parafraseando Cazuza, eu vejo uma grande novidade... de museus. Fui votar na escola de sempre, dei um livro para uma senhora que orientava as pessoas sobre zonas e seções, e ganhei uma aula. Professora de história, Maria das Graças me explicou: “a minha geração e a seguinte não transmitiram bem o valor da democracia e o perigo do autoritarismo. Daí esse novo ciclo, que é do mundo, não só nosso. Mas vamos sobreviver.” Ficamos em silêncio. “A gente sempre sobrevive”, concluiu a professora.

Trânsito: converso com alunos de Letras em Minas Gerais. Na hora das perguntas, uma jovem empreendedora da área de edição pede dicas profissionais sobre assessoramento de novos autores. Vem muita coisa, me lembro rapidamente de alguns casos de sucesso – e muitos de insucesso –, respondo com o receio que sempre tenho de dar uma suposta receita fácil, pois nessa área tudo é incerto e movediço: tudo se desloca, muitos afundam. De todos os ecossistemas, o mais parecido com o meio literário e editorial é o mangue.

Leitura: o Marcelino Freire, que na verdade são pelo menos meia dúzia, porque é possível encontrá-lo em dois eventos literários simultaneamente, sempre com a mesma desenvoltura, escreve no seu livro Bagageiro: “Na literatura tudo se perde. Por isso se transforma”. Eis uma grande dica profissional. Marcelino, esse caranguejo arretado.

Trânsito: viagem a Portugal e reunião de trabalho na Fundação José Saramago. Ao fim, surge Pilar del Río, como um dínamo. Pega um cartaz onde está escrito #elenão #elenunca. Esperamos que seja ainda possível ler o Ensaio sobre a cegueira, um dos meus livros preferidos, sem interferência alguma. Quem procura ideologia marxista em literatura geralmente não entende muito do que seja literatura, marxismo ou mesmo ideologia. #saramagosim

Leitura: “O que nos separa de um estranho é um sorriso”, diz a poeta Luiza Mussnich no seu pequeno e explosivo livro Microscópio. O sorriso vem do sub-riso, uma forma mais comportada do riso medieval. Mas com o tempo adquiriu a ternura necessária como ponte para o outro. Porque agora é preciso rir e sorrir, sobretudo.

Trânsito: em dinâmica com bibliotecárias e agentes culturais no Piauí, trabalhamos técnicas de criação de textos literários, e aprendo muito ouvindo relatos simples e poderosos de leituras e escritas. A biblioteca é o espaço mais dinâmico de todos os equipamentos culturais, porque é no silêncio da cuca, esse imenso palco invisível, onde a arte literária se apresenta. Todo bairro do país deveria ter uma biblioteca com seus silêncios povoados.

Memória: gravo depoimento para um documentário na Uerj, onde estudei Letras. Volto ao tempo em que acessar a universidade era um sonho ainda distante para quem fosse pobre. Foi na concha acústica, agora batizada de Marielle Franco, mesmo lugar onde assisti ao Fidel Castro discursando – acho que ele usava um tênis Nike, e na época fiz algum trocadilho sobre reformas de base. É na universidade pública onde muitos reaprendem a ler e escrever. Comigo foi.

Eleições: somos convidados a escrever um conto ou poema para a revista Época, com o tema das eleições. Lembro-me do Millôr, cuja lucidez faz tanta falta hoje, e escrevo algo parafraseando o Guru do Meyer. “O humor é a vitória de quem não quer competir”, dizia ele. E como humor é água, talvez seja a melhor forma de dissolver esses arremedos de anos de chumbo que se avizinham.

Trânsito e leitura: nesta semana são lançados os dois livros vencedores do Prêmio Sesc, que é voltado para inéditos. Todos os anos tento lê-los como alegorias, entender como essas obras decifram algo que urge e ruge da nossa literatura. Ano passado olhei para trás com Última Hora, sobre o jornalismo em meados do século XX, e conheci mais a Amazônia com O abridor de letras. Agora nascem As coisas, que trata do afeto perdido e buscado no automatismo dos dias, e Entre as mãos, sobre se reconstruir como pessoa, texto e tecido. Livros para existir agora.

Porque agora é, afinal de contas, o único tempo para se existir.

Henrique Rodrigues nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, em 1975. É curador de programações literárias e consultor para projetos e programas de formação de leitores. Formou-se em Letras pela Uerj, cursou especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestrado e doutorado em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ, coordenador pedagógico do programa Oi Kabum! e gestor de projetos literários no Sesc Nacional. É autor de 24 livros, entre poesia, infantis, juvenis. www.henriquerodrigues.net

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

Publicidade

A Alta Novel é um selo novo que transita entre vários segmentos e busca unir diferentes gêneros com publicações que inspirem leitores de diferentes idades, mostrando um compromisso com qualidade e diversidade. Conheça nossos livros clicando aqui!

Leia também
Em nova coluna, Henrique Rodrigues comenta as temáticas literárias das escolas de samba do Carnaval carioca
Em sua coluna, Henrique Rodrigues reflete sobre o papel das premiações na trajetória de autores
Em sua coluna, Henrique Rodrigues faz duas críticas sobre pontos recorrentes à Bienal do Livro e defende a implementação de atividades de leitura no cotidiano
Em sua coluna, Henrique Rodrigues reflete sobre como os eventos literários podem criar desdobramentos locais
Em sua coluna, Henrique Rodrigues aponta para a necessidade de entendimento e profissionalização de artistas da palavra
Publicidade

Mais de 13 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Desta forma, elas estão sempre atualizadas com as últimas notícias do mercado editorial. Disparamos o informativo sempre antes do meio-dia e, graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades. E o melhor: É gratuito! Não perca tempo, clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews.

Outras colunas
As ruas foram tomadas por um público leitor majoritariamente jovem que me deu esperança de um futuro urgente
Publicado pela Giostri, 'Brancos não sabem pedalar', de Vanderson Castilho Munhoz, se passa em 2035, em um Brasil governador por um ditador que apoia o domínio no futebol brasileiro do Clube de Regatas Flamengo
Obra escrita por Paula Carminatti faz parte da duologia 'Ária de Yu'
Escrita por Juily Manghirmalani, 'Vivências asiático-brasileiras: raça, identidade e gênero' aborda questões como identidade cultural, autorreconhecimento, conflitos geracionais e construção de mitos sobre os povos asiáticos
Seção publieditorial do PublishNews traz lançamentos das editoras Mandaçaia, Giostri e Insight
Não existe essa coisa de livro moral ou imoral. Um livro é bem ou mal escrito, e isso é tudo.
Oscar Wilde
Poeta e dramaturgo irlandês

(1856-1900)
Publicidade

Você está buscando um emprego no mercado editorial? O PublishNews oferece um banco de vagas abertas em diversas empresas da cadeia do livro. E se você quiser anunciar uma vaga em sua empresa, entre em contato.

Procurar

Precisando de um capista, de um diagramador ou de uma gráfica? Ou de um conversor de e-books? Seja o que for, você poderá encontrar no nosso Guia de Fornecedores. E para anunciar sua empresa, entre em contato.

Procurar

O PublishNews nasceu como uma newsletter. E esta continua sendo nossa principal ferramenta de comunicação. Quer receber diariamente todas as notícias do mundo do livro resumidas em um parágrafo?

Assinar