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Flip 2018: Vamos falar de Literatura Infantil?
PublishNews, Volnei Canônica, 26/07/2018
Em novo artigo, Volnei Canônica lança um olhar para a infância e a formação de leitores em eventos literários.

Fui convidado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para fazer um bate-papo com a escritora Marina Colasanti na Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha (Itália), que se consolidou como o maior evento dedicado à produção literária de livros para crianças e jovens, onde se outorgam os principais prêmios para a área: Prêmio Hans Christian Andersen e Memorial Astrid Lindgren. Em nossa conversa, Marina disse: se não existisse a Feira do Livro de Bolonha, não existiria a Feira do Livro de Frankfurt. A Feira do Livro de Frankfurt (Alemanha) é a maior feira de vendas de direitos autorais na área da literatura para adultos.

Essa sábia frase de Marina Colasanti nos revela que a Feira de Frankfurt, uma grande potência no mercado editorial, só pode existir porque se formaram leitores adultos. Mas como se formam os leitores? Ontem, quarta-feira, começou a Flip, um dos mais relevantes eventos literários do Brasil e que todo adulto leitor quer conhecer, do qual quer participar. Mas como termos adultos leitores nesse evento? O que garante público para ouvir os escritores que escrevem para adultos?

É muito provável que não exista leitor adulto se não existir um leitor infantil. Inclusive, a possibilidade de mergulho desse leitor no universo, nas estrelinhas, nas temáticas, na subjetividade, na fruição de uma narrativa dos diferentes gêneros literários da “literatura para os adultos” se dá na qualidade da trajetória e da formação do leitor na infância e na adolescência.

Pensar a literatura para a infância, introduzir as crianças neste universo ficcional, que de alguma maneira tenta estruturar o pensamento para traduzir em palavras e conceitos a própria ficção que é a vida — veja bem, eu disse estruturar, e não formatar o pensamento de uma única forma. Sem essa ignição da criança na literatura, sem que ela entenda o valor de uma estrutura narrativa de imagens e palavras como algo essencial ao seu desenvolvimento, dificilmente teremos um leitor adulto com capacidade de fruição para sentar na tenda principal da Flip, ouvir os autores convidados e sair de lá, não com uma frase de efeito para jogar nas redes sociais, mas com vários questionamentos que irão se conectar a muitos outros já existentes.

Sem a valorização da literatura infantil e juvenil nós não teríamos a Flip, ou outros eventos literários. Mas mesmo sabendo dessa importância, a literatura infantil é considerada “literatura menor” por muitos “literatos adultos”, estudiosos e pelo próprio mercado editorial. Recentemente o Prêmio Jabuti — maior prêmio de literatura do mercado brasileiro — desvalorizou a literatura feita para crianças e jovens, juntando categorias destinadas à produção editorial para esse público. O fato mostra desconhecimento sobre as especificidades e exigências desse objeto cultural chamado livro. Nesse sentido, inclusive, não vimos nenhuma manifestação ou movimento por parte dos escritores da chamada “literatura adulta sobre o fato. Isso me traz muitos questionamentos, por exemplo, será que esses escritores não estão preocupados com a qualidade da literatura infantil e juvenil brasileira, com a introdução de novos os leitores na narrativa ficcional? Qual é o leitor que os escritores de literatura adulta querem ver debruçado sobre a ficção que tanto se dedicaram a criar? Será que é um leitor que levante o braço na plateia e simplesmente pergunte: qual foi a sua inspiração para escrever esse livro?

Parece que falar de literatura infantil com gente “crescida” num evento de “literatura para adultos” não tem tanta importância, não é? Acredito que a programação da Flip 2018, nessa nova aldeia que se forma, traz mais um questionamento.

A Casa Libre & Nuvens de Livros, com o tema “Leitura, gesto político”, convidou o Clube de Leitura Quindim para pensar a importância deste gesto desde a infância. Pensando que tal gesto político deve acontecer em casa, na escola, em todo o ecossistema que compõe o mercado editorial, nos meios de comunicação e nos governos, a curadoria do Clube Quindim propôs algumas mesas de conversa: Como garantir a autoria no livro infantil; Curadoria, uma conversa olho no olho: na era da indicação digital; Os medos ao escrever livros para crianças e jovens e o Slam de ilustração: o desenho é pensar com o traço. Por lá, teremos convidados como, Roger Mello, Rosana Rios, Rosana Mont’Alverne, Gil Vieira Sales, Padmini, Isabella Zappa, Daisy Carias, Malu Carvalho, Renata Nakano, Lêda Fonseca, Anna Cláudia Ramos, Andrea Viviana Taubeman, Penélope Martins, Pilar Lacerda, Luciana Grether, Patrícia Auerbach e Liza K. Nomes que se juntarão a muitos outros nomes de escritores, ilustradores, editores e especialistas na área, participando desta Flip, para conversar e debater sobre a importância do universo infantil na literatura.

É importante chamar a atenção para o fato de haver programação específica de muitas casas parceiras da Flip, principalmente das que foram montadas por um coletivo de editoras independentes, já tendo incluídos em seus eventos, lançamentos de livros infantis e atividades voltadas para esse público.

A Flip também tem o olhar para os jovens leitores e, há alguns anos, a Casa Azul, desenvolve um trabalho de formação de leitores em Paraty que se reflete tanto no evento, como na própria construção de uma sociedade mais leitora. Esse programa de formação já sofreu diferentes transformações e hoje, com o nome de Programa Educativo, trabalha com o tema Literatura e Território. Preparou uma programação muito interessante para Flipinha (infantil) e para a FlipZona (programação para os jovens). Trazendo importantes convidados como: Selma Maria Kuasne, Thiago Cascabulho, Sandra Medrano, Milena Manfredini, Lúcia Hiratsuka, Cristiane Tavares, Rodrigo Fonseca, Paulo Lins, Índigo, Keka Reis, Patrícia Oriolo, Marçal Aquino, Patricia Pillar, Maria Adelaide Amaral, Bianca Ramoneda, Kiusam de Oliveira, Marie Ange Bordas, Ana Guadalupe, Matheus Araújo, Walacy Neto, Elisa Lucinda, Débora Seabra. Um trabalho realizado por Belita Cermelli, Beatriz Goulart, Gabriela Romeu e equipe.

Uma novidade nessa Flip é que Colégio Estadual Mário Moura Brasil do Amaral (CEMBRA), com uma linda biblioteca recentemente inaugurada e seu importante trabalho de formação de leitores, abriu as portas para a Flip e para a comunidade, mostrando que escolas públicas precisam estar em consonância com o que acontece no seu entorno. Uma brilhante e ousada iniciativa da diretora Gabriela Gibrail e sua equipe. O CEMBRA, além de receber parte da programação do Educativo da Flip, chamou Verônica Lessa, curadora de vários eventos literários nacionais e internacionais, que propôs grandes encontros com nomes como Pauline Alphen, Raquel Matsushita, Eliza Moreno e João Fagerlande.

A Flip sempre inaugura movimentos literários. Por que não fazê-lo em relação à discussão sobre o lugar da literatura infantil e da literatura juvenil, podendo ecoar em outros eventos literários no Brasil. Se quisermos avançar na sustentabilidade de público leitor para eventos literários vamos precisar colocar também o olhar para a infância e juventude no centro das discussões. E que o público para ouvir essas discussões não seja só de crianças pequenas. Mas principalmente de adultos que assumam não ter ainda maturidade e subsídios para o estudo da complexidade da produção ficcional para crianças e jovens, percebendo esse importante e fundamental caminho para um país de leitores.

Volnei Canônica é formado em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul, com especialização em Literatura Infantil e Juvenil também pela Universidade de Caxias do Sul, e especialização em Literatura, Arte do Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. É Presidente do Instituto de Leitura Quindim, Diretor do Clube de Leitura Quindim e ex-diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, do Ministério da Cultura. Coordenou no Instituto C&A de Desenvolvimento Social o programa Prazer em Ler. Foi assessor na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Na Secretaria Municipal de Cultura de Caxias do Sul, assessorou a criação do Programa Permanente de Estímulo à Leitura. o Livro Meu. Também foi jurado de vários prêmios literários.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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