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Continuando a conversa sobre o Prêmio Jabuti: Ilustração, arte ou técnica?
PublishNews, Volnei Canônica, 13/06/2018
Na coluna de hoje, Volnei continua a falar sobre a repercussão das decisões do Jabuti em mais dois aspectos: ilustração e os critérios de avaliação

O Prêmio Jabuti é uma das maiores condecorações para a área do livro e da leitura, concedido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), e respeitado pelo meio editorial, pelos artistas, pelos formadores de leitores e pela sociedade. Não faria sentido o Prêmio Jabuti existir somente para alimentar egos de artistas, editores e gráficos. O Jabuti sempre estabeleceu conceitos e apresentou tendências para o mercado editorial. Quando uma obra ganha o Jabuti isso repercute em muitos espaços. O mercado editorial, as universidades, os blogs e ambientes nos quais circulam os promotores de leitura mostram especial interesse em estudar as características da obra e de seus autores. Tudo isso, contribui para divulgar o livro, mas principalmente, para pensar, repensar, desfazer ou reafirmar conceitos.

A coluna Novo formato do Prêmio Jabuti – 60 anos desvaloriza a literatura para crianças e jovens foi escrita para abordar os efeitos da junção das categorias Infantil e Juvenil e publicada ontem, aqui no PublishNews com grande repercussão. Continuo, então, dialogando sobre as mudanças que ocorreram na edição de 2018. A coluna de hoje busca refletir o impacto dessas mudanças em outros dois importantes pontos: a) Ilustração e b) Critérios de avaliação.

a) categoria ilustração infantil e juvenil (narrativa visual artística) sendo deslocada para a categoria ilustração – no eixo livro (sugerindo um viés técnico)

- Em edições passadas do Prêmio Jabuti, existia uma categoria específica para avaliar e premiar a ilustração autoral, que se preocuparia mais em alimentar o imaginário, com possibilidades de diferentes leituras e não a transmissão de uma informação fechada, mais representacional ou pedagógica associada a um tema.

- Ao excluir a categoria Ilustração Infantil ou Juvenil, como uma categoria separada, e deslocá-la para a categoria Ilustração, dentro do Eixo Livro - que contempla etapas do processo de produção material do livro físico (nesse novo formato do Prêmio Jabuti as categorias foram alocadas em 4 grandes eixos: Literatura, Ensaios, Livro e Inovação) vamos encontrar um conflito entre a narrativa visual artística e a imagem mais representacional, descritiva, pedagógica. É importante dizer que na imagem mais descritiva podemos também encontrar autoria e não somente técnica.

- Nos deparamos aqui com um conflito entre a arte e a técnica. Por mais que o curador do Prêmio Luiz Armando Bagolin e a CBL argumentem que a comissão de jurados possa ter um olhar diferenciado para o trabalho do ilustrador autoral, preocupado em alimentar o imaginário do leitor e o ilustrador que necessita da imagem para transmitir com precisão uma informação, seria nebuloso comparar trabalhos tão distintos.

- Teremos aqui concorrendo entre si: de um lado, uma narrativa imagética ficcional, com a estilização do traço, propondo uso de diferentes materiais como colagem com papel, tecido, tampinha de garrafa, cabelo humano e outras matérias expressivas, numa proposta da imagem proporcionando ao leitor uma experiência mais profunda no campo subjetivo e, do outro lado, um desenho mais pragmático, buscando a precisão e verossimilhança, como descrição do corpo humano, de botânica ou científico, onde o artista necessita retratar o funcionamento, por exemplo, do sistema digestivo. Não seria genérico demais em relação à obra de artistas visuais com trabalhos diversos, com diferentes propósitos, essa tentativa de equiparação? Pareceria leviano considerar que um tipo de ilustração está acima da outra. Ambas são fundamentais e se expressam com propósitos diferentes. Inviável então a comparação entre elas. 

- Uma outra coisa que pode passar despercebida numa primeira leitura do regulamento é a mudança da categoria ilustração infantil para a categoria ilustração. Para quem é da área, no entanto, isso sobressai: aqui se evidencia o caráter técnico, desvalorizando e desrespeitando o trabalho do ilustrador como autor de ficção.

- Retrocedemos então, em mais uma questão que parecia incorporada depois dos avanços na área, de que a autoria de uma obra de ficção não é apenas do escritor. Levar a categoria ilustração infantil para uma categoria “ilustração com um olhar técnico” e não artístico, demonstra, que na visão da CBL o ilustrador voltou a ser um prestador de serviços contratado para dar uma mera formatação ou explicação complementar ao texto verbal de ficção. Novamente a ilustração é colocada à serviço da palavra. Digo isto, porque conforme relato da CBL, esse regulamento passou por diferentes comissões onde diferentes editoras ocupam cadeiras nessas comissões.

- É curioso constatar que o Livro dos Mortos (Egito – 1.040 a.C. - 945 a.C.), um dos primeiros livros de que se tem registro na história da humanidade, fartamente ilustrado, com protagonismo equivalente das ilustrações em relação à palavra, nos faz perceber que desconsiderar a importância da imagem como elemento artístico-narrativo é, não só um desconhecimento da história do livro, como um preconceito de nossos dias. Talvez incentivado pelo pavor das imagens na cultura judaico-cristã. E olhe que na coluna anterior, sobre a junção das categorias infantil e juvenil já havia mencionado o Egito Antigo. Acho que precisamos realmente voltar na história para ver que não estamos avançando, por exemplo, com essas mudanças do prêmio.

- A desvalorização da narrativa visual como elemento da ficção e do trabalho do ilustrador como autor fica mais perceptível ainda quando se lê no regulamento da referida categoria, dentro do eixo Livro, que obras inscritas neste eixo estão excluídas da premiação “Livro do Ano”. Essa afirmação ratifica que essa categoria não dá conta de avaliar a ilustração infantil na sua diversidade e na sua capacidade ficcional. 

- Para um livro de imagem ou um álbum ilustrado ter sua narrativa visual contemplada como ficção, a obra terá de ser escrita no eixo Literatura, na categoria Infantil e Juvenil e não no eixo Livro, categoria Ilustração. Porque no eixo Livro ele concorre somente como melhor ilustração. O que isso quer dizer e o que representa para a ilustração do livro infantil eu não saberia dizer.

- A CBL tem acompanhado a valorização dos profissionais da ilustração no exterior. Não só pelo fato de termos um Hans Christian Andersen de ilustração, o ilustrador Roger Mello, mas porque o Brasil vem se destacando no cenário externo também graças ao trabalho dos ilustradores. Nos dois últimos anos, por exemplo, ilustradores como Marcelo Pimentel e Marilda Castanha ganharam prêmios no Nami Concours – Coréia do Sul com seus álbuns ilustrados O fim da fila e O sem fim. Nossos artistas da ilustração estão se destacando em feiras e eventos internacionais como Bienal de Ilustração de Bratslávia, feiras de livro de Bolonha, Guadalajara, Pequim, Frankfurt, Londres e muitas outras.

- Ao olharmos mais atentamente para a categoria Ilustração, encontramos a seguinte descrição: Imagens visuais de caráter técnico, científico ou artístico, articuladas ao texto verbal de um livro. Nesse conceito, fica claro que a ilustração não pode ser uma narrativa separada. Parece precisar estar sempre subordinada à palavra. Como se a narrativa visual não fosse uma expressão ficcional em si mesma e nem constituísse uma linguagem própria com autonomia em relação à palavra. Então, pela descrição dessa categoria, um livro somente de imagens ou “sem palavras”, não poderá concorrer, já que as imagens, nesse caso, não estão ligadas ao texto verbal. A não ser que o júri leve em consideração o título do livro, os elementos pré e pós textuais e a ficha catalográfica, os únicos textos por escrito constando dessa categoria de livro.

b) critérios de avaliação

- Os três critérios de avaliação que serão apreciados pelo júri: 1) interação entre imagens e texto;  2) originalidade, inventividade e perícia técnica; 3) edição e produção gráfica.

Uma vez mais o pensamento da necessidade de existir a imagem ligada ao texto verbal é reforçada no primeiro critério.

- Já o segundo critério é totalmente contraditório porque apresenta a questão da originalidade e inventividade, mais ligadas ao fazer artístico livre, experimental, fluído, com o termo perícia técnica. Quando me deparei com esse critério de avaliação fiquei tentando descobrir como o júri poderia resolver essa equação. Confesso que não consegui. O que seria perícia técnica? A perícia técnica estaria ligada a ilustrações de livros informativos? Não me parece também correto com os livros de não ficção, conhecidos como informativos. Os ilustradores de literatura infantil estão preocupados com uma narrativa visual que trabalha a estilização do traço, que transforma a cor em sentimento, onde tamanhos de personagens são relativos a ideia que se busca, etc. Aqui se encaixa a originalidade e inventividade, mas não se encaixa o critério perícia técnica.

- O terceiro critério, transita entre o técnico e o artístico. O livro de imagem é criado sempre pensando o todo e a sua materialidade. Esse critério pode sim dar conta de olhar para uma estrutura narrativa visual ficcional e para a ilustração descritiva e ainda incorporar o projeto gráfico. Falo do projeto gráfico aqui, porque ele não esta citado nessa categoria porque ganhou uma categoria separada. Mas acredito que ele será contemplado no olhar do júri dentro deste terceiro critério.

- A intenção desta coluna, como a anterior, não é o questionamento sem fundamento. A área está tendo muita dificuldade de entender essas mudanças do Prêmio Jabuti e principalmente de acreditar que elas possam contribuir para o desenvolvimento e valorização da literatura infantil e juvenil. 

Essa conversa precisa continuar aqui, nas bibliotecas, nas universidades, dentro das editoras, nas livrarias, em todos os espaços de formação de leitores, em eventos literários, nas casas, entre todos da área e principalmente, com os futuros e atuais leitores. Seguimos conversando...

Volnei Canônica é formado em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul, com especialização em Literatura Infantil e Juvenil também pela Universidade de Caxias do Sul, e especialização em Literatura, Arte do Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. É diretor do Centro de Leitura Quindim e ex-diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, do Ministério da Cultura. Coordenou no Instituto C&A de Desenvolvimento Social o programa Prazer em Ler. Foi assessor na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Na Secretaria Municipal de Cultura de Caxias do Sul, assessorou a criação do Programa Permanente de Estímulo à Leitura. o Livro Meu. Também foi jurado de vários prêmios literários.

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