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A edição universitária em tempos de crise
PublishNews, José Castilho Marques Neto, 21/05/2018
Castilho estreia sua coluna no PublishNews falando sobre a importância da reunião da Abeu

O famoso Castelo Mourisco, sede da prestigiosa Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Rio de Janeiro, receberá nessa terça-feira a abertura da 31ª Reunião Anual da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu). Em tempos de crise como o que vivemos no Brasil, não deixa de ser inspirador que as editoras acadêmicas brasileiras iniciem seu congresso anual no histórico edifício que passou por várias batalhas contra a ignorância e o atraso de nosso sofrido país desde sua inauguração no início do século XX.

Foi a partir desse centro de excelência da produção científica e de saúde que seu fundador, Oswaldo Cruz, comandou a tristemente famosa Revolta da Vacina em 1904, marcada por um lado pela conquista da ciência por combater eficazmente a varíola que dizimava a população do Rio de Janeiro e, por outro lado, marcada pela truculência das autoridades da República no mesmo período que, no afã de “modernizar” a cidade, expulsava os pobres e os enviava a cortiços, expulsando-os de casas populares que passaram a dar origem a grandes avenidas e novas residências destinadas às camadas privilegiadas da sociedade. A reação contra a vacinação obrigatória por parte das camadas populares da cidade, mantida na ignorância e na desinformação, se inseriu na revolta popular contra as medidas da recente república que já havia nascido com a marca do autoritarismo e da exclusão social tão presente ainda hoje na história do Brasil.

Organizada pela competente equipe da Editora Fiocruz que completa 25 anos de excelência editorial universitária, a Reunião da Abeu certamente enfrentará temas cruciais para a divulgação das conquistas científicas do país. Fruto das pesquisas de nossas universidades e institutos de pesquisa, majoritariamente públicas e confessionais,  e exemplarmente editadas há mais de trinta anos por cento e vinte editoras abrigadas na Abeu, o trabalho editorial que se desenvolveu enormemente nos últimos vinte anos corre o risco de enormes retrocessos, tão significativos quanto aqueles que sofrem suas unidades de origem, as instituições universitárias. A contenção orçamentária pelo período de vinte anos decretada pelo atual governo dimensiona com a frieza dos cortes à pesquisa e à educação o retrocesso anunciado da produção científica e das instituições que a produzem.

Os colegas editores universitários que estarão presentes no Palácio Mourisco sabem que a edição acadêmica para ser eficaz e cumprir sua missão editorial pode se expressar por vários e diferenciados projetos, mas não pode prescindir de conteúdos de excelência que constituem a própria essência das publicações científicas. A fonte desse incrível e precioso material que nós, editores, chamamos de “originais” tem um só nascedouro: os pesquisadores em seus laboratórios, em suas bibliotecas, em seus colóquios, seminários e grupos de estudo, atividades que definem o trabalho de instituições que não apenas reproduzem o conhecimento mas que também o produzem.

A resiliência das editoras universitárias contra esse estado de coisas que apontam para o retrocesso da pesquisa e da sua divulgação adequada não deve, a meu ver, caminhar apenas para o protesto e a censura àqueles que comandam a volta do Brasil para vinte anos atrás. É preciso encontrar caminhos que viabilizem a manutenção de programas editoriais que privilegiam o melhor do que foi produzido pelos acadêmicos e, ao mesmo tempo, possam sobreviver economicamente mesmo em tempos de alta restrição das fontes de financiamento.

Observando a programação da Reunião Anual vejo temáticas que podem inspirar a percepção do que podem vir a ser esses caminhos que emprestam luz a tempos obscuros.

Se bem entendi, a concepção do título do seminário que acontecerá nos quatro dias já aponta a necessidade de se ampliar o diálogo – “Edição acadêmica em perspectiva de diálogo”. E dialogar cada vez mais com a sociedade brasileira, com seus leitores, é medida urgente que não deve ser apenas atribuição institucional das entidades representativas, como a Abeu, mas que precisa se refletir na preocupação cotidiana de cada casa publicadora de nossas universidades.

O que quero dizer é que caberá a cada editora nesse momento cuidar cada vez mais do acesso de seus potenciais leitores. Dialogar com quem lê, ou pode vir a ler, os livros das editoras universitárias significa criar laços, significa considerar o leitor como a parte mais importante do longo ciclo que começa com o autor. É o leitor que organiza toda a cadeia criativa, produtiva e distributiva do livro e esse entendimento também se aplica ao livro universitário. A pergunta que é preciso fazer hoje é se há por parte das editoras acadêmicas essa preocupação central com o leitor, aquele que está dentro e aquele que está fora das instituições de educação formal. No cotidiano isso se traduz pelo atendimento comercial eficiente,  pela preocupação com a acessibilidade e pela disponibilidade dos títulos, pela edição bem cuidada mas ao mesmo tempo economicamente viável para o bolso dos leitores que também passam por severas restrições financeiras.

Trilhar esse caminho, construí-lo, significa antes compreende-lo. Espero que todos os presentes ouçam com arguta sensibilidade a mesa de abertura que traz como tema as visões contemporâneas sobre o papel do livro.

Para discutir esse problema complexo duas inteligências e sensibilidades de alto teor humanístico, poético e intelectual. A Fiocruz convidou a escritora Conceição Evaristo cuja obra condensa ficcionalmente e com grande beleza todas as aspirações por liberdade, identidade e afirmação da maioria de nossa população. Sua parceira de mesa é a professora Eliana Yunes, também escritora, contadora de histórias, ensaísta, pensadora da questão da leitura e da literatura e guerreira como poucas pelo direito à leitura no nosso país, responsável pela criação de programas seminais do setor como o Proler. Ambas tem na sua rica história de vida profundos vínculos com o diálogo e com a população brasileira. Escutam e se fazem ouvir com admiração, amorosidade e respeito aos leitores e aos não leitores. Desfrutar e recriar a partir das reflexões de ambas palestrantes será uma oportunidade para sair de eventuais bolhas restritivas que tão facilmente nós nos metemos nessa irritante sociedade do espetáculo que vivemos.

As demais mesas tangenciam a ampliação de horizontes tão necessários aos momentos de crises obscurantistas. Organizadas em rodas de conversas, os diálogos preveem temas como a atual produção dos livros acadêmicos e seus objetivos, os espaços de publicação e circulação do conhecimento científicos, as estratégias para levar os livros para além dos “muros da academia” e o necessário debate sobre políticas públicas para o setor aqui duplamente entendido como o editorial e o científico.

Todos os temas das rodas de conversa apontam em direção ao futuro do livro universitário, centro temático da mesa de encerramento. Espero que esse diálogo apontado pelo seminário que dá conteúdo à Reunião Anual consiga vislumbrar a enorme floresta e não apenas árvores isoladas que, certamente, se constituem, isoladamente, como problemas importantes, mas se consideradas fora do contexto da floresta tendem a murchar como esperança e caminhos reais de luta pelo futuro livre, sustentável e autônomo das edições universitárias.

Refletir profunda e livremente sobre a história das nossas editoras universitárias e de seu provável futuro considerando o presente é atitude prudente e necessária nesses tempos de irracionalidade, quebra de direitos, autoritarismos, desprestígio da inteligência e corte profundo de recursos. E prudência requer coragem e ousadia, estratégias de atuação, discernimento inteligente do que pode e deve ser feito para manter o crescimento e os objetivos das iniciativas editoriais.

Se os tempos são de crise generalizada, a resiliência deve superá-la com criatividade, altivez, generosidade com os parceiros e conhecimento. Felizmente hoje contamos com um número razoável de profissionais e editoras cujo exemplo é uma fortaleza para o setor e, além do fator humano, contamos com instrumentos técnicos e tecnológicos em todos os estágios da autoria, da edição e da distribuição que, se bem utilizados, podem atuar para que objetivos sejam alcançados com menor custo.

Oxalá a 31ª Reunião Anual da Abeu realize a unidade e o diálogo que caracterizou a construção da própria associação. O momento agora é de ampliar essa rica experiência transcendendo-a para campos ainda mais amplos. Com firmeza contra os cavaleiros do retrocesso, mas com a cabeça aberta às imensas possibilidades que o mundo contemporâneo oferece. Observarei ao longe e com esperança os resultados. Boa reunião a todos e longa vida à Abeu!

José Castilho Marques Neto, Doutor em Filosofia e professor aposentado da FCL-Unesp, dirigiu a Editora Unesp por 27 anos, foi presidente da Abeu e da Eulac em três mandatos. Foi diretor geral da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo e Secretário Executivo do PNLL (MinC e MEC) de 2006-2011 e 2013-2016. É consultor do Cerlalc para políticas públicas de leitura e sócio proprietário da JCastilho – Gestão & Projetos – Livro-Leitura-Bibliotecas. Contato: jose.castilho@jcastilhoconsultoria.com.br

Tags: ABEU
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