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Olhar o passado, pensar e intervir no presente, planejar o futuro! - Parte 1
PublishNews, José Castilho Marques Neto, 03/07/2018
Na primeira parte de artigo, Castilho fala sobre o confronto entre a virtude da prudência e sua ausência e conta o que aprendeu com o 26º Congresso da União Internacional de Editores de 2000

A virtude da prudência é necessária aos bons governantes, já ensinavam os filósofos da Grécia antiga, principalmente Aristóteles. E sabemos que essa rara virtude para ser exercida requer memória, inteligência e previdência. Conjugado, esse exercício se apoia no olhar crítico do passado, atua sobre o presente e vislumbra com inteligência o futuro. Como está essa conjugação nos homens e mulheres que se dedicam ao livro e à leitura?

O mundo do livro, da leitura e das bibliotecas passou os últimos 20 anos em contínua transformação, ou melhor, de um sem número de tentativas de transformá-lo. Alguns câmbios importantes aconteceram e se consolidaram como tendência efetiva e a maior parte deles passou como cometas que rasgam o infinito espaço sideral de nosso pequeno planeta. O que muitos de nós, profissionais do livro e da leitura, muitas vezes não percebemos foi o quanto dessas tentativas de mudar o fazer e o distribuir da centenária profissão de editor, livreiro, bibliotecário e, claro, autor/escritor, foram baseadas em avanços tecnológicos pertinentes e quantas outras nos foram colocadas por pirotecnias e técnicas de vendas próprias de nossa era da “sociedade do espetáculo”.

Peço ao possível leitor dessas linhas, profissional da área ou pesquisador do tema, que reflita rapidamente sobre quantas propostas, projeções e vaticínios sobre as ações estruturantes do setor, a começar sobre as soluções para a aparente divergência insolúvel entre o livro impresso e o e-book, foram emitidos por centenas de “especialistas” e que não duraram sequer um ano? Quantos artigos, palestras e mesas redondas foram realizados nos últimos 20 anos onde lemos ou ouvimos dos mais exóticos e proféticos anunciadores que haveríamos de adotar seus métodos de produção e vendas senão estaríamos fadados ao fracasso profissional e ao lixo da história da edição, incluindo aí todo o processo autoral e o distributivo, inclusive as bibliotecas?

E quantos, nessa maratona de textos e palestras se preocuparam e abordaram com firmeza e convicção a necessidade de que como autores, editores, publishers, distribuidores, livreiros, bibliotecários, deveríamos ter como epicentro de nosso trabalho formar ininterruptamente novos leitores, nosso principal capital?

Essas reflexões permanentes de meu fazer profissional que já chega há quatro décadas neste 2018, voltaram à tona para esse artigo do ano porque me lembrei com muita clareza de um grande congresso que participei no ano 2000 – o 26º Congresso da União Internacional de Editores, a UIE/IPA. Presidido executivamente pela amiga e editora, à época Presidente da Câmara Argentina do Livro, Ana María Cabanellas, auxiliada por várias lideranças internacionais do setor, inclusive editores amigos como Alfredo Weiszflog e Alejandro Katz, o Congresso realizado entre 1º e 4 de maio de 2000 em Buenos Aires foi um divisor de águas, pelo menos para mim e muitos outros, no debate que impactou um lotado auditório de editores de todos os cantos do mundo. Todos ali, profissionais experientes de grandes, médias e pequenas editoras, chegavam impactados pelo já iniciado processo de concentração que marcou fortemente a indústria editorial desde o final dos anos 1990, e igualmente pelas notícias e projeções alarmantes sobre a nova “textualidade eletrônica”, para usar o excelente conceito de Roger Chartier.

Voltando à ideia inicial desse artigo, e relendo minhas anotações e parte dos textos distribuídos no Congresso, constato que também naqueles dias houve um confronto entre a virtude da prudência e sua ausência. E como entendo que enquanto profissionais do livro e da leitura ainda não conseguimos retomar essa virtude coletivamente e na maior parte das vezes ainda seguimos no ritmo alucinante dos gadgets que se desmancham na semana seguinte, irei comentar aqui algumas questões pontuais que foram relevantes no 26º Congresso e que são alertas válidos até hoje. Essas questões serão extraídas das falas de alguns palestrantes e estabelecem pontos de vista e posições que permanecem como dicotomias entre os que analisam estratégias para o desenvolvimento da indústria e a ampliação dos leitores e aqueles que ou buscam somente vender seus produtos ou se equivocam ao pensarem exclusivamente em curto prazo. Para mim os primeiros são os prudentes e os que manterão o livro e a leitura para as futuras gerações.

Para começar entendo que a virtude da prudência esteve presente junto aos organizadores do 26º Congresso que trouxe ao debate o confronto entre posições díspares demonstrando a vontade de avançar nos conteúdos. As “Palavras de Abertura” de Ana María Cabanellas além de relembrar os objetivos tradicionais da UIE/IPA – “livre circulação dos livros; proteção do direito do autor e do editor; promoção da leitura e liberdade de publicar” – estabeleceu o tom contemporâneo no qual o mundo editorial fazia seu encontro: a aceleração da globalização, as reações internacionais populares ao modelo econômico que se esgotava naqueles anos 1990 e o lugar único do livro para o setor privado na sua ambivalência: ser uma mercadoria que é antes de tudo um produto cultural. Mas foi além e exortou que os líderes empresariais deveriam ser a “ponte” entre os governos e o setor privado para encontrarem soluções e políticas públicas que fizessem superar os entraves. A ideia de cooperação entre o setor produtivo da indústria editorial e os governos interessados no fomento à leitura estava à mesa e na diretriz do encontro, alinhados com as instituições internacionais promotoras do Congresso, a UNESCO. Considerei essa possibilidade de participação da sociedade nos programas algo fundamental, contrária ao isolamento que tínhamos vivido em toda a América Latina até meados dos anos 1980 com as ditaduras militares centralizadoras e obviamente excludentes da participação cidadã. Os programas e planos nacionais de leitura, elaborados a partir do Ano Ibero Americano da Leitura fomentado pelo CERLALC e OEI a partir de 2005, comprovaram essa assertiva dos organizadores do 26º Congresso.

Apesar das indicações prudentes da UIE/IPA e dos coordenadores do congresso, não me recordo e minhas anotações confirmam: os palestrantes da indústria editorial, talvez impactados pela realidade que parecia apocalíptica, não conseguiram avançar e delinear posições estratégicas naquele momento. Essa visão coube a analistas e intelectuais que comentarei mais tarde, mas foi lamentável constatar que as lideranças sabiam identificar os problemas imediatos, mas não chegavam sequer perto das conclusões necessárias para entender o período histórico e projetar novos rumos estratégicos com serenidade para o seu negócio. Um bom retrato desse impasse foi a palestra do Senhor Michael Wilens, respeitado profissional e presidente à época do West Group, The Thomson Corporation, USA.

Metodicamente Wilens enumerou todos os desafios imediatos que as editoras enfrentavam com o novo cenário digital: a transformação em curto prazo de novos suportes dos textos e a modificação da forma de trabalhar da indústria editorial. Em consequência, a imposição, em longo prazo, para se modificar fundamentalmente a forma de realizar os produtos editoriais. A partir desses desafios e impactado pela então memorável venda de cinco milhões de exemplares virtuais do livro eletrônico de Stephen King em 48 horas, o palestrante enumerou fatos que abalaram e continuam perturbando o até então tradicional modelo de negócio editorial: há audiência para o novo formato, mas falta infraestrutura para torna-lo global; um produto virtual pode ser dirigido diretamente às redes e isso é potencialmente perigoso porque dispensa o editor; o recálculo do preço final ao consumidor é complexo e gera novas perspectivas para precificação, inclusive a ideia que precisa ser mais barato que o livro de capa dura; a questão da pirataria virtual e a facilidade da reprodução muito mais ativa que a reprografia; os sistemas de rede também criaram as livrarias virtuais, haverá a tentação de o editor vender diretamente seu produto eliminando as livrarias? Ora, argumenta Wilens, tudo isso em médio prazo “deverá modificar a cadeia de valores do nosso processo (produtivo e negocial)”. Finaliza fazendo uma profissão de fé: “Não creio que os livros, como os conhecemos, desapareçam em um futuro próximo, e podemos estendê-los através da tecnologia do livro eletrônico”.  Alertando que não tem as respostas, acrescenta seu temor do futuro porque as novas forças destruirão e forçarão a construção de uma nova cadeia de valores e colocará o acomodado setor em um “lugar diferente”.

Como ele, todos os que falaram pela indústria editorial não apresentaram respostas ou propostas que procurassem entender o novo que surgia com as novidades tecnológicas da textualidade eletrônica. Em minha opinião, na época e até hoje, mais uma vez se olhava o leitor apenas como um consumidor e não como um ser humano que busca na leitura muitos significados e necessidades. O alerta da fala de Ana Maria Cabanellas de que o livro é uma mercadoria, mas antes é um produto cultural passava longe das aflições dos CEOs das grandes empresas editoriais. A ausência da virtude da prudência e de seu exercício, que poderia produzir uma estratégia inovadora, era ainda mais contundente porque alimentada pelos arautos bem treinados da nova indústria fornecedora, as fabricantes de softwares e hardwares para a nova onda que se afirmava no início do novo século.

Em alguns momentos essa palavra dos novos fornecedores da indústria editorial surgiu grotesca. Talvez a mais explícita tenha vindo da importante figura do então Vice-presidente de eMerging Technologies da Microsoft, Senhor Dick Brass, que sem muitas cerimônias centrou sua fala em vaticínios devastadores para a indústria editorial arraigada ao livro impresso. Conseguiu impressionar muitos e alguns já se viram falidos, vendendo seus livros de papel para reciclagem em usos menos nobres, mas também proporcionou boas piadas dos mais céticos, ou prudentes. Entre algumas profecias ele datava o ano de 2008 como o da superação de venda dos e-books sobre os livros de papel; que em 2015 toda a Biblioteca do Congresso dos EUA teria apenas e-books; que em 2017 as bibliotecas como as conhecíamos seriam “objetos de charme antigo”. A realidade se mostrou diferente, como sabemos: em 2016, oito anos após a profecia datada, a venda de e-books chegou a um patamar de 25% do total de vendas de livros nos EUA e mantém-se nesse teto; em 2018 a Biblioteca do Congresso americano, apesar de um importante trabalho de digitalização de seu acervo, não dispensou seu fundo bibliográfico impresso e não parece ter intenção de fazê-lo; em 2018, um ano após a decretada superação das bibliotecas “old fashions”, presencia-se a renovação do conceito de biblioteca em centenas de países conforme orientações da IFLA e de políticas públicas como os Planos Nacionais de Leitura, além do êxito de bibliotecas inovadoras como as “bibliotecas parques” colombianas que se tornaram modelos de inúmeros programas internacionais, e projetos futuristas e inclusivos de bibliotecas em centros comerciais e grandes aglomerados de pessoas no oriente. O mundo, ao contrário da previsão exterminadora, está renovando as suas bibliotecas. Por se tratar de um homem inteligente, faltaram ao nosso palestrante os atributos da memória e da previdência para que pudesse estar no rol dos que utilizaram a virtude da prudência. Ou, quem sabe, a determinação de vender seus produtos superou qualquer dimensão crítica ao falar a um seleto auditório de profissionais.

 Ao olhar o passado, sem correr o risco de não exercer a prudência que trabalha o presente e vislumbra o futuro, quero refletir com o leitor sobre o que persiste dessas visões explicitadas em 2000 e o que precisamos mudar ainda na grande cadeia do livro e da leitura após esses dezoito anos passados do 26º Congresso. E serão sobre outras vozes, essas sim prudentes naquele Congresso que agora relembro que procurarei construir essas reflexões.

Não terei espaço para comentar nos limites desse artigo do ano as posições que considero virtuosas e expor minhas posições. Completarei esse artigo em duas etapas. No mês que vem comentarei as falas dos prudentes: Roger Chartier, Milagros Del Corral e Emília Ferreiro.

* (Artigo originalmente publicado no Blog del libro,la lectura y las bibliotecas do CERLALC/Unesco, em 1º de março de 2018).

José Castilho Marques Neto, Doutor em Filosofia e professor aposentado da FCL-Unesp, dirigiu a Editora Unesp por 27 anos, foi presidente da Abeu e da Eulac em três mandatos. Foi diretor geral da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo e Secretário Executivo do PNLL (MinC e MEC) de 2006-2011 e 2013-2016. É consultor do Cerlalc para políticas públicas de leitura e sócio proprietário da JCastilho – Gestão & Projetos – Livro-Leitura-Bibliotecas. Contato: jose.castilho@jcastilhoconsultoria.com.br

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