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Pela liberdade de publicação
PublishNews, Carlo Carrenho, 18/12/2017
Que a liberdade de se publicar tranquilamente livros contra a legalização do aborto ou de Marx para crianças continue existindo no Brasil

Espanhóis exercem sua liberdade de manifestação na calle de Alcalá, no centro de Madrid, no último dia 14/12 | © Lima Andruška
Espanhóis exercem sua liberdade de manifestação na calle de Alcalá, no centro de Madrid, no último dia 14/12 | © Lima Andruška

Na última quinta-feira, estava em Madrid e me deparei com uma manifestação de funcionários públicos em plena calle de Alcalá, no centro da cidade, organizada pelos sindicatos CCOO e UGT. Os manifestantes avançavam em uma das principais vias de Madrid, escoltados pela polícia que desviava o trânsito. Eu não sabia do que se tratava o protesto, mas fiquei feliz por estar em um lugar onde ele era possível e respeitado. Coloquei uma foto no Instagram e escrevi: “Libertad”.

Dois meses atrás, na Feira de Frankfurt, a história não foi tão tranquila. Quando Bjoern Hoecke, um dos líderes do partido de extrema direita AfD, apareceu no evento para assistir a apresentação de um livro da editora de extrema direita Antaios, houve um quiproquó generalizado entre manifestantes de esquerda de um lado e o pessoal da extrema direita do outro. Resultado: a nada simpática Polizei alemã teve de intervir para separar os dois grupos. Logo em seguida, a página do Facebook da Buchmesse começou a receber uma enxurrada de notas baixas e de críticas por ter permitido a presença das editoras de extrema direita. "A Feira de Frankfurt é próspera na diversidade de opiniões e é um local de diálogo livre. Esta é a atitude imutável da Feira do Livro de Frankfurt e da Börsenverein des Deutschen Buchhandels”, defenderam-se os organizadores. Na prática, a Feira aceita qualquer editora que opere dentro da legalidade pelas leis alemãs, e defende que todos têm o direito de se manifestar. Eu compartilho desta visão, e por mais que a presença da extrema direita me incomode em qualquer lugar, eu defendo seu direito de se manifestar dentro dos limites da legislação.

Mais recentemente, no Brasil, fiquei chocado com algumas críticas feitas ao lançamento do livro Contra o aborto, de Francisco Razzo, pela editora Record. O que me chocou foram as críticas à edição em si da obra pela Record, como se as ideias existentes na obra não devessem ser manifestadas. Houve quem lamentasse que uma editora que já publicou autores importantes publicasse tal obra. Houve quem dissesse que editoras deveriam ter limites. Estas ideias de censura ­– desculpe, mas não há outro nome – me chocam mais do que as ideias do livro em si, o qual bastou ler a quarta capa para saber que não tenho nenhum interesse em seu conteúdo. Aliás, defendo abertamente a legalização do aborto, apesar de cristão convicto. E confesso que dizer no texto de capa que há gente “a favor da prática” é tão absurdo que dispensa comentários. Ainda assim, as editoras não devem ser criticadas pelas ideias que publicam, e nem devem ser controladas, censuradas ou “ter limites”. Quem, como eu, não gosta das ideias de Francisco Razzo, que ataque as mesmas e a posição do autor, mas jamais a editora por ter publicado o livro. São as ideias erradas que devem ser combatidas, não a liberdade de manifestá-las.

Agora, desde o último sábado, temos um caso muito mais grave. Depois que Ancelmo Gois publicou em sua coluna n’O Globo que em 2018 a casa editorial Boitempo lançará duas obras com as ideias de Karl Marx para crianças pelo selo Boitatá, a editora Ivana Jenkins vem recebendo ameaças por telefone e pela internet. “Um fascistóide ligou na editora há pouco para fazer ameaças a mim (o vocabulário vocês podem imaginar qual seja, não?). Outros dois mandaram ofensas pelo Messenger”, afirmou a editora em um post no Facebook. “Vou contar para esse povo que cresci vendo meu pai receber cartas e telefonemas ameaçadores (pérolas como ‘vamos matar todos vocês, comunistas!’). Até o começo dos anos 1980, o CCC jogava bombas e atirava na fachada da nossa livraria, explodiam os carros e por aí vai. Tenho, portanto, o casco duro, tentativas de intimidação não nos farão arredar pé um milímetro que seja do projeto de oferecer livros de qualidade, para adultos e crianças”, bradou Ivana corajosamente em seu post.

Mais uma vez, lamentável. Não importa se somos a favor ou contra Marx, o comunismo, o feminismo, o Corínthians ou a presença de passas no arroz. O ponto é que a liberdade de manifestação de ideias deve ser sempre defendida. Nós, do PublishNews, acreditamos de forma imutável, assim como a Feira de Frankfurt, na diversidade de opiniões e no diálogo livre, sempre sem censura ou controles do que deve ser publicado. Acreditamos que, em uma sociedade saudável, um editor possa publicar Marx para crianças ou uma obra contra a legalização do aborto sem sofrer críticas, ou pior, ameaças pelo que publicou.

Mais uma vez, são as ideias que devem ser criticadas e atacadas, jamais quem as publica ou divulga dentro da lei, garantindo e exercendo a liberdade de expressão. Preocupa-me muito o futuro das liberdades civis e da livre manifestação de ideias no Brasil. Quero viver em um país onde editores possam publicar tranquilamente seus livros contra a legalização do aborto ou suas edições de Marx para crianças. Quero viver em um país onde a extrema direita (ou a extrema esquerda) possam se manifestar de forma legal protegidas pela polícia e pelas instituições democráticas. Infelizmente, tenho muitas dúvidas de que este país ainda possa ser o Brasil.

Carlo Carrenho, editor colaborador do Publishing Perspectives, é consultor editorial brasileiro radicado na Suécia e membro da consultoria Alpine Global Collective.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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