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Todos somos Zumbi: da África para a literatura Afro-Brasileira
PublishNews, Volnei Canônica, 21/11/2017
Ainda em celebração ao Dia da Consciência Negra, Volnei Canônica escreve artigo em que retoma a história da produção da literatura

Todos: brancos, pardos, amarelos, negros temos orgulho em dizer que somos descendentes de italianos, espanhóis, alemães, japonês, libanês, entre outras etnias. Será que é porque só conseguimos ter a chamada “memória recente” ou nosso campo de visão é mesmo reduzido? O primeiro registro dos hominídeos remonta a cerca de três milhões de anos, na África. Há 150 mil anos esses africanos iniciaram o processo migratório para terras que hoje chamamos de Ásia, Oceania, América do Sul e Europa.

Se temos diferenças em tonalidades de pele, ou físicas, como olho puxado ou saltado, nariz afilado ou largo, cabelo liso ou crespo, é porque nos processos migratórios, esses africanos, ao longo dos anos, precisaram se adaptar às diferentes condições climáticas de cada região.

Dessa maneira, formaram-se novas nações, novos povos, estabelecendo diferentes etnias em função de aspectos culturais, históricos, linguísticos, raciais, artísticos e religiosos. É só parar para pensar sobre as pequenas transformações que acontecem com o nosso organismo quando vamos morar por um tempo em uma região bem diferente de onde nascemos. Multiplica-se isso por alguns mil anos e vemos o que acontece.

Mas o que leva uma etnia subjugar a outra? O que me faz pensar ser superior ao outro? São muitos fatores e precisaríamos envolver diferentes especialistas e estudiosos no assunto.

Partindo deste importante referencial, migro, junto aos africanos, para o Brasil invadido por Portugal que, além de escravizar os diferentes povos indígenas também subjugou a sua própria origem, importando escravos de diferentes regiões do continente africano, trazendo com isso também uma pluralidade de etnias negras para o Brasil. Nesse sentido, é importante entendermos que circulam pelo Brasil diferentes culturas africanas que se misturaram com os diferentes povos indígenas, os portugueses e outros tantos, depois.

Para escravizar, o primeiro passo é tirar a dignidade, a cultura e a crença do escravo e impor a do escravocrata. Mas não há tronco, chicote, pau de arara que aprisione a mente. “A mente! Isso sim ninguém pode escravizar!”, disse a maranhense Maria Firmina dos Reis (1825 - 1917), primeira negra concursada como professora em seu Estado e autora de Úrsula (Typographia do Progresso), primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher no Brasil. Na Biblioteca Pública Benedito Leite, de São Luiz do Maranhão, existe um fac-símile da obra e podemos ter acesso a obra pelo site da biblioteca. Maria Firmina inaugura a produção literária de afrodescendentes, a literatura afro-brasileira.

Portanto, sem poder escravizar a mente destes povos, as histórias foram se perpetuando de engenho a engenho, nos corredores das casas dos senhores feudais e no anoitecer das senzalas.

Na literatura infantil, não podemos deixar de citar o pioneirismo de Monteiro Lobato que, em Reinações de Narizinho (1931), com ilustrações de Jean G. Villin (editora Monteiro Lobato & Cia), apresenta a personagem da Tia Anastácia. Muitas vezes, Tia Anastácia se torna uma das protagonistas das histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo tendo, em sua fala, influência e poder de decisão. Pontuo aqui que nos aprofundaremos em outro momento sobre as recentes discussões de racismo e estereótipo em algumas obras do Lobato.

Já na década de 1970, personagens negros começam a aparecer com mais frequência em obras de autores brasileiros. Mas quero destacar alguns autores que trouxeram essa temática com maior ênfase: Em 1984, Joel Rufino dos Santos lança a Botija de ouro (Ática), ilustrado por José Flávio Teixeira. No mesmo ano, Angela Lago publica o livro Outra vez (Miguilim) apresentando uma menina negra como protagonista da história, sem uso de palavras. Já em 1986, Joel publica os dois títulos O saci e o curupira e Dudu Calunga - ambos ilustrados pelo José Flávio Teixeira e publicados pela Ática. Neste mesmo ano, Ziraldo lança O menino marrom (Melhoramentos) e Ana Maria Machado Menina bonita do laço de fita (Ática), com ilustrações de Walter Ono. Em 1989, Geni Guimarães e Saritah Barboza lançam o livro A cor da ternura (FTD).

O mercado editorial brasileiro, não só preocupado com questões que ampliam a experiência humana em relação as diferentes culturas, percebeu, nesta temática, uma oportunidade também lucrativa, principalmente depois da criação da Lei nº 10.639/2003 que inclui no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”.

Atualmente, encontramos muitos livros que trazem a literatura afro-brasileira. Muitos desses livros, apresentam textos superficiais, ilustrações estereotipadas e ausência de projeto gráfico. Algumas editoras acrescentaram títulos ao catálogo somente para tê-los junto à divulgação de outros livros, que são “carro-chefe”, e por isso não se debruçaram verdadeiramente sobre a temática. Mas encontramos outras editoras que, ao contrário, trazem um olhar relevante e, muitas vezes inaugural, sobre o assunto em cada obra publicada. Gostaria de destacar as editoras Pallas e Pulo do Gato.

Portanto, ter acesso a uma boa literatura e a outros bons livros que registrem a cultura dos diferentes povos da África é fundamental para que todos possam se aproximar das suas origens.

Até quando vamos ser escravos um dos outros?

Todos somos Zumbi! Libertemo-nos!


Garimpar nem sempre é fácil. Eu garimpei na minha biblioteca livros com personagens protagonistas negros na literatura infantil e juvenil e livros teóricos sobre o tema. Além dos livros já citados no texto (alguns títulos mudaram de editoras), quero destacar outros títulos, literários, informativos e teóricos que revisitei para escrever esse artigo:

• A temática da cultura africana e afro-brasileira na literatura para crianças e jovens (Cortez), de Eliane Debus

• ABC do continente africano (SM), com texto de Rogério Andrade Barbosa e ilustrações de Luciana Justiniani Hees

• Agbalá (Formato), com texto e ilustrações de  Marilda Castanha

•AvóDezanove e o segredo do soviético (Cia das Letrinhas), de Ondjaki

• Caderno de rimas do João (Pallas), com texto de Lázaro Ramos e ilustrações de Maurício Negro

• Dicionário literário afro-brasileiro (Pallas), de Nei Lopes

• Literatura infantil juvenil: diálogos Brasil-África (Autêntica), de Sueli de Souza Cagneti e Cleber Fabiano da Silva

• Naninquiá, a moça bonita (DCL), com texto de Rogério Andrade Barbosa e ilustrações de Ciça Fittipaldi

• Obax (Brinque-Book), de André Neves

• Olhe para mim (Pulo do Gato), com textos de Ed Franck, ilustrações de Kris Nauwelaerts e tradução de Cristiano Zwiesele do Amaral

•Sortes de Villamor (Scipione), de Nilma Lacerda

• Zumbi dos Palmares (Paulus), com texto de Renato Lima e ilustrações de Graça Lima

Volnei Canônica é formado em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul, com especialização em Literatura Infantil e Juvenil também pela Universidade de Caxias do Sul, e especialização em Literatura, Arte do Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. É Presidente do Instituto de Leitura Quindim, Diretor do Clube de Leitura Quindim e ex-diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, do Ministério da Cultura. Coordenou no Instituto C&A de Desenvolvimento Social o programa Prazer em Ler. Foi assessor na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Na Secretaria Municipal de Cultura de Caxias do Sul, assessorou a criação do Programa Permanente de Estímulo à Leitura. o Livro Meu. Também foi jurado de vários prêmios literários.

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