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Um tango em Buenos Aires, um samba no Rio
PublishNews, Carlo Carrenho, 1º/11/2017
Carlo Carrenho analisa os dois maiores mercados editoriais da América do Sul

Para muita gente no mundo editorial mundial, Argentina e Brasil (e muitas vezes o resto da América Latina) são geralmente vistos como um mercado único. Mas qualquer profissional da indústria do livro que quiser fazer negócios na região precisa saber que não é assim.

O relacionamento dessas nações de fato imita o de dois irmãos. Envolve rivalidade (especialmente quando se trata de futebol) e constantes disputas e provocações, mas também um forte amor fraterno e subjacente. Os argentinos usam a palavra “brasileros”, derivada do português, para se referir aos brasileiros de forma amável. E os brasileiros chamam os argentinos (e somente os argentinos) de hermanos, a palavra espanhola para irmãos.

Mas no mundo editorial, esses dois irmãos não poderiam ser mais diferentes. Primeiro está o fato óbvio de que o português é falado no Brasil, enquanto na Argentina fala-se espanhol. Só isso muda tudo: a Argentina faz parte do mercado global de livros em idioma espanhol, enquanto o idioma do Brasil faz com que o país seja um enorme mercado autônomo. E o português brasileiro também difere muito do português europeu, impedindo qualquer grande cruzamento de livros entre Brasil e Portugal.

Para colocar a discussão em contexto, o Brasil e a Argentina são os dois maiores mercados de livros da América do Sul. E ambos estão sofrendo com crises econômicas e políticas recentes. Em 2016, o mercado editorial da Argentina gerou 8,1 bilhões de pesos (US$ 507 milhões) em receita, mas sofreu uma forte queda de 23,8% em termos reais em relação ao ano anterior, de acordo com a Câmara Argentina de Publicações (CAP). Enquanto isso, as receitas do mercado brasileiro em 2016 foram de 5,27 bilhões de reais (US$ 1,619 bilhão), o que representou uma queda de 5,2% em relação a 2015, de acordo com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE).

Compras do governo

Uma semelhança notável entre Brasil e Argentina é a importância das compras do governo para as editoras, embora o mercado brasileiro seja consideravelmente mais dependente. Desde 2012, o governo brasileiro foi responsável, em média, por mais de um quarto (25,4%) da receita das editoras anualmente, enquanto na Argentina, as compras governamentais representam cerca de 10,6% das receitas. E a Argentina hoje, sob o governo eleito de Maurício Macri, mostra um ambiente econômico e político muito mais estável do que o Brasil, que está sofrendo profundamente com os escândalos políticos e um presidente, Michel Temer, não apenas com baixa aprovação, mas com questões de legitimidade após sua ascensão através do polêmico impeachment da ex-presidente Dilma Roussef.

Como a Argentina faz parte do mercado global de livros em espanhol, seu setor editorial é muito mais consolidado. No setor de livros gerais, por exemplo, a Planeta e a Penguin Random House (PRH) dominam o mercado sul-americano e controlam até 35% das vendas para o setor privado. Enquanto isso, no Brasil, há menos consolidação e presença estrangeira. As 10 principais editoras de livros gerais, por exemplo, representam não mais do que 40% do mercado. E apesar de que Planeta, LeYa, HarperCollins e Companhia das Letras (uma empresa que conta com participação de 45% da PRH) estão entre as 10 maiores, não representam mais do que 15% do mercado total de livros.

Livrarias de Buenos Aires

Quando falamos em venda de livros, uma simples caminhada por Buenos Aires revela uma incrível quantidade de livrarias. Por exemplo, podemos encontrar uma livraria Cúspide a apenas 50 metros da Ateneo Grand Splendid, a fascinante loja emblemática do Grupo Yenny na Avenida Santa Fé. E há mais lojas a uma curta distância. De acordo com o relatório anual da CAP, há 350 livrarias na capital, o que significa uma incrível proporção de cerca de uma livraria a cada 8.200 habitantes. A presença de livrarias em Buenos Aires é tão incrível que diz a lenda que apenas Buenos Aires tem mais livrarias que todo o Brasil.

Isso está longe da verdade, claro, já que existem cerca de 1.000 livrarias e outros 4.000 pontos de venda de livros no Brasil. Mesmo assim, o número de livrarias de tijolos na Argentina é notável para a América Latina, com cerca de 1.190 lojas.

Existem algumas razões pelas quais as livrarias físicas encontram um mercado tão fértil na Argentina. Mas no topo da lista está o fato de que apenas 1% das vendas de livros no país acontecem via online. É verdade que a Argentina não possui uma boa logística e tem um serviço postal deficiente, o que certamente poderia fazer parte da equação. Mas a questão é: a Argentina tem tantas livrarias porque existe um e-commerce limitado? Ou a venda de livros online é limitada porque há muitas livrarias nas áreas mais populosas? Enquanto isso, no Brasil, as estimativas de mercado colocam as vendas de livros on-line em algum lugar entre 20%-30%. Mais um motivo pelo qual ver o Brasil e a Argentina como um mercado único é como confundir um tango com um samba.

*Texto originalmente publicado no ShowDaily da Publishers Weekly na Feira do Livro de Frankfurt.

Carlo Carrenho é o fundador do PublishNews. Formado em Economia pela FEA-USP, especializou-se em Edição de Livros e Revistas no Radcliffe Publishing Course, em Cambridge (EUA). Atualmente é advisor da Ubook, Meta Brasil e da BR75. Como especialista no mercado de livros, já foi convidado para dar palestras e participar de mesas em países como EUA, Alemanha, China, África do Sul, Inglaterra e Emirados Árabes, entre outros.

É co-coordenador do curso MBA Book Publishing, da Casa Educação em São Paulo, depois de coordenar por diversos anos o curso de pós-graduação da FGV-RJ sobre o negócio do livro. Sempre atento aos novos modelos de negócio e às mudanças tecnológicas, Carlo possui um de seus focos na questão dos livros digitais e segue com afinco o que acontece no setor digital no Brasil, tanto que é autor do capítulo brasileiro do livro Global eBook: a report on market trends and developments.

Carlo é paulista, morou no Rio, e atualmente vive em Estocolmo. É cristão, mas estudou em escola judaica. É brasileiro, mas ama a Suécia. Enfim, sua vida tende à contradição. Talvez por isso ele torça para o Flamengo e adore o seriado Blue Bloods.

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