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Senta que lá vem textão de quando eu era pequena lá em Barbacena....
PublishNews, Camila Cabete, 27/09/2016
Em sua coluna, Camila Cabete resgata a sua própria história para concluir: 'quem resolve o que é bom e o que quer ler é o leitor'

Sou uma leitora voraz há muitos anos. Leio desde best-sellers, a clássicos, passando por autoajuda e também não ficção, história, filosofia e sociologia. Nada disso me faz uma pessoa melhor do que você. Exceto por um ponto: eu não tenho preconceito literário.

Trabalho no mercado editorial há 14 anos e o que mais escuto é separatismo literário e dor de cotovelo quando o assunto é mais vendido. Aquela lista de mais vendidos real, que basicamente é a lista da PublishNews (a única que confio, diga-se de passagem). DOR DE COTOVELO sim senhor. Sabe por quê?

Aula de História do Brasil: há muitos anos, quando os portugueses vieram para o Brasil, eles trouxeram uma nova forma de disseminação de conhecimento, desconhecida pelos indígenas, que se chamava livro. Passando pela vinda da família real até a alta aristocracia, o livro sempre foi artefato de luxo, para ricos. Até hoje, comparando o valor do livro com o da cesta básica, temos que reconhecer que há um desnível aí (como muitos dentro de nossa sociedade). Diante da elitização da literatura, restava ao povo recorrer à leitura de folhetins, publicações informais. Aí entra o papel da educação nesse sistema de elitização da literatura, pois só quem estudava e tinha acesso a livros era o rico, aristocrata, na época. Isso não é novidade para ninguém... E, calma: eu não estou escrevendo uma coluna para defender qualquer tese de mestrado e não vou ficar aqui enchendo o texto de notas de rodapé.

Diante deste cenário, é muito fácil de compreender o posicionamento da elite deste país em relação a literatura que se vende. Porque, rico que é rico compra direto da Amazon US e lê em Inglês, não é? Mas vamos dar as mãos, fechar os olhos e fazer uma autocrítica, não precisa compartilhar suas conclusões. Mas pense bem, qual é o seu problema com os youtubers e os best-sellers? Fala para si mesmo. Não precisa se humilhar admitindo que tem inveja. Sim, inveja é algo tão simples... é como uma cor primária na aquarela.

Depois destas confabulações, vou te contar minha história: nasci e cresci na Vila da Penha (sim, eu sei, o Romário tb); meu pai era caminhoneiro e minha mãe fazia milhares de coisas, além de artesanato, costura, vendas etc. Tenho um irmão três anos mais novo. Estudei a vida toda num colégio particular, onde todo ano era um sacrifício desgraçado para comprarmos a lista extensa de material que eles exigiam. Recebia constantemente o recadinho da escola "sua mensalidade está atrasada, favor regularizar senão..."

Pois bem, logo vemos que eu não tenho uma formação clássica de berço. Parêntese: há alguns anos, numa mesa de almoço, com vários autores fodásticos e que eu venero, eles pararam e perguntaram de quem eu era filha, ao que respondi, "de pais fora do mercado editorial" causando uma surpresa enorme em todo mundo.

Não via meus pais lendo, com exceção da minha mãe, muito de vez em quando. Desde pequena minha mãe me dava as coleções de livros do Círculo do Livro, que era nosso único acesso a uma livraria. Foi na escola que me apaixonei pelos livros. Lá tinha uma biblioteca minúscula, onde eu os pegava emprestados. Li toda a coleção de Shakespeare adaptada para minha idade - 12 anos; Pedro Bandeira; a coleção que incluía A droga da obediência, além dos livros obrigatórios (que sinceramente, nem lembro quais foram, afinal eram obrigatórios). Lia moderadamente e com o acesso que a minha escola me proporcionava.

Até que cheguei na adolescência e tudo ficou muito chato. A vida parou de fazer sentido e odiava tudo e todos #quemnunca. Parei de ler, porque na minha época eu encontrava muito pouca identificação com os autores. Hellooooo não tinha YouTube.

Cheguei enfim no Paulo Coelho e nos livros espíritas (minha mãe segue esta filosofia). Comecei com o Diário de um mago, me senti a gótica, a sinistra, a especial por ler um livro onde tinha um título tão misterioso quanto este. Depois devorei cada livro que o Paulo Coelho lançou (leio todos como um confort reading - não tem confort food? então.) Todas as obras psicografadas possíveis e imagináveis. O primeiro livro que reli inúmeras vezes foi Violetas na janela... depois as sequências e foi quando resolvi diminuir o consumo de carne, entre outras coisas ligadas a ética.

Posso dizer que na falta de dinheiro para fazer psicanálise, o livro era meu retiro, minha autocrítica. Aprendi que as pessoas tinham outras vidas, que tínhamos outras opções para a vida e que eu podia, ou reproduzir o que meus pais fizeram, ou tentar coisas novas.... e que tava tudo bem... Cá estou, neste textão de meu deus!

Cursei uma faculdade de História particular e com fama duvidosa (que eu amei), porque tive que trabalhar. As faculdades públicas e renomadas queriam que eu me dedicasse 100% aos estudos (tolinhos) ou que fosse um ponto fora da curva para ter bolsa - sempre fui mediana. Eu teria que fazer a faculdade de História em oito anos se fosse me adaptando a grade disponível da UFRJ, pois só podia estudar à noite.

Depois de anos de leitura, de clássicos russos aos eróticos de banca, chego a seguinte conclusão: cara, que vidão e que oportunidades eu tive! Imagine só quem eu seria se não tivesse lido tudo o que li...

Tudo isso foi pra dizer simplesmente, PAREM! Parem de julgar o gosto alheio, parem de apontar o bom autor, o mal autor, o autor vendido. PAREMMMMMMMMM. Quem resolve o que é bom e o que quer ler é o leitor. O papel do educador na curadoria e direcionamento não tem substituto, mas no final quem decide é o leitor.

Por menos julgadores e por mais leituras eróticas no trem, sem ter que esconder a capa ou o título do livro na página do e-book! Que a democracia esteja com vocês em todos os setores de sua vida! Amém.

Camila Cabete (@camilacabete no Twitter e Instagram) tem formação clássica em História e foi responsável pelo setor editorial de uma editora técnica por alguns anos. Entrou de cabeça no mundo digital (em 2009) ao se tornar responsável pelos setores editorial e comercial da primeira livraria digital do Brasil, além de ter feito pós-venda e suporte às editoras e livrarias da primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil. Hoje é a senior country manager da Kobo Brasil e é a podcaster e idealizadora do Disfarces Podcast.

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** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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