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Vão se os papéis, ficam os conteúdos…
PublishNews, André Palme, 23/09/2016
Palme defende que a decisão da Cosac de picotar seus encalhes não extinguirá o conteúdo produzido pela editora e por fim, questiona: 'E você, se estivesse sentado na cadeira do Charles, o que faria?​'

Muito se falou ontem sobre a polêmica a respeito da possibilidade de que os livros da Cosac Naify venham a ser picotados no final do ano. Li bastante do que foi postado nas redes sociais, com as mais diversas visões e os mais variados sentimentos.

Escrevo este texto, para compartilhar a minha visão como alguém que defende a superioridade do conteúdo em relação ao formato, que enxerga no digital uma possibilidade grande de disseminação de conhecimento e que, como empreendedor, sabe da difícil batalha para equilibrar todo dia paixão (pela causa) e razão (pelos custos). Isto para que fique claro sob qual ótica escrevo.

Além disso, um alerta importante: não, eu não estou desmerecendo a importância do livro físico como agente catalisador de disseminação e promoção do conhecimento, da literatura e da leitura. Fazer isso seria inclusive ignorar a minha formação como indivíduo, o contato que sempre tive com o livro e o quanto eles me moldaram. Também não estou minimizando a tristeza de ver tantas possibilidades com estes livros virarem pó.

Então vamos lá, falar dos pontos que para mim são os mais relevantes nesta notícia:

1. O conteúdo é imaterial

Claro que as edições físicas da Cosac possuem um primor gráfico que as tornam objetos de arte. Isto, claro, contribui muito para que todos achemos uma tragédia que estes livros - mas também qualquer livro - sejam simplesmente picotadas. Isto significa potencialmente menos livros e menos conhecimento em circulação.

No entanto, mais do que o papel, o importante é: O CONTEÚDO É IMATERIAL, e continuará existindo, independente do que foi impresso nestas páginas. Claro, em alguns casos a configuração criada com a junção da forma (física) ao conteúdo (imaterial) é única, mas o conteúdo não morre sem o papel.

O conteúdo é o mais importante e o que realmente fica; e o papel é um dos suportes para sua disseminação. Picotar um livro não é destruir o conhecimento que ele transmite.

No AED (Amigos dos Editores Digitais) sempre defendemos que o mais importante é o conteúdo, e isso não chega ao fim com esta ação da Cosac. O livro não é as folhas de papel na qual foi impresso. Ele utiliza as folhas de papel como forma de se fazer chegar aos leitores.

2. Legado

Na minha visão, o legado da Cosac não está nestes papéis. O legado está em transmitir este conhecimento com arte, beleza e primor pelo conteúdo. O legado da Cosac está em elevar e criar uma referência para o mercado no cuidado com os livros e sua arte, que não morrem com estes livros picados. O legado da Cosac está em trazer para as pessoas, em forma de conteúdo, ideias literárias e artísticas.

Mais do que isso, este legado continua, com o conteúdo que continua vivo e que JÁ está tendo continuidade em outras casas editoriais. Se não fosse assim, se o conteúdo não fosse o legado, jamais poderiam ser republicados…estariam picotados em algum lugar por aí.

Estes livros em suas edições da Cosac ainda estão disponíveis para venda, e para os que tem o foco maior no acesso ao conteúdo e não na forma, estão disponíveis no Kindle Unlimited por um valor mensal fixo, infinitamente inferior ao valor que seria gasto para a compra de todo estes exemplares físicos.

Existe ainda um espaço que fica vago mercadologica e literariamente, mas que já vem sendo ocupado por editoras com um trabalho também primoroso, a exemplo da Editora Nós, comandada por Simone Paulino e a recém lançada Ubu, só pra dar dois exemplos.

3. Doação e picotes

Momento burocrático-fiscal-administrativo-necessário!

Muito está se falando sobre doações e saldos. Aí precisamos levar em conta não só a revolta que gera uma notícia como essas, mas também uma visão administrativa, racional e pragmática da empresa.

Sim, doar os livros gera um desequilíbrio contábil e financeiro grande, que provavelmente não poderia ser arcado pela Cosac (ainda mais se ela decidiu fechar o negócio). Fazer a distribuição destes livros para bibliotecas por exemplo, significaria para a Cosac arcar com o transporte destes exemplares para cada um destes lugares, o que obviamente geraria altos custos (ainda mais considerando as distâncias geográficas brasileiras). Os altos custos com logística e armazenamento são inclusive – segundo a própria Cosac – o que os influenciou a decidir pelos picotes.

E os impostos? Livro não paga imposto.

Verdade, não paga a maioria deles. Mas cada livro que sai do estoque de uma editora precisa ter um Nota Fiscal, porque mesmo não incidindo ICMS, o imposto sobre a circulação de mercadorias – sim, o livro também é uma mercadoria – é preciso reportar o destino final do produto (neste caso doação) e isto gera custos contábeis, de movimentação de estoque, embalagem, transporte…

Sim, também acho que deveria haver uma maneira menos burrrrocrática de se fazer isso.

Além disso, fazer um saldo neste momento, seria virar as costas para todos os editores que abraçaram as obras da Cosac, para serem relançadas em suas editoras; bem me lembro o quanto muita gente quis esse catálogo pra chamar de seu alguns meses atrás. Ou você gostaria de saber que comprou o direito de um livro e que este mesmo título está sendo vendido por outra editora, a Cosac no caso, com 90% de desconto?

Eu também gostaria de comprar livros da Cosac por R$ 5. Mas isto pelo olhar macro do negócio seria um tiro no pé e uma grande traição aos autores e às editoras que compraram os direitos para relançamento.

Aos que defendem o absurdo de uma decisão empresarial racional se sobrepor à arte, a literatura e aos livros, três questionamentos pra refletirmos:

1. Somos disseminadores de conhecimento e queremos que nosso conteúdo chegue ao maior número possível de pessoas…ou somos autores e editores de um formato só, o que naturalmente limita o alcance deste mesmo conteúdo?

2. E ainda, se você precisasse tomar uma decisão dessas, que afetasse o seu negócio e a vida de todas as pessoas envolvidas, será que sua visão seria diferente?

3. Vamos continuar presos à formatos ou vamos assumir que somos produtores de conteúdo e que os suportes para disseminação deste conhecimento são suportes e não o conteúdo em si?

E você, se estivesse sentado na cadeira do Charles, o que faria?

André Palme é country manager da Storytel no Brasil e apaixonado por conteúdo e tecnologia, tendo seu foco de atuação em desenvolvimento e gestão de negócios e conteúdo digital. Foi o primeiro embaixador do Business Club da Feira do Livro de Frankfurt no Brasil, além de palestrar em feiras nacionais e internacionais. Também é pai de três cachorros e torce para a bateria do celular nunca acabar.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews

Tags: Cosac Naify
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