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Rio, meandros, estuário: a cultura digital
PublishNews, Julio Silveira, 25/05/2016
Artigo publicado em 40 vozes do Rio: avaliações e propostas culturais para uma cidade única, organizado por Carla Branco e Carlos Messeder Pereira

“O Rio de Janeiro é o tambor do Brasil” é o grande clichê quando se fala de cultura e de nossa cidade. A implicação é que aqui temos uma caixa de ressonância para as expressões culturais, amplificando-as, dando-lhes forma e força. Seria no Rio que as artes, modos e modas reverberam, são disseminados. A metáfora do “tambor” ganha concretude no aparato econômico da cultura, estabelecido e enraizado no Rio de Janeiro: um sistema alinhavando criadores a editoras / gravadoras / produtoras e estas a canais de distribuição / exibição, fomentados pela imprensa e mídia. Um sistema, sustentado por investimentos e amparado por equipamentos — salas de teatros, cinemas, bibliotecas, museus.

Este artigo, porém, investiga um território específico da cultura ou, antes, um anti-território. A Cultura Digital não requer equipamentos, horários, canais de divulgação, e tampouco implica um sistema econômico ou dá saída a um “produto cultural” per se. A cultura digital dá-se na troca, não na produção.

Assim, para investigar a relação do Rio de Janeiro com a cultura digital, a resposta que se deve perseguir é:

Como manter a proeminência de nossa cidade em um campo da cultura, o digital, que prescinde do aparato produtor? Um campo da cultura que dispensa sistemas, por operar em rede; que não requer um centro, por agir na periferia; que não depende de equipamentos, por atuar no imaterial?

Desdobrando a questão nos aproximaremos de uma resposta. Comecemos pela definição.

“Cultura Digital” foi a expressão cunhada para abranger as manifestações que exploravam os novos recursos de tecnologia. Se a definição “Cultura digital” amarrava bem o cenário criativo dos anos 1990 (pense em “vídeo performances”), hoje ela é imprecisa a ponto de não designar mais nada. Há 25 anos, o “digital” era uma ruptura em um mundo analógico; no dia de hoje, o digital é dominante e pervasivo e o analógico aparece como mero contraponto nostálgico. A cisão entre o “digital” de então e a cena criativa atual não veio pela digitalização (conversão das expressões culturais em bits), mas sim pela interconexão e dispersão destes bits pela rede, e o decorrente fluxo quântico de conversações: a internet.

É ocioso compartimentalizar as expressões da cultura digital, quando quase todas as expressões e produtos culturais já transitaram do analógico para o digital. Tomemos o exemplo do cinema. Ele já é digital hoje, na forma — as salas de exibição não manipulam mais rolos de filme, elas recebem fluxos (streams) “projetados” de lugar nenhum (a “nuvem”). Extrapolemos o exemplo do cinema para testar a validade da afirmação de que a Cultura (Digital ou não) já prescinde do aparato econômico. A grande revolução para esta forma de expressão cultural não veio com a digitalização das salas de exibição — mas com a universalização da produção e exibição de audiovisual via internet. Ao largo do aparato cultural.

Se admitimos que A Cultura foi digitalizada — isto é, que o digital é O suporte para as expressões culturais, o que justifica a expressão “Cultura Digital”? Isto é, onde o adjetivo “digital” cria um campo separado da cultura?

O ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, que está retomando uma abordagem proativa sobre o digital, é de opinião que, em relação à Cultura, “o digital interfere de muitas maneiras, ora como suporte ampliando a possibilidade de acesso, a possibilidade de conexão, de intercâmbio; ora não apenas como um suporte, como um lastro, mas como um território de produção cultural específica.”

Seu antecessor, Gilberto Gil, está menos interessado em mapear o tal território do que saudar o potencial, sem fronteiras, da vida digital.

Todo campo cultural, as dimensões simbólicas, as construções das subjetividades que são base da vida cultural, as linguagens e expressividades individuais e coletivas, todas essas coisas são afetadas pela vida digital, por causa do aumento considerável da acessibilidade, as trocas simbólicas que o mundo digital oferece. É um novo mundo, por causa especialmente da acessibilidade e da velocidade, da generalização de usos e penetração desses usos em esferas antes assumidas por poucos grupos. Especialistas que dominavam determinada área deixaram de monopolizar aquele domínio. Surge a questão da multicapacitação, das multiutilizações, de tudo que o mundo digital proporciona, que é um mundo que socializou também todas as ferramentas, que agilizou as inteligências funcionais, que é como as inteligências entram em função no diálogo com a instrumentalidade. Tudo isso está extraordinariamente impactado, afetado pela digitalidade. É como se a gente tivesse passado para uma nova cultura. Tudo ficou muito rápido e muito amplo.

Na (des)definição de Gil encontramos que o mundo digital, talvez uma toda “nova cultura”, é um mundo “que socializou também todas as ferramentas”. Uma compreensão mais vigorosa da Cultura Digital está deixando para trás a importância do impacto técnico (o digital) para focalizar no aspecto socializante e do potencial da comunicação em um ambiente interconectado: a rede.

“A máquina é sempre social antes de ser técnica. Sempre haverá uma máquina social que seleciona ou designa os elementos técnicos empregados”, escreveu Deleuze a Partnet em 1977. Na década anterior, McLuhan já havia profetizado sobre a mudança no ser humano, seu modo de pensar e agir, a partir do avanço técnico, com o que ele considerava “uma extensão do sistema nervoso central”, a “circuitação eletrônica” (internet). Antonio Damasio ecoa o insight McLuhaniano ao opinar que “a cultura digital é uma extensão do cérebro humano” — ambos compõem universos a partir de conexões e trânsito de elétrons.

O amálgama de citações no parágrafo pretende provocar o deslocamento da compreensão de “Cultura Digital”, tirando o foco dos aspectos técnicos (o Digital) e atentando para aspectos de fato disruptivo, capazes de definir um território cultural transcendente, “incartografável”: a socialização, a tessitura de redes. Estamos diante de um campo criativo todo novo, não conhecemos suas fronteiras, nem mesmo sabemos se existem. Encaramos a suspensão dos limites — de espaço, de tempo, de canais, de orçamento, de público. A resposta humana ao assombro da súbita falta de limitações é o que chamamos de Cultura Digital — e o que deveríamos chamar, mais apropriadamente, de Cultura de Rede.

De posse de uma tentativa de definição para “Cultura Digital” — “o conjunto de expressões culturais possibilitadas pela desmaterialização da informação transitando no rizoma da internet e suas reações” —, podemos observar fenômenos exclusivos desta tal cultura e atentar para as características recorrentes. Três delas contrastam e causam afronta à cultura “tradicional”: a imaterialidade, a desconstrução da autoria e a desmercantilização. Bens culturais digitais (textos e canções, por exemplo), não dependem mais de um suporte manufaturado, não são uma mercadoria estocável. Isso torna incongruente o copyright — o “direito de fazer cópias” —, um instrumento de editoras e gravadoras ao qual está amarrado (ou empregado) o autor. Por outro lado, criadores dão-se conta do poder recém-conferido pela internet, o da distribuição livre, sem custos: o contato direto com o leitor / ouvinte comprador. Do terceiro lado deste impasse, a distribuição anárquica e o enfraquecimento econômico da editora detentora do copyright lança as sombras da pirataria, do plágio. Urge uma institucionalização dos novos poderes do autor (talvez via CC) que organize o sampling, o mashup, o retrabalho, a colaboração — dando formulação legal ao que é feito na internet, e do que é a internet: o mundo mimético, o universo dos “memes”.

Uma expressão da cultura digital — vídeo, música, imagem, frase — alcança sua completude quando torna-se meme. E seu apogeu dá-se quando viraliza. Um meme é “uma ideia, comportamento ou estilo que se espalha de uma pessoa a outra dentro de uma cultura”. Um meme funciona como uma unidade de informação para disseminar ideias culturais, símbolos ou práticas que podem ser transmitidas de uma mente a outra. Os memes estão para a cultura digital assim como os bits estão para a rede digital e as sinapses para a rede neural.

A viralização é a face mais evidente de outra característica da Cultura Digital — o engajamento. Paradoxalmente, a tecnologia que permite a sustentação de nichos culturais restritos é a mesma que permite aglutinar multidões em torno das mesmas obsessões. São expressões desta força arregimentadora do Digital: o crowdfunding, o crowdsourcing, as narrativas em game, a fan fiction e o cosplaying. Este último — o congraçamento de pessoas em torno de referências culturais tão remotas quanto os personagens de animes coreanos dos quais se disfarçam — é um bom exemplo da socialização online transbordando na IRL (“in real life”, como os gamers chamam a “outra” vida).

Quem rastrear a procedência dos memes perceberá que brotam de solos improváveis: periferias, sítios sem tradição ou equipamentos, pontos cegos do mapa cultural. Isto ressalta a diferença basilar entre a cultura analógica e a digital: a primeira é sistêmica, a segunda é em rede. Por “sistêmica” entenda-se que a cultura tradicional deve seguir um percurso linear e passar por “órgãos” de produção, promoção, endosso e comercialização. Uma cultura digital, rizomática, não precisa seguir percursos pré-estabelecidos, ela “tece” seu caminho irradiando por quaisquer nós da rede, pelo mesmo mecanismo através do qual as redes neurais engendram as ideias. Em uma rede não há pontos de entrada ou saída, não há centro nem periferia.

Na observação de Ronaldo Lemos,

o que a gente está vivendo hoje — e acho que é o grande impacto da cultura digital não só no Brasil mas também globalmente — é a forma com que ocorre uma emancipação cultural das periferias que não precisam mais do centro para produzir a sua própria cultura e para produzir modelos de sustentabilidade para inclusive financiar a produção.

A cultura digital, ou, ainda a cultura do século 21, viceja e vibra na periferia. Como diz Sérgio Amadeu da Silveira,

É impossível imaginar a diversidade a não ser pelo digital, que possibilita a distribuição. A periferia brasileira está avançadíssima em relação à compreensão do digital. [Lá] o digital age de forma instantânea, há uma compreensão do que é possível ser feito na era pós-industrial, pós-trabalho.

As periferias, justamente por desgarradas do centro produtor, dispensaram por completo o sistema analógico da produção cultural, e apropriaram-se dos recursos conectores para tecer seu caminho: (n)a rede. Como não se lhes disse como não fazer, eles inventaram sua expressão, com liberdade e vitalidade. Soma-se a isso o idiossincrático salto sociocultural brasileiro, do século 19 para o 21: um padrão geracional recorrente na periferia é a do avô analfabeto, do pai alfabetizado que não tinha acesso a livros e do filho que tecla no smartphone. A falta de uma cultura literária atávica acabou de certa forma tornando-se vantagem e fez dos brasileiros adeptos voluntários da tecnologia, destacando-nos como uma nação de “conectados” em mídias sociais.

A (des)concatenação de ideias deste artigo retorna para a questão enunciada:

Se a Cultura Digital prescinde do aparato econômico, como garantir a proeminência do Rio de Janeiro?

Pelo que dispusemos acima, a cultura digital está vicejando na periferia. Como um centro de cultura, o Rio, pode manter sua proeminência neste campo cultural centrífugo? Como pode o Rio capitalizar sobre, ou sistematizar, uma produção cultural assistêmica, pós-mercadoria? Que políticas devem ou podem os gestores de cultura desenhar?

A política cultural tradicional, “analógica”, parece agir em duas frentes: fomentar e equipar. Por fomentar, entenda-se o estímulo das expressões culturais; por equipar entenda-se manter e programar equipamentos culturais: bibliotecas, teatros, museus, cinemas. Para a cultura digital tais atividades perdem significado: elas prescindem de (grandes) alavancas financeiras e tampouco exigem um espaço ou horário predeterminado: sua “sala de exibição” é o onde, seu “horário” é o quando.

Duas iniciativas da esfera pública carioca podem servir de parâmetros para o desenho de políticas eficientes para a cultura digital. A primeira delas alça mira em uma ameaça real e urgente.

O cenário nacional é associado à exclusão digital, pois apenas 49% da população de 10 anos ou mais tem acesso à Internet, segundo a PNAD 2012. Nessa comparação, a situação da cidade do Rio de Janeiro não é ruim, já que 71% dos cariocas de 12 anos ou mais têm acesso à Internet. Porém, o nível de acesso não se distribui de modo igualitário na população e o Rio de Janeiro repete a estrutura da desigualdade nacional, que apresenta maiores índices de acesso à Internet nas classes de renda mais altas e entre o público mais jovem.

Mesmo considerando a disseminação galopante dos smartphones nas classes desfavorecidas, restrições de acesso ainda separam os cariocas entre “conectados” e “desconectados”, aumentando o abismo da cidade partida.

Uma ação municipal para dirimir este hiato partiu não da esfera da Cultura, mas da Secretaria Especial de Ciência e Tecnologia. As Naves do Conhecimento pousaram na periferia — bem longe dos grandes equipamentos culturais e do aparato produtivo, mas talvez o campo mais fértil da cultura digital. Seu propósito seria garantir o “acesso à tecnologia e à informação” para consolidar “uma rede de inteligência coletiva e inclusiva, de verdadeira integração sócio-digital”.

Se iniciativas como as Naves do Conhecimento procuram inserir o carioca no espaço digital, outra investida, o Laboratório de Atividades do Amanhã, se lança a estimulá-lo a explorar o potencial criativo da rede. O LAA, inaugurado com o Museu do Amanhã, concatena um espaço expositivo inspirador, com um hackerspace, instigando a cooperação e a colaboração criativa. Desta forma ele transpõe “IRL”, para o mundo concreto, o caráter da rede: a conexão, a comunicação pluri-poli-unívoca. A conversa.

Talvez resida justamente aí a chance do Rio de Janeiro garantir o proscênio da Cultura Digital. Não é a força econômica ou a eficiência do aparato produtor que nos redimirão. É a nossa vocação para a conversa. É o fato de sermos um palco, um porto, interface de fricção entre culturas. Deixamos nossa marca no que engolimos e reprocessamos, por necessidade ou por exuberância. Nossa vantagem competitiva na cultura digital não está em laboratórios. Está nas redes: no emanharado das periferias, nas conexões neurais e urbanas, na internet. Dê-se a conexão a quem não tem voz e a conversa fluirá, e a cultura, digital e além, percutirá.

Assim o tambor carioca ressoará mais alto e mais longe.

Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, que investiga a publicação digital e transmídia. Dirige o projeto “NossaLíngua.Doc” que documenta e estimula as conversas mundiais em português, em mídia social, livros e filme. É promotor de festivais de literatura e atual curador do LER, Salão Carioca do Livro.

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