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O livro, o lucro e os elétrons
PublishNews, 19/12/2013
O livro, o lucro e os elétrons
div>André Schiffrin morreu há menos de um mês. Era de uma estirpe de editores que sobreviveu à ocupação nazista nos anos 1940, mas que não resistiu à comoditização dos livros 50 anos depois.

Seu pai, Jacques, havia fundado a Pléiade, prestigiosa biblioteca de clássicos franceses. Em solo norte-americano, Schiffrin filho estabeleceu novos clássicos, entre eles Sartre, Cortázar e Chomsky. Em um controvertido obituário, o New York Times diz que, crescendo em uma Nova York “socialista”, André Schiffrin projetou a Pantheon como uma editora de autores “internacionais, cabeçudos e esquerdizantes”. O artigo joga mais uma pá de terra no túmulo de Schiffrin ao denunciar que, em sua editora, “fazer dinheiro nunca foi o foco”.

Nos anos 1990, as editoras “independentes” tiveram de se aglutinar ou foram fagocitadas por grupos maiores para sobreviver à era yuppie — com suas diretrizes de “globalização”, “reengenharia” e “metas de EBITDA”. A Pantheon, de Schiffrin, de repente pertencia à Random House, a “casa aleatória” que começava a escalada para tornar-se o maior e mais tentacular conglomerado editorial do mundo. De repente, “fazer dinheiro era o foco”.

André Schiffrin foi demitido de sua editora em 1990.

O negócio dos livros (2000) foi sua elegante resposta. Uma demonstração de que a obsessão pelas margens de lucro imporia a ditadura dos bestsellers, que por sua vez levaria à monocultura literária e que essa falta de “bibliodiversidade” culminaria no empobrecimento cultural generalizado, minando enfim o consumo de textos e os próprios fundamentos econômicos da indústria do livro.

Quando publicamos no Brasil O negócio dos livros, como as grandes corporações decidem o que você lê em 2006, confesso que encarei o argumento de Schiffrin com uma dose de ceticismo. Percebia uma certa nostalgia “Ancient Régime” nas críticas daquele literato que exercia o ofício de editor nos salões de Paris e Nova York e que agora teria de lidar com dinheiro como um burguês qualquer.

Eu estava errado. Schiffrin estava certo. Alguns anos depois de editar seu livro, minha editora “independente” teve de se “associar” a um conglomerado editorial. Lá, “O negócio dos livros” jamais teria sido editado, porque, enquanto “negócio”, não é um “bom livro”.

O New York Times define a New Press, editora que Schiffin lançou após “ser saído” da Pantheon como “editora sem fins lucrativos”. Uma acusação tão grave (para padrões estadunidenses) mereceu uma defesa acalorada de seu antigo chefe, para quem Schiffrin era sim um homem de negócios e a New Press era sim, um negócio.

Honestamente? Pela minha experiência, como administrador e editor, considero que uma editora não ter fins lucrativos já é um avanço. Todas as editoras em que trabalhei eram empresas com fins de não ter prejuízo (e outras são francamente “com fins de prejuízo”). O negócio do livro é um negócio improvável. Muita oferta, pouca demanda, enorme concorrência (entre os próprios livros e entre o livro e outros meios de entretenimento), distribuição afunilada, estoques dispendiosos com depreciação acelerada.

O negócio é que continuamos a fazer livros.

O digital é uma (promessa de) saída para o impasse da bibliodiversidade. Ao eliminar algumas das variáveis da equação financeira (custos de tiragem, estoque, distribuição e, até certo ponto, divulgação), a publicação eletrônica permitiria que livros “importantes” dessem “lucro”, mesmo quando importassem somente para poucas centenas de leitores.

Porém a publicação eletrônica ainda não se estabeleceu. Precisa parar de emular o mercado de papel se quiser deixar de ser deste um mero complemento. Precisa definir qual é seu produto, quem é seu público, seus canais, quais são seus custos e como se compõe seu preço. Enfim, as e-editoras precisam chegar a ter “fins lucrativos”. Somente aí a publicação digital passará a ser, no papel, um dos negócios do livro.

Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, que investiga a publicação digital e transmídia. Dirige o projeto “NossaLíngua.Doc” que documenta e estimula as conversas mundiais em português, em mídia social, livros e filme. É promotor de festivais de literatura e atual curador do LER, Salão Carioca do Livro.

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