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O livro entrou pelo cano
PublishNews, 21/11/2013
Seguindo os outros produtos culturais, o livro muda de estado

Vamos falar aqui de desapego. Não, não estamos falando sobre deixar para trás o livro de papel (quem ainda aguenta esse papo?). O livro de papel permanece. Estamos falando de um produto que não vai durar muito, cuja obsolescência é cada vez mais evidente. Um produto que mal chegou e que já vai indo. Ele, o e-book. Não nos referimos ao formato (ePub), mas à mercadoria. Principalmente ao sentido de comprarmos e guardarmos um arranjo de elétrons como se fosse uma mercadoria que colocamos na estante. Como se fosse um livro impresso, só que pior que o livro impresso (não se pode emprestar, além de não servir para calçar mesas bambas). É culpa do hábito. Lidamos com as coisas novas com as ferramentas que temos: nosso costume, nossos modelos.

“Vamos para frente olhando no retrovisor”.

Pratiquemos o desapego. Porque tem coisa melhor para nós, leitores. E tem coisa muito melhor para eles, que vendem produtos culturais. Estamos transitando, do mercado dos sólidos para o mercado dos líquidos.

Para explicar, mais uma vez temos os exemplos das indústrias culturais irmãs: a dos filmes e a da música. Indústrias mais ágeis, onde há mais dinheiro, e que, por isso mesmo, têm de rebolar para acompanhar as mudanças de consumo. Teriam também que acompanhar os desdobramentos tecnológicos, mas nisso geralmente elas estão na vanguarda do atraso.

O quadro esquemático abaixo traduz o raciocínio a seguir:

Era uma vez um mercado sem mercadorias. Não havia o que vender. Os produtos culturais estavam no ar (e ninguém ainda conseguiu vender ar). Estamos, portanto, no mercado GASOSO. Para ganhar dinheiro com cultura, era preciso vender ingresso (para um show ou uma sessão de cinema). O que havia para vender não era uma mercadoria, era uma experiência. O consumidor se deslocava para a mercadoria.

Veio o rádio (anos 1920) e a televisão (anos 1950), e o show e a sessão de cinema chegaram mais perto do consumidor, mas ainda não havia o que comprar, ouvia-se e assistia-se o que quer que estivesse passando.

Lá pelos anos 1940, na música, já havia algo a vender: discos de vinil. Só mais tarde, nos anos 1980, surgiria um “cinema” que o cliente poderia comprar e levar para casa: as fitas VHS. Chegamos então ao estado SÓLIDO. Sim, agora há uma mercadoria à venda, que o consumidor levava para sua casa, e ela era uma propriedade sua. O auge desse estado SÓLIDO se deu nos anos 1990, quando as indústrias audiovisual e fonográfica sorriam encasteladas sobre uma montanha de CDs e DVDs. Mas aí veio uma avalanche.

O digital

Assim como havia ocorrido com o advento do rádio e da televisão, inovações tecnológicas trouxeram o produto à comodidade do consumidor. Mas dessa vez não foi por iniciativa da indústria. Ao contrário. Estamos falando da pirataria, que trouxe para o digital a música que a indústria só queria vender em CDs (via Napster, entre outros) e os filmes que a indústria só queria vender em DVDs (via p2p, entre outros). Depois de perder tempo, credibilidade, dinheiro e poder, as indústrias fonográfica e do audiovisual encontraram (não por esforço deles) uma forma de perseverar (e prosperar) no novo estado do mercado cultural.

No estado LÍQUIDO do mercado de bens culturais, já não se vendem experiências (como no estado GASOSO), mas também não importam mais as mercadorias como no estado SÓLIDO. O consumidor não precisa mais se deslocar para o produto (estado gasoso), nem precisa buscar o produto nas prateleiras e levá-lo para a estante de casa (estado sólido). O produto está sempre e em todo lugar com o consumidor. Não se vende mais experiência, não se vende mais propriedade. Vende-se um direito. Exemplos? Netflix e Youtube — formas legais e onerosas de “venda” do produto cultural audiovisual — respondem por 50% do tráfego de bytes mundial, a mesma parcela que era ocupada pela pirataria p2p. O primeiro coloca à disposição do consumidor dezenas de milhares de filmes e programas, onde, quantos e quando ele quiser, por uma assinatura fixa. O segundo oferece quase um bilhão de videos, é gratuito para o visitante, mas parte da receita publicitária reverte à indústria audiovisual e à fonográfica (via ECAD). Por falar na indústria fonográfica, depois que foi salva pelo iTunes (ficando refém de uma só empresa, em compensação), ela vê agora uma nova fonte de renda com plataformas como Spotify, Rdio e Deezer. Música onde e quando consumidor quiser ouvir.

Ok, ok. Se você chegou até aqui, e é leitor do PublishNews, deve se estar perguntando: e o que o livro tem a ver com isso? A resposta está nesse outro quadro, e no parágrafo abaixo.

A diferença é que a história do livro é tão antiga que nos parece atávica. O ciclo de três estados (gasoso, sólido, líquido) da indústria audiovisual, por exemplo, levou uns 30 anos (dos anos 1980 aos anos 2010). O ciclo do livro começou em tempos imemoriais. Foi há quase 700 anos que ele passou do estado GASOSO para o SÓLIDO. Em outras palavras: até a (longa e demorada) popularização da imprensa, o consumidor (leitor) tinha que ir até o convento ou biblioteca para ter contato com o produto (livro). Era uma experiência (e bem restrita). Com a imprensa, surgiu uma mercadoria (um livro que poderia ser vendido e levado para casa), e a consequente propriedade. Esse estado, o SÓLIDO, durou até hoje (e durará). Mas também o livro pode entrar no estado LÍQUIDO. Olhe a sua volta. Ele já entrou. Primeiro com a pirataria (sim, quando a tecnologia permite e a indústria não emprega, vai alguém lá e faz, como foi com a música e o cinema). Mas há bibliotecas digitais startups que pipocam aqui e ali e tentativas de peso como a Kindle Lending Library. E há sistemas em franca ascensão, como a Nuvem de Livros. A nova grande promessa, abençoada pelos investidores e (cautelosamente) apoiada pelos editores é a Oyster. Ela parece ser a finalista da corrida que tanto se comenta no mercado: “quem será a Netflix dos livros?”.

O livro que eu quiser na tela que escolherei. Na Passárgada do estado líquido, o livro é amigo do rei leitor. (E quando fizer sentido financeiramente, e as editoras puderem se ocupar só com as narrativas, e não com papel e distribuição, o livro-serviço será o melhor amigo do editor).

Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, que investiga a publicação digital e transmídia. Dirige o projeto “NossaLíngua.Doc” que documenta e estimula as conversas mundiais em português, em mídia social, livros e filme. É promotor de festivais de literatura e atual curador do LER, Salão Carioca do Livro.

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