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A livraria acabou. Viva a livraria.
PublishNews, 15/08/2013
A livraria acabou. Viva a livraria.

Uma livraria vai abrir e um escritor não gostou. O excelente Ruy Castro manifestou recentemente seu “alarme” diante da notícia de que a Amazon vai passar a vender livros físicos no Brasil. Os motivos do alarme seriam dois, e ambos têm a ver com a materialidade. Primeiramente, o disparate de terem que especificar que são livros “físicos” — já que “pelos últimos mil anos os livros têm sido chamados de livros”. O segundo motivo de alarme é que, mesmo vendendo livros “de verdade” (físicos), a Amazon o fará “a partir de um endereço imaterial, nada físico”, desmoralizando o papel da livraria.

Sobre a desmaterialização dos livros, não há muito o que discutir. A leitura é uma experiência pessoal, e o gosto e a memória afetiva valem mais que especificações técnicas. Outro escritor, Veverlyn Klinkenborg, comentou na mesma semana que, embora leia centenas de ensaios e romances em seu iPad, sempre fica com a impressão de que não leu um livro. “A livracidade do livro simplesmente desaparece, ou, antes, sequer existiu. […] A leitura é efêmera por si, mas parece que é menos efêmera quando você está navegando um livro físico, que permanece depois que você o leu. […] A essência da leitura eletrônica é que ela se auto apaga.” Se a disputa livro impresso versus digital pertence ao campo das preferências pessoais (ou ainda precisa de um tempo para acomodação), a questão das livrarias físicas versus online envolve muito mais gente, e pode definir como teremos (ou não) acesso ao livro.

Na última Feira de Londres, o tradicional Grande Debate teve por tema “Amazon: amiga ou vilã”. Livreiros e editores tentaram colocar na balança os benefícios e ameaças trazidas pelo aluvião amazônico para a cadeia dos livros. O veredicto não foi simpático à empresa de Jeff Bezos. Sintomaticamente, nessa mesma edição, a Booksellers, patrocinadora da Feira de Londres, lançou uma campanha para valorizar as livrarias — a Books are my bag (algo como “livros são minha bagagem”) — e afastar o perigo da extinção das lojas de rua.

Do outro lado do Atlântico, livreiros foram mais diretos: pediram ajuda aos fregueses. Estão passando o chapéu eletrônico, o crowdfunding. “As livrarias são como um setor ameaçado de extinção, por uma série de motivos. Mas, se elas acabassem, deixariam um enorme buraco na comunidade”.

Na “série de motivos” mencionada por esse livreiro, estão a ascensão dos e-books, a fatia de mercado cada vez maior da (olha ela de novo) Amazon e o aumento geral dos aluguéis. Com o crowdfunding, livrarias “independentes” de vários estados conseguiram levantar o dinheiro para manterem-se abertas (por mais tempo, ao menos), sensibilizando o público. “Cada cliente que compra um livro com a gente poderia fazê-lo de modo mais rápido e barato. Muitos fregueses nos encaram como um entidade sem fins lucrativos que precisam apoiar”. Os fregueses/apoiadores sentem pelas lojas o que Ruy Castro bem descreveu: “as livrarias se caracterizaram por estantes altas, vendedores atenciosos, uma atmosfera de paz e a ocasional presença de um gato. Foi nelas que leitores e escritores aprenderam a se encontrar e trocar ideias, gerando uma emulação com a qual a cultura teve muito a ganhar.”

“Um lugar onde as pessoas espertas vão para se encontrar e encontrar as ideias é algo que vale a pena manter”. Até aí Seth Godin também está “na mesma página” que Ruy Castro. Mas sua “leitura” da situação é radicalmente oposta.

“Se você ama os livros, não tem como ver a Amazon como vilã. São mais livros vendidos para mais pessoas, por mais razões, que em qualquer outro canal de venda na história”. Godin ainda celebra as vitrines infinitas da loja online, que permitem vender de tudo, contornando a ditadura dos bestsellers, que vem engessando o mercado.

Lembrando-se da época em que sua mãe cuidava de uma livraria (“um negócio que mesmo antes da Amazon já não fazia muito sentido”) e ainda reconhecendo que vale a pena lutar pela existência das lojas de bairro, Godin analisa os últimos 70 anos do mercado de livros nos Estados Unidos para chegar à conclusão, um tanto bipolar, de que entramos na era de ouro para os livros e… que não há mais lugar nesse horizonte dourado para as livrarias.

“As boas livrarias independentes merecem sobreviver, e espero que elas sobrevivam. Mas não vão prosperar como substitutas locais para a Amazon. Terão de ser pontos de encontro, conectores”, vaticina Seth Godin. E se, enfim, as livrarias “físicas” não sobreviverem à desmaterialização da leitura? “Vou sentir falta da mágica da livraria de bairro. Mas sentiria muito mais a falta dos livros.”

Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, que investiga a publicação digital e transmídia. Dirige o projeto “NossaLíngua.Doc” que documenta e estimula as conversas mundiais em português, em mídia social, livros e filme. É promotor de festivais de literatura e atual curador do LER, Salão Carioca do Livro.

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