
Rodrigo Manhita estava com 19 anos quando trocou, aos poucos, o marketing pela edição de livros, mas soube equilibrar pratinhos e conjugar as duas atividades. Atual editor e diretor criativo da Penguin Random House Portugal, ele criou em 2024 o Secret Society, selo dedicado ao público Young Adult, e, neste ano, a Other Side, coleção voltada ao New Adult e aos leitores 18+. Por suas mãos passam autores que mobilizam grandes comunidades de leitores, sobretudo nos territórios da fantasia, do romance e da literatura jovem.
Estão no catálogo nomes como Holly Black, autora de O príncipe cruel; Rebecca Ross, de Divinos rivais; Rachel Reid, autora de Heated Rivalry; Tahereh Mafi, da série Estilhaça-me; e Leigh Bardugo, criadora do Grishaverso. Como diria Giberto Gil: "procure saber!". O jovem editor de 22 anos e muita energia acompanha dados e microtendências diariamente e defende que o trabalho de pensar no posicionamento de uma obra começa antes mesmo de ela chegar aos olhos dos marketeiros. Ao mesmo tempo, acredita que editar também exige intuição, risco e disposição para publicar um livro mesmo quando os números avisam que talvez ele não venda tanto quanto a chefia espera.
Em passagem pela capital paulista, onde participou da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, com uma esticada prevista para conhecer o Rio de Janeiro nos próximos dias, Rodrigo Manhita conversou com o PublishNews sobre essa fronteira cada vez menos nítida entre edição e marketing, o crescimento do New Adult, as diferenças que vê entre YA e livros +18 e a dificuldade de fazer autores conquistarem leitores internacionais. Também falou sobre a ponte que tenta construir entre os mercados brasileiro e português e sobre uma lição que ouviu quando começou na profissão e guarda até hoje: ser editor é saber “aguentar a paixão por um livro durante muito tempo”. Leia a entrevista completa:
PUBLISHNEWS — Você começou no marketing e, como editor, elaborou um método em que catálogo, identidade visual, redes sociais e comunidade de leitores estão alinhados. Onde termina o trabalho do editor e começa o do profissional de marketing? Essa fronteira ainda existe?
RODRIGO MANHITA — Acho que essa fronteira nunca existiu. Até porque o meu processo de passar do marketing para o editorial foi feito devagar, ao longo de um ano de transição. Havia, obviamente, muita coisa sobre ser editor que eu não sabia, mas acho que esse processo também foi ajudado pelo fato de vivermos num mundo cada vez mais complexo, em que já não podemos ser só uma coisa. Não podemos ser só autores, só editores ou só profissionais de marketing. Temos de entender várias coisas para responder à complexidade do mundo, às exigências dos consumidores e dos leitores e para conseguirmos nos destacar.
Sou apaixonado por marketing e não consigo largar isso mesmo trabalhando como editor. E, quando trabalhamos numa área mais comercial, para o grande público e, sobretudo, para o público jovem, há muito de marketing no trabalho editorial: análise de tendências, criação de pontes entre pessoas e leitores, entender os leitores e como chegar até eles.
Adquirir os direitos de um livro já não é simplesmente trabalhar o livro, colocá-lo lá fora e depois passá-lo para a equipe de marketing. Desde o início, tem de haver um pensamento sobre como vamos posicionar esse livro, por que vamos publicá-lo, por que ele é importante, o que podemos fazer por ele, qual será o formato. Tudo isso está intrinsecamente ligado ao marketing e à contratação do livro. Edição e marketing andam de mãos dadas. E acho que os resultados que tenho conseguido trazer como profissional do mercado editorial têm muito a ver com essa integração entre essas duas competências.
Fico muito feliz por poder conjugar essas duas coisas e por ter pensado, desde o início, num selo editorial que conjugasse tudo isso e fosse também uma comunidade. Os leitores já não querem apenas comprar um livro, ler aquela história e acabou. Isso já não é suficiente. Querem que aquela história e aquele universo transcendam o livro, querem fazer parte de uma comunidade, conhecer outras pessoas que gostam das mesmas coisas, conversar sobre aquele livro. Por isso, cada vez mais temos de pensar no conteúdo ao mesmo tempo que pensamos em como vamos divulgar o livro. A divulgação tem de ser uma extensão do próprio conteúdo, e não uma coisa fria, distante e artificial.
PN — Você já contou que consulta o Goodreads em todas as aquisições e que o número de avaliações pode pesar mais do que a nota de um livro. Até onde os dados orientam uma decisão editorial? Qual foi o livro que você publicou contrariando os números?
RODRIGO — Os dados orientam sempre as minhas decisões editoriais. Acho que não tomo uma única decisão sem olhar para dados. Isso também tem muito a ver com o meu background em marketing. Sou apaixonado por conteúdo, muito emotivo, gosto de me conectar com as histórias e tenho essa parte do amor pelos livros, sem dúvida, mas também tenho um lado muito analítico e pragmático nas decisões editoriais.
Faço análises de dados diariamente. Estou sempre a acompanhar as nossas vendas e as microtendências, olhando não só para a venda de cada livro, mas para a venda do autor, para tendências, desempenho e muitas outras variantes. Tento obter a maior quantidade de informação possível, porque acredito que a melhor forma de tomar uma decisão é ter acesso à maior quantidade de informação disponível.
Também tenho a sorte de trabalhar na Penguin Random House, um grupo gigantesco e mundial, e por isso tenho acesso a muitos dados que talvez noutra editora não tivesse tão facilmente: tendências dos Estados Unidos, do Brasil, da Espanha e de muitos outros países.
Mas, claro, os dados não são tudo. Tenho aprendido muito isso trabalhando como editor. A paixão e a intuição também são muito importantes. Construir um catálogo vai além dos dados e do desempenho comercial. Claro que isso é indispensável, somos uma empresa e trabalhamos para vender, mas construir um catálogo também envolve preocupação com diversidade e perguntas como: há aqui uma lacuna? Falta algum gênero? Existe um novo gênero que não faz sucesso agora, mas pode fazer no futuro? Temos de estar sempre a pensar à frente do momento que estamos vivendo.

Isso implica tomar decisões arriscadas. Um bom exemplo é o autor Bruno Leão, que está a ser lançado agora no Brasil pela Galera Record. Foi uma aposta num autor nacional, algo que não costuma correr bem em Portugal, e em livros com protagonistas e sobre casais LGBT, que tiveram um grande momento de vendas há alguns anos, mas já não apresentam o mesmo desempenho no mercado português. Era uma aposta que conjugava duas coisas que pareciam não dar certo, mas deu muito certo. Ele tornou-se um dos principais autores do nosso catálogo, um dos principais autores YA e queer portugueses e agora está a se internacionalizar.
Há também livros que não têm uma boa performance e que continuo a achar importantes. É o caso de Verão de lenço vermelho, um livro russo que se passa na antiga União Soviética e acompanha um casal queer. O livro foi banido na Rússia justamente por ser queer e gerou uma grande onda de debate público. Eu quis muito publicá-lo porque o considero importante. É um recorte diferente da realidade ao qual acho que os leitores devem ter acesso em português. Além disso, é uma história linda e que merece ser publicada.
Não correu bem, e eu não achava que fosse correr bem à partida. É um livro difícil de vender, mas é importante. E construir um catálogo editorial tem dessas coisas: precisamos tomar decisões fora da curva que, às vezes, nem toda a gente vai entender.
PN — A Secret Society nasceu para leitores Young Adult e agora ganhou uma parceira, a Other Side, pensada para livros New Adult e +18. Foi o catálogo que cresceu junto com os leitores ou foram os leitores que levaram você a redesenhar o catálogo? E onde está hoje a fronteira entre YA e New Adult?
RODRIGO — A Other Side é um dos meus projetos preferidos. Comecei a pensá-la por volta de abril do ano passado, quando comecei a perceber uma tendência de crescimento do New Adult, dos livros mais spicy e mais dark. Sabia que tínhamos de dar uma resposta, que precisávamos ser rápidos e começar logo a desenhar um catálogo. Foi uma intuição, mas também uma resposta à análise dos dados.
Foram os leitores que nos levaram a fazer isso e que me fizeram pensar novamente sobre o catálogo. Os leitores são a base de tudo o que fazemos. Acho que, cada vez mais, enquanto editores, não somos apenas curadores. Somos responsáveis por criar uma ponte e por ouvir o que os leitores querem. Eles estão no centro do nosso universo, é por eles que existimos e é a eles que temos de dar respostas.
Isso não significa fazer necessariamente tudo o que os leitores pedem. Continuamos a ter a nossa intuição e o nosso pensamento, a definir e a fazer curadoria, criando uma linha que faça sentido. Mas tudo isso só faz sentido se os ouvirmos.
Quando comecei a perceber esse movimento em busca de histórias mais adultas, mais dark e mais spicy, surgiu a ideia e a necessidade de manter o selo editorial relevante e em crescimento. Ao mesmo tempo, eu não queria fazer o mais comum, que seria simplesmente ir cegamente atrás de uma tendência e colocar esses livros na Secret Society. Era importante criar outro catálogo, que conversasse com a Secret Society, mas tivesse a sua própria identidade, preservando o nosso DNA nos livros Young Adult.
É um projeto que me deixa muito feliz, especialmente porque está a ter resultados estrondosos, acima de todas as nossas expectativas. É gratificante perceber que tomámos a decisão certa e que, quando achámos que precisávamos de criar esse catálogo, estávamos efetivamente a pensar à frente do tempo que vivíamos.
A fronteira entre YA e New Adult é muito complicada de definir. É uma pergunta de milhões. Para mim, no YA, os protagonistas estão a tentar descobrir quem são e qual é o seu lugar no mundo. Ainda não sabem efetivamente quem são nem o que querem. Seja numa fantasia, num thriller ou num romance, existe sempre essa dimensão.
Além disso, quando há cenas de spice, cenas mais sexuais, mais ou menos explícitas, elas servem para simbolizar alguma coisa na narrativa, mostrar o que as personagens estão a sentir ou revelar algo sobre a relação entre elas. Têm um propósito muito claro na história, não estão ali apenas porque sim.
No New Adult e nos livros +18, nem sempre as cenas sexuais e de tensão precisam estar ali para servir à narrativa. Às vezes estão simplesmente para provocar uma sensação no leitor. Esse é o objetivo e ponto. E está tudo bem.
Essa é a grande linha que traço. Não vou tanto pela idade das personagens, porque acho isso muito simplista. As histórias são muito complexas e mesmo esta resposta é relativamente simplista diante da complexidade das histórias e de um gênero inteiro.
PN — Você tem trabalhado para levar autores portugueses a outros mercados. Por que ainda é mais difícil para um autor português circular internacionalmente do que para um autor de língua inglesa chegar às livrarias de Portugal? O problema está nos livros, nos direitos, na língua ou no olhar do mercado?
RODRIGO — O problema nem são os autores portugueses, mas os autores que não saíram dos Estados Unidos ou do Reino Unido. Há muita dificuldade em levar esses autores para outros países. Tenho tentado trabalhar muito nessa questão, inclusive com amigos de várias editoras. Rafaela Machado, da Record, tem sido uma grande parceira. No cinema, na televisão e na música, temos cada vez mais artistas, filmes e séries vindos de outros países. Temos produções em língua espanhola, artistas da Coreia do Sul e do Japão, animes e mangás japoneses. Há mais abertura e mais espaço para conteúdos de outros países, e ainda existe muito trabalho a ser feito.
Acho que o problema está em duas coisas. Por um lado, na tradição. Existe uma espécie de hegemonia dos Estados Unidos na cultura e estamos habituados a olhar para o país quando falamos de tendências culturais. O sistema está muito construído em torno do que os Estados Unidos estão a ler e a decidir. Nos esquecemos de que outros países, juntos, têm mais população e também podem ditar tendências. A Europa pode definir uma tendência. O Brasil pode definir uma tendência. Não têm de ser sempre os Estados Unidos.
Isso começa a mudar, mas ainda é difícil. Depois, há obviamente o fator econômico da tradução. Por causa da própria tradição, é muito mais fácil, prático e barato traduzir um livro do inglês para o português, francês ou espanhol do que traduzir de outras línguas.
Acho que entre Portugal e Brasil há uma grande ponte que pode ser criada e que pode ser um exemplo. É por isso que invisto muito nas minhas relações com editores e agentes brasileiros. A língua é praticamente a mesma, com todas as diferenças, obviamente. Temos mercados parecidos e culturas diferentes, mas não abismalmente diferentes. Acho que Portugal está mais próximo do Brasil em termos culturais do que dos Estados Unidos — pelo menos é a minha sensação.
Há muito potencial a ser explorado. Se um dia eu tiver mérito suficiente para ser lembrado por alguma coisa ou para ter um impacto grande no mercado editorial, gostaria que fosse por abrir essa ponte, por conseguir publicar mais autores portugueses no Brasil e noutros países e também mais autores de outros países em Portugal.
É muito importante termos acesso a esses recortes culturais, a outras regiões e outras formas de pensar. O mundo é um lugar tão vasto que é completamente redutor estarmos sempre a ler o que pensam pessoas que, muitas vezes, têm acesso às mesmas informações e à mesma cultura. Há muita riqueza por aí e precisamos abrir os olhos para o talento de outros países.
PN — Você virou editor aos 19 anos. O que você não sabia sobre editar livros quando começou e só aprendeu quando colocou as mãos na massa?

RODRIGO — Tudo, não é? A minha chegada ao trabalho de editor foi mesmo aleatória, porque nunca pensei em ser editor. Sempre fui apaixonado por marketing e queria trabalhar nessa área, nem sequer necessariamente no mercado editorial. Sempre amei livros, mas também sempre amei cultura no geral, música, filmes e séries. Sabia que trabalharia com cultura, não obrigatoriamente com livros.
Quando surgiu a oportunidade, era um desafio demasiado grande para recusar. Adoro desafios e, entretanto, me apaixonei e descobri muita coisa.
Uma das principais coisas que aprendi foi justamente que os dados não são tudo. Criar um catálogo, que é o maior ativo e o maior orgulho de um editor, envolve muitos fatores além das vendas e dos números. Às vezes, publicamos porque acreditamos mesmo naquele autor. Há autores que não vendem nada durante 10 anos e, de repente, tornam-se um fenômeno gigantesco. Nem sempre é óbvio. Isto não é uma ciência e essa é a magia do publishing.
Acho que foi isso que me encantou. Ser editor é quase ser o maestro de uma orquestra gigantesca: é preciso levar em consideração muitas coisas, muita informação e muitos inputs e tentar tomar as melhores decisões.
Aprendi muito sobre texto, obviamente, porque nunca tinha pensado em editar ou mexer tanto num texto. Aprendi sobre trabalhar em equipe, desenvolver trabalho em conjunto e sobre o poder de ter um networking internacional e conhecer outros editores. Foi muito importante para mim desenvolver tantos amigos no publishing.
E aprendi uma coisa muito importante: resiliência. Precisamos acreditar nos nossos projetos e não deixar que a influência externa nos faça deixar de acreditar nos livros que estamos a publicar. Escolher comprar um livro é muitas vezes um processo muito longo, que envolve muito pensamento. Por isso, temos de levar aquilo em que acreditamos do início ao fim.
Quando surgiu a proposta para eu ser editor, lembro-me perfeitamente de Clara Capitão, diretora editorial, me dizer que ser editor envolvia aguentar a paixão por um livro durante muito tempo, mesmo quando já tivesse passado um ano e sentíssemos que já não estávamos apaixonados, porque entretanto vieram burocracia, contratos e mil e uma coisas.
Tínhamos de aguentar essa paixão. Guardei isso na cabeça até hoje. Acho superimportante.






