
Morreu nesta terça-feira (16), aos 78 anos, vítima de um câncer, o escritor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira contemporânea e referência na formação de escritores. Romancista, jornalista, crítico literário e professor de criação literária, Carrero construiu uma obra premiada ao longo de mais de cinco décadas e deixou uma marca profunda em autores que passaram por suas oficinas literárias.
Em comunicado, os familiares ressaltaram a dedicação de Carrero à literatura ao longo de toda a vida e o legado deixado por uma obra que atravessou gerações e se tornou referência na cultura brasileira. O velório ocorrerá na sede da Academia Pernambucana de Letras, onde ocupava uma cadeira desde 2004.
Nascido em Salgueiro (PE), em 1947, iniciou a carreira no jornalismo e trabalhou durante décadas no Diário de Pernambuco. Nos anos 1970, integrou o Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna (1927-2014), de quem era muito amigo. Curiosamente, Carrero nos deixa no dia do nascimento de Ariano, 99 anos depois.
Autor de romances como A história de Bernarda Soledade: A tigre do sertão, Sombra severa, Somos pedras que se consomem, As sombrias ruínas da alma, Minha alma é irmã de Deus e O senhor agora vai mudar de corpo, Carrero desenvolveu uma obra marcada pela investigação dos conflitos humanos, da religiosidade, da violência e das contradições do sertão nordestino. Foi reconhecido em vida. Recebeu distinções como o Prêmio Jabuti, o Prêmio São Paulo de Literatura, o Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional e o Troféu APCA. Nos últimos anos, suas obras foram publicadas pela Editora Record, pela Iluminuras, e também pela Cepe.
Além da produção literária, Carrero tornou-se uma figura central na formação de novos autores. A sua oficina de criação literária, realizada por décadas no Recife, ajudou a revelar escritores que mais tarde conquistariam projeção nacional. Entre eles está Marcelino Freire, que recordou nesta manhã, em sua rede social, qual foi o papel do mestre em sua trajetória e na de inúmeros escritores brasileiros:
"Arrasado aqui. Porque Raimundo Carrero era meu mestre. Amigo. Inspiração. Referência. Pude dizer isso várias vezes a ele. As histórias que vivemos juntos. As viagens", escreve Marcelino. "A literatura era sua fé na vida. E esse fervor ele transmitia a outros escritores e escritoras. A primeira oficina que fiz foi com ele. Carrero me ensinou a ler. Eu tinha 19 anos. E desde daí nunca nos separamos", continua. "Gratidão, parceiro, por tudo. Por sua obra. Vasta e fundamental. Continuarei aqui honrando a sua memória".
A escritora pernambucana Micheliny Verunschk também prestou homenagem a Carrero, destacando sua generosidade intelectual, a dedicação à literatura e a influência que exerceu sobre sucessivas gerações de autores. "Raimundo Carrero morreu hoje. e deixa uma obra e um exemplo para mim. eu não seria quem sou sem ele, que inúmeras vezes me acolheu, me aconselhou, leu e criticou o que escrevi", assinala a escritora premiada.
Nos últimos anos, Carrero seguiu escrevendo, publicando e refletindo sobre o ofício literário. Mesmo após enfrentar um AVC em 2010, continuou produzindo ficção e ensinando escrita, transformando a própria experiência em matéria literária.
Com a sua partida, a literatura brasileira perde uma de suas vozes mais singulares. Permanece, porém, um legado construído não apenas pelos livros que publicou, mas também pelos escritores que ajudou a formar e pelas leituras que continuará inspirando.







