
Conhecida no mundo hispânico como la gran dama de la edición, a editora Beatriz de Moura — fundadora da Tusquets — morreu no último dia 17, na Espanha, aos 87 anos. Nascida no Rio de Janeiro em 1939, ela se mudou muito jovem com a família primeiro para o Equador, depois para a Argélia, até se estabelecer em Barcelona nos anos 1950.
“Lamentamos comunicar que hoje nos deixou Beatriz de Moura", informa uma nota da Tusquets. "Ela era uma mulher brilhante e sem preconceitos, cosmopolita e aguerrida, precursora de tantas coisas e a alma da editora", diz o comunicado.
Em 1968, Beatriz fundou com seu então marido, o arquiteto Òscar Tusquets, a Tusquets Editores, que iniciou suas atividades em 1969. A casa logo se notabilizou com a publicação em espanhol de livros de Samuel Beckett, Ernst Jünger, E.M. Cioran e Milan Kundera, cujas obras foram traduzidas pela própria Beatriz. A casa editorial ficou conhecida no mundo todo pela sua identidade visual, aprimorada nos anos 1980 — fundo preto, uma grande imagem e fontes características na capa dos livros, bem como um catálogo atento a grandes nomes da literatura contemporânea. Beatriz ficou 40 anos à frente da editora, da qual se afastou na última década, com problemas de saúde.
Ela foi membro do Foro Babel, iniciativa cívica de defesa do bilingüismo na Catalunha, e em 1999 recebeu o Reconhecimento ao Mérito Editorial, prêmio da Feira Internacional do Livro de Guadalajara (México). Em 2006, recebeu a Cruz de Sant Jordi na Catalunha e, em 2010, a Medalha de Ouro ao Mérito nas Belas Artes, do Ministério da Cultura da Espanha.
Em 2012, ela assinou um acordo com o grupo Planeta para administração e distribuição da Tusquets — a integração completa se concluiu em 2014, e em 2016 a Tusquets passou a publicar também no Brasil, sob a égide do Grupo Planeta.
"Tive a alegria de conhecer Beatriz de Moura durante o processo de lançamento da versão brasileira do selo Tusquets, uma referência editorial em língua espanhola. Estive com ela e com seu braço direito, Juan Cerezo — que hoje segue à frente do selo na Espanha — em 2016, na Feira de Guadalajara, no México", conta ao PublishNews o editor e jornalista Cassiano Elek Machado, hoje diretor editorial do Grupo Record, na época à frente da Planeta no Brasil.
"Beatriz era enérgica, entusiasmada e generosa ao compartilhar suas experiências. Naquele encontro, contou, por exemplo, sobre o dia em que encontrou, no apartamento de Marguerite Duras, um belo retrato da autora — imagem que viria a escolher para a capa da edição espanhola de O amante e que depois seria adotada em edições mundo afora. Falava também de García Márquez, de quem foi editora no início, de Milan Kundera, que traduziu pessoalmente para o espanhol, e de suas divertidas andanças com Salvador Dalí, outro de seus autores. Em uma de nossas últimas trocas de mensagens, brincou comigo que um dos maiores tesouros do Museu Tusquets — que dizia estar montando com relíquias da editora — era um par de Havaianas com o logo da casa, feito na época do lançamento, em Paraty. Tal como os chinelos, Beatriz foi uma brasileira que cravou os pés mundo afora", relembra agora Cassiano.
Em entrevista ao PublishNews em 2017, durante a Feira do Livro de Buenos Aires, Beatriz falou, entre outros assuntos, sobre o início da editora. A Espanha vivia sob o regime de Franco, com censura pesada sobre a publicação de livros. “Foi um período muito difícil”, disse a editora ao jornalista Leonardo Neto. “Mas tivemos muita sorte. O primeiro livro que publicamos era um fininho, de 80 páginas, de Samuel Beckett. Logo depois ele ganhou o Prêmio Nobel. Era muito raro, na Espanha, ter um livro com aquela qualidade, então, ele serviu como um aperitivo para quem quisesse ler algo mais sofisticado”, completou.
Em 1975, com a morte de Franco e a mudança de regime, a Tusquets viu o seu primeiro boom. “Foi uma época absolutamente deliciosa. Em um país onde quase nada era publicado, por culpa da censura, nada daquilo que o mundo já conhecia e lia tinha sido publicado na Espanha. Foi uma explosão. Com nossos livros, começamos a vender muito. Fomos formando uma editora e um catálogo importantes”, relembrou, orgulhosa.






