Escritor rápido e receptivo, Conrado Corsalette deixa mais do que saudades
PublishNews, Eloah Pina, 19/01/2026
Editora da Fósforo escreve sobre a amizade que desenvolveu com o autor de 'Uma crise chamada Brasil'

Conrado Corsalette (1978-2026), autor de 'Uma crise chamada Brasil' (Fósforo), jornalista brilhante e profissional admirado | © Pablo Saborido
Conrado Corsalette (1978-2026), autor de 'Uma crise chamada Brasil' (Fósforo), jornalista brilhante e profissional admirado | © Pablo Saborido
Quando fui designada para editar o livro do Conrado, adaptação da série homônima do podcast Politiquês, do Nexo Jornal — que ele cofundou — inocentemente encarei a tarefa como mais um livro. É assim a vida do editor, um livro atrás do outro. Às vezes adoramos um livro e vamos atrás de editá-los, outras vezes o livro vem atrás de nós e passamos a adorá-los. Às vezes, livros nos dão amigos. Uma crise chamada Brasil (Fósforo) foi este último caso.

Eu não conhecia Conrado pessoalmente, e na primeira reunião para combinarmos datas e outras burocracias, logo percebi que juntos poderíamos não só adaptar o podcast para texto, mas expandi-lo, acrescentar materiais de pesquisa que tinham ficado de fora do roteiro para áudio, conversar sobre os rumos do Brasil, publicar um livro que articularia tudo que era confuso na política recente do país. Fui contagiada pela empolgação do Conrado. Na sequência ele me escreveu um e-mail “Tô maior feliz. Tô empolgadaço”, ao que eu respondi “Super! Eu também!”. Mais tarde ele diria que tivéramos juntos olhos de lince para os errinhos do texto — poucos, pouquíssimos —, e brinquei que eu era um lince míope, porque sabia que os olhos dele eram excepcionais. Ele reparou em cada palavra que troquei, em cada mensagem que mandei, respondeu cada comentário com esmero. Não quis “catarse” no subtítulo do livro, mas “erupção” da extrema-direita. Convenceu-me: “Estamos tratando de algo que estava subterrâneo”. Ao que respondi: “E podia ter continuado super subterrâneo”. Passou a me chamar de “Super!”, porque sua capacidade de escuta e atenção aos detalhes do interlocutor combinou com a super mania superlativa que tínhamos em comum.

E eu nunca tinha trabalhado com um escritor tão rápido, tão receptivo. Para quem não está habituado ao dia a dia editorial, essas características podem parecer banais. Porém, não é raro que haja atrasos e silêncios de autores mergulhados em seus próprios processos. O Conrado não era assim. Passamos a viver em um pingue-pongue de arquivos. Nas palavras do próprio, ele usava “o poder da madrugada para relativizar o tempo”: eu acordava e lá estava um capítulo. Ele escrevia, eu emendava, ele aprovava, eu devolvia. E às vezes havia algumas tréplicas, uns pedidos para considerarmos um arquivo com os gritos de VALE ESTE, VALE ESTE. Hábito de editor que discutimos um dia: seria melhor nomear o texto como “final_vale este” ou “vale este_ final”? Chegamos à conclusão de que o melhor era “final_ vale este”, porque assim poderíamos repetir “final_ vale este_vale este_AGORA É ESTE” ad infinitum, já que concordávamos com o fato de ser sempre possível aprimorar mais uma palavrinha.

Eu indagava como era possível que alguém com uma rotina de prazos apertados e ritmo alucinante das maiores redações de jornal do país, uma família, duas filhas, podia dedicar dois minutos a discutir uma besteirinha dessas. Besteirinha, sim, mas que logo entendi como enorme delicadeza, um senso de humor ímpar, uma atitude de “parceiro”, como bem mencionou Fabrício Corsaletti em seu obituário lindíssimo na Folha de S. Paulo sobre a predileção de Conrado por essa palavra.

Ele me escrevia “Oi Super, estou megaocupado mas te mando em 2 min”. E em dois minutos lá estava. Besteirinha, sim, mas compromisso, honestidade, generosidade. Em 6 de janeiro de 2023, voltando das férias, ele me mandou o penúltimo capítulo do livro. Faltava só mais um para cumprirmos a meta de ter o livro pronto para a efeméride dos dez anos das Jornadas de Junho. Então ele me escreve que estava com quase tudo pronto, “mas os bolsonaristas atropelaram meus planos, além de terem quebrado tudo em Brasília”. Naquele dia estávamos muito desolados com os rumos do Brasil, mas conversamos e outra vez a empolgação dele me contagiou. Iríamos fazer do limão a limonada, encerrar o livro com o capítulo do nefasto 8 de janeiro. Um livro com uma análise surpreendente, no calor dos acontecimentos. Passados poucos dias — tudo assim, veloz, eficiente, no que chamávamos de “ritmo da alegria” —, Conrado enviou o texto de apresentação e disse que era para ser “direta, reta e curta, afinal, o livro está aí para ser lido”. Sem volteios: escrever daquela maneira era sinal de empatia com o leitor.

O livro ficou pronto, lançamos numa noite fria no último dia de maio de 2023 no bar São Cristóvão, em São Paulo. Conrado passou horas autografando, todo sorrisos, em meio aos seus post-its. Quando cheguei em casa para ler a dedicatória que ele tinha feito em meu exemplar, não entendi absolutamente nada do que estava caligrafado. Brinquei: “Que bom que você me mandou o livro digitado!”, e ele depois decifrou que estava agradecendo pela paciência, pelo cuidado, pela parceria. Em julho de 2023, ele foi a Presidente Venceslau, cidade onde viveu até os dezoito anos e gostaria de lançar o livro, porque lá estavam “as pessoas fundamentais para seu crescimento”. Fez uma noite de autógrafos no Casa Bianca Music Bar com direito a apresentação de sua banda de rock.

Meses depois, num evento de outra escritora querida na Santa Cecília, em São Paulo, estávamos tomando uma cerveja na porta da livraria abarrotada de leitores, quando Conrado me mostrou o vídeo da banda lá em Presidente Venceslau. Para fazer graça, falei da importância do rock triste para a formação dos jovens, e emendamos num papo sobre Radiohead, rodas punks, documentário de bandas etc. etc. Acho que nos empolgamos falando alto demais, pediram silêncio, Conrado muito gentil se desculpou, mas num gesto de cumplicidade que havíamos construído nos últimos meses, cochichou para mim: “aqui é rock n’roll!”.

Ao longo do ano, fez lançamentos no Rio de Janeiro, na Travessa de Ipanema, em Paraty, na Flip, numa brilhante conversa com Michel Gherman e Rodrigo Nunes. De volta a São Paulo, n' A Feira do Livro, no Pacaembu, Natalia Viana e ele debateram política nos empolgando na plateia. Outros eventos vieram, bate-papos em que ele estava sempre disposto, "empolgadaço".

Tínhamos outras ideias de livros, o sonho da continuação O Brasil que não chama mais crise, entre outros projetos fervilhantes na mente genial de Conrado. Uma pena que foi tão breve nossa amizade, uma lástima que a vida não seja editável, que agora é realmente o vale este_final, e que eu não tenha repertório de sinônimos para dizer que a saudade que ele deixa a nós da Fósforo é imensa, tremenda, uma super saudade, Super.


*Eloah Pina é editora na Fósforo e mestre em literatura e cultura russa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Traduziu o conto "Instruções", de Dmitri Bykov, parte da Antologia do humor russo (Editora 34, 2018), e escreveu artigos, resenhas e posfácios para diversas publicações.



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