
Escrito a partir de uma viagem pelo norte da Europa, o volume reúne cartas em que a feminista Mary Wollstonecraft — mãe de Mary Shelley (1797-1851), autora de Frankestein — combina observação do cotidiano, reflexão filosófica e análise social. Ao longo do percurso por Suécia, Noruega e Dinamarca, a autora registra paisagens, encontros e impressões que revelam não apenas uma viajante atenta, mas uma pensadora em movimento, interessada nas transformações de seu tempo.
"O volume das cartas que ela escreveu enquanto viajava pela Escandinávia é um dos seus livros mais importantes e, sem dúvida, o mais bonito em termos de linguagem e qualidade literária. É um livro que evidencia a mente revolucionária de uma das primeiras feministas da Inglaterra, com seus pensamentos que questionavam a convenção de gênero e reivindicava igualdade entre homens e mulheres. Nas cartas, temos Wollstonecraft nos dando conta, em movimento, do que é ser uma mulher que viaja sendo mãe solo e com a companhia de uma outra mulher, uma espécie de ajudante dela. Ela nos relata o que sente na pele em relação aos preconceitos vividos e aos escândalos provocados por ser agente do seu percurso", conta Nara.
As cartas são escritas ao pai de sua filha, Gilbert Imlay, por quem Mary Wollstonecraft estava perdidamente apaixonada. "Um verdadeiro 'boy lixo', se posso usar uma gíria atual. Ela faz essa viagem por causa dele, na verdade, servindo como representante comercial dele, ao lado de Fanny, a filha que teve com ela e que ainda era bebê na época. Eles não se casaram por decisão mútua (do que eu saiba), mas Imlay estava cada vez mais distante de Wollstonecraft e isso estava incomodando-a, claramente, pelo teor das cartas. Em algum momento da viagem, ela começa a perguntar se ele ainda tem algum sentimento por ela, e ele parece se manter evasivo", entrega a tradutora, Paula Carvalho.
Na época de sua publicação, este foi o livro mais popular da autora, alcançando repercussão entre leitores e críticos e influenciando nomes do romantismo europeu, como William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. O filósofo William Godwin, que mais tarde se tornaria seu marido, escreveu que “se alguma vez houve um livro destinado a fazer um homem se apaixonar por sua autora, esta me parece ser a obra”.
Para Nara Vidal, a coleção tenta equilibrar nomes já conhecidos e outros menos. "É uma estratégia para oferecer aquilo que gostamos de ler, que achamos ter grande qualidade, mas que talvez, não esteja disponível no Brasil. Outro critério para a curadoria e criação do selo é abrir espaço para traduções feitas por mulheres. Isso é, para mim, imprescindível porque cria oportunidades e fortalece a ocupação de mulheres na cadeia do livro. Não só escrevemos, mas traduzimos, editamos e publicamos. Então, ter essa coerência é fundamental na proposta do selo", afirma Nara Vidal.
Neste contexto, Nara destaca o apuro da tradução, que trouxe o texto para o presente. “A tradutora do volume, Paula Carvalho, fez um belíssimo e cuidadoso trabalho. Ela honrou cada página do original, preservando o tom e a força da escrita de Wollstonecraft", assinala Nara Vidal. Paula diz que foi uma grande responsabilidade traduzir uma autora como Mary Wollstonecraft.
"Ela não foi só um fantasma para a filha Mary Shelley, mas também para mim. Pelas cartas, é possível ver que ela era uma mulher extremamente inteligente, culta, observadora e de humor perspicaz. Há muitas descrições de paisagens, alguns termos náuticos, citações não referenciadas de outras obras (porque, afinal, eram cartas), com orações longas e, em alguns momentos, um tom melancólico e, por vezes, dramático. Procurei, assim, manter o estilo de escrita de Wollstonecraft — o estilo de escrita da época —, que é, digamos, mais 'barroco' do que o que estamos acostumados atualmente, mais ágil e objetivo. Por isso, acabei me valendo de palavras e algumas construções mais 'formais' para manter uma verossimilhança da época, mas sem usar termos e construções muito rebuscados e antiquados que não fariam sentido para o leitor do presente", revela Paula.
Encontrar um equilíbrio entre a linguagem da época que não ficasse hermética, o estilo único da autora e o entendimento de seus sentimentos na hora da escrita foi desafiador. "Mas, no final, tudo fluiu porque Wollstonecraft é uma autora muito envolvente", defende Paula. Por escrever a Reivindicação dos direitos da mulher, em 1792, Mary Wollstonecraft é considerada um dos principais nomes da chamada primeira onda do feminismo, com impacto duradouro no pensamento político e nas discussões sobre igualdade de gênero.
Coleção aposta em autoras em domínio público
Antes do lançamento de Wollstonecraft, o Selo Inglesa publicou Freshwater, de Virginia Woolf (1882-1941), e Xingu e outros contos, de Edith Wharton (1862-1937).
"A Inglesa tem essa característica de publicar pouca coisa, mas o que escolhemos é de extremo esmero e se carateriza por esse cuidado, atenção, sem pressa, sem bombardeios comerciais. É uma coleção, um selo que convidam para uma leitura atenta e, claro, prazerosa, mas sempre de muita qualidade em suas propostas. Nossas próximas traduções são os Diários de Dorothy Wordsworth, que estão sendo traduzidos por Fabiane Secches, Mathilda, romance de Mary Shelley que está sendo traduzido por Elaine Christina Mota, e uma coleção de contos de Katherine Mansfield", adianta Nara ao PN.
Os títulos estão disponíveis nas principais livrarias e no site da editora.






