
Passado o furacão inicial, veículos de imprensa descobriram que a base de dados da pesquisa era inconsistente, e a própria Microsoft retirou o material de seu site. Apesar dos deslizes, essa história toda ampliou uma preocupação: sobre como a mente é afetada pelo uso de telas e de ferramentas tecnológicas.
Em fevereiro de 2025, o International Journal of Scientific Research (Revista Internacional de Pesquisa Científica) publicou um artigo a respeito do seguinte experimento: jovens entre 15 e 18 anos assistiram a vídeos do TikTok ou leram um livro por sete minutos e, em seguida, tiveram de completar tarefas focadas na avaliação da memória e da atenção. “Descobrimos que os participantes expressaram mais dificuldade em responder a perguntas e precisaram de mais tempo para pensar em suas respostas após a exposição à condição TikTok”, afirmaram as pesquisadoras. Elas, ainda, recomendaram levantamentos adicionais, com amostras maiores, para determinar os efeitos a longo prazo das mídias de formato curto e obter resultados mais precisos. O mesmo periódico publicou, em maio do ano passado, artigo sobre uma pesquisa que examinou a influência desse tipo de conteúdo no desempenho acadêmico. Os resultados indicaram que um alto consumo pode afetar negativamente os estudos.
Córtex pré-frontal e Jane Austen
“Ler é uma atividade muito mais complexa e profunda do que ver um vídeo curto”, diz o neurologista Leandro Teles, autor de O cérebro ansioso e Os novos desafios do cérebro (Alaúde). “A leitura é algo único, entre outras razões por ser multissensorial e por exigir uma postura ativa do leitor. Prosódia, intencionalidade, ênfase, timbre, emoção, imaginação — são vários elementos nesse único ato.” Quando se lê, dada a complexidade da tarefa, aciona-se uma série de áreas do cérebro, entre elas o córtex pré-frontal, o lobo parietal e o giro temporal superior.
Como escreve a psicopedagoga e especialista em neurodesenvolvimento Luciana Brites, em artigo no site do Instituto NeuroSaber, do qual é fundadora, “esse processo conecta áreas responsáveis pela visão, linguagem e memória, permitindo-nos decifrar e atribuir significado aos símbolos escritos. A compreensão de tal fenômeno revela como a leitura molda o pensamento, amplia as capacidades cognitivas e enriquece a comunicação humana”. Autora de Brincar é fundamental e Mentes únicas (Gente), ela defende que o desenvolvimento das habilidades envolvidas na leitura é essencial para um aprendizado eficaz por parte das crianças e adolescentes.
No começo da década de 2010, uma equipe multidisciplinar colocou voluntários para ler Jane Austen numa máquina de ressonância magnética. Eles fizeram uma leitura mais relaxada e talvez mais prazerosa, e outra mais concentrada, analítica. Esta última ativou regiões cerebrais envolvidas no tato e no processo de movimentação do corpo, descobriu a acadêmica que liderava o projeto, Natalie Phillips. Ou seja, era como se os leitores, tamanha a conexão, estivessem vivenciando as histórias da obra analisada.
Teles classifica a leitura como protagonista do palco da consciência, dificultando que se promovam simultaneamente outras tarefas, como ver televisão e se atentar à conversa ao lado. De acordo com o neurologista, ler “ancora” o cérebro num processo cognitivo estável, o que tende a impedir a dispersão comumente observada ou experimentada durante o uso de telas. Esse “ancoramento” é um contraponto importante às relações frequentemente superficiais que as pessoas mantêm com os conteúdos de redes sociais e de ferramentas de inteligência artificial. Como ler e compreender um romance de centenas de páginas — com uma profusão de personagens e diálogos, reviravoltas, mensagens subliminares e informações complexas —, vivendo apenas à base de reels, múltiplas telas, multitarefas e pesquisas rasas no ChatGPT?
Malhação cerebral e dopamina
“A concentração é a capacidade que temos de sustentar o foco em um estímulo, filtrando as distrações. Como qualquer habilidade, pode ser treinada — ou destreinada”, diz Daniel Martins de Barros, professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. A afirmação dele se alinha à de colegas e estudos científicos segundo os quais a capacidade de acionar e reter a atenção está ligada a uma espécie de musculação mental, um escudo contra estímulos externos de um dia a dia marcado pelo uso de telas e pela hiperconectividade. “Os vídeos curtos são uma prática que nos destreina a sustentar a atenção, o que no fim impacta essa habilidade de forma geral, prejudicando a leitura.”
Camila Tuchlinski, psicóloga, psicoterapeuta e especialista em psicossomática, identifica um esgotamento mental diante de uma realidade que exige cada vez mais velocidade de atenção. “Esses conteúdos são recheados de estímulos visuais e auditivos, com legendas que aparecem e desaparecem em uma fração de segundo. Durante a visualização, o ciclo da dopamina, que é um processo neuroquímico associado à gratificação, é ativado no cérebro”, destaca. “A busca por recompensa imediata pode prejudicar a capacidade de concentração e reflexão profunda.” Alguém aí com dificuldade para terminar um livro ou ver um filme do começo ao fim? Pois é.
Enquanto vídeos e textos curtos, memes e afins oferecem gratificação instantânea, o prazer associado à leitura de um livro só vem com algum esforço cognitivo. O emprego de energia intelectual explica, em boa medida, por que a leitura é tão citada em materiais científicos como uma proteção ao risco de desenvolver ou agudizar quadros de demência e de outras doenças caracterizadas pela perda cognitiva.

Recentemente, no blog “Receita de Médico”, d’O Globo, o psiquiatra Arthur Guerra publicou um texto intitulado “Por que a leitura é a melhor ferramenta para sua saúde mental”. Nele, explana que durante o ato de ler corpo e mente buscam uma posição mais relaxada e concentrada, os batimentos cardíacos diminuem e o leitor se afasta de problemas. Guerra cita, ainda, que “um estudo mostrou que apenas 6 minutos diários de leitura já são suficientes para reduzir o estresse em 68%”.
Equilíbrio e TikTok
Não se trata de, em pleno 2026, voltar para as cavernas e ignorar as telas, a quantidade de informações e demandas que circulam nos ambientes on-line e off-line e as facilidades trazidas pelas ferramentas de IA. O que está em jogo é a necessidade de buscar equilíbrio no consumo de conteúdo.
Uma solução simples, na visão de Camila, é incluir na rotina não só momentos de leitura de livros, mas também de ócio — o que estimula a reflexão e a criatividade. “Se investirmos na fruição, no prazer, em desfrutar dos conteúdos, seremos nós mesmos os curadores deles e acabaremos menos assoberbados por aquilo que somente nos distrai”, acrescenta Daniel Barros. “O principal é termos momentos dedicados à concentração, sem distrações, para treinar essa habilidade. Assim como não precisamos abandonar o transporte motorizado, mas precisamos fazer academia.”
Se, por um lado, os vídeos curtos (e outros formatos e ferramentas digitais) trazem muitas preocupações ligadas à cognição e à saúde mental, por outro, são fonte inesgotável de informações capazes de turbinar repertórios e interesses intelectuais. O TikTok em particular e outras redes e plataformas têm feito multidões de pessoas, especialmente jovens, ao redor do mundo descobrirem ou intensificarem a paixão pelos livros, além de promoverem autores e o trabalho do mercado editorial.
*Matéria veiculada na segunda edição impressa da Revista PublishNews, lançada em novembro de 2025, com tiragem de 10 mil exemplares e distribuição gratuita, tanto física quanto digitalmente (clique aqui para saber como acessar). Quer contribuir financeiramente com o canal? Clique aqui.
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