Mind the gap (da IA na Educação)
PublishNews, Flávia Bravin, 24/02/2026
Na BETT UK, entendemos que um dos riscos da IA é gerar um comportamento de pular etapas críticas do desenvolvimento intelectual

Bett Brasil será realizada entre os dias 5 e 8 de maio de 2026 | © Bett UK
Bett Brasil será realizada entre os dias 5 e 8 de maio de 2026 | © Bett UK
Na minha participação na BETT UK (21 a 23 de janeiro de 2026), uma coisa ficou clara: a inteligência artificial pode aumentar ainda mais os gaps dos alunos e entre eles e seus professores. Assim como no metrô londrino, o uso desatento, passivo e sem consciência da IA pode gerar acidentes sérios de percurso. Saltos apressados (ou atalhos) aumentam ainda mais o risco em educação.

Representando a Cogna e a Saber com o olhar da educação pública, tive a oportunidade de, junto com secretários de educação, fazer diversas visitas técnicas. A palestra do professor da London School of Economics (LSE), Jon Cardoso-Silva, brasileiro e referência em IA na educação, foi GENIAL, para citar o modelo que ele criou, usando o acrônimo para GENerative IA (em português mesmo) tools as a catalyst for Learning.

Jon nos mostrou que o gap com o qual devemos nos preocupar (yes, mind the gap again) não é pelo uso da IA em si. É pelo risco da IA gerar o comportamento de pular etapas críticas do desenvolvimento intelectual. Quando os alunos se preocupam mais com o resultado, a nota, do que com a jornada. Isso os leva a usar a IA como um atalho, substituindo seu processo de aprendizagem e o esforço para desenvolver habilidades críticas, amadurecer como estudante. Como disse o poeta espanhol Antonio Machado, "Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar”. O aluno até consegue uma boa nota com IA, mas abre mão da riqueza da jornada do conhecimento.

É aqui que entra um ponto fundamental e, para mim, um dos mais potentes do debate na BETT UK: a IA também pode ser uma aliada de uma educação mais humana. A IA amplia o papel do professor, se houver uso consciente, o protagonismo do aluno nos estudos. Ou seja, com intencionalidade, a IA vira um “parceiro de diálogo”, potencializando as capacidades humanas.

Quando usada com intenção pedagógica, a tecnologia apoia, personaliza e acelera processos, ao mesmo tempo em que libera tempo e energia dos educadores para aquilo que é insubstituível: a relação, a escuta, o olhar atento para cada estudante. Pensar o aluno como um indivíduo singular deixa de ser discurso e se torna prática. O fator humano volta a ocupar o centro da experiência educacional.

É uma mudança e tanto na educação. Escolas que não chamarem a responsabilidade e urgência de repensar seus modelos criarão lacunas cada vez maiores nos trilhos, num trem (ou trAIn) de altíssima velocidade, que a cada ciclo tecnológico acelera ainda mais.


Flávia Bravin | © Samuel Lorenzetti
Flávia Bravin | © Samuel Lorenzetti
*Flávia Bravin é sócia e Diretora Sr. de Negócios B2G da Cogna.

[24/02/2026 10:14:19]