
Em 1956, celebramos 70 anos de um conjunto excepcional que sustenta, sozinho, a ideia de um ano extraordinário. João Guimarães Rosa publica Grande sertão: Veredas, romance que não apenas inaugura um mundo — inaugura um idioma, um modo de narrar, uma nova percepção do sertão e, por ele, do humano. No mesmo fôlego, lança Corpo de baile, ampliando a potência da narrativa curta em novelas que são verdadeiros laboratórios de linguagem. No mesmo ano, Fernando Sabino apresenta O encontro marcado, romance de formação que captou, como poucos, a inquietação moral de uma juventude urbana em busca de sentido. Mário Palmério publica Vila dos Confins, levando o sertão político, social e simbólico para o centro da literatura brasileira. E Bernardo Élis lança O tronco, romance duro, de nervo social, que expõe as estruturas de poder e violência do Brasil profundo. 1956, assim, não é apenas um ano produtivo: é um ano fundador.
O que se comemora em 2026 no âmbito da literatura
Se 1956 é o núcleo mítico, 2026 é o ano em que esse núcleo se articula com outras efemérides decisivas, capazes de desenhar um panorama mais amplo da literatura brasileira — seus livros, seus autores, suas instituições e suas ideias.
Em 2026, celebramos 80 anos de Sagarana (1946), a estreia de Guimarães Rosa que abriu caminho para a década rosiana e preparou o salto de 1956. Celebramos também 50 anos de A festa, de Ivan Ângelo, romance que fez da fragmentação uma forma narrativa fundamental para pensar a cidade, a história e o autoritarismo. Soma-se a isso uma data essencial para a vida intelectual do país: os 60 anos da criação do Suplemento Literário de Minas Gerais, experiência editorial e crítica que formou leitores, consolidou repertórios e deu densidade ao debate cultural brasileiro.
Há ainda, em 2026, uma efeméride que ajuda a compreender a genealogia do sertão literário brasileiro e que dialoga diretamente com Grande sertão: Veredas: os 110 anos da morte de Afonso Arinos (1868–1916), autor de Pelo sertão. Publicado em 1898, o livro é um dos textos inaugurais da literatura sertaneja no Brasil. Foi ali que o sertão começou a ser tratado não como paisagem exótica, mas como espaço social, humano e narrativo autônomo. Afonso Arinos escreveu o sertão como origem — um gesto fundador que abriu caminho para Euclides da Cunha, Graciliano Ramos e, mais tarde, para Guimarães Rosa, que transformaria essa origem em travessia. Relembrar Afonso Arinos em 2026 é recolocar o ponto de partida dessa tradição no centro da conversa literária.
E há, também em 2026, uma efeméride drummondiana de grande peso simbólico e crítico: os 75 anos de Claro enigma (1951), de Carlos Drummond de Andrade. É o livro em que Drummond realiza sua virada metafísica e reflexiva, enfrentando o tempo, o limite e a linguagem com rigor extremo.
2026 é ainda um ano de nascimentos em datas redondas que pedem leitura pública e releituras: 100 anos de Milton Santos, 100 anos de Autran Dourado, 100 anos de Carlos Heitor Cony, 100 anos de Moacyr Félix e 100 anos de Thiago de Mello — um conjunto que revela a diversidade de vozes, gêneros e projetos intelectuais que moldaram o Brasil contemporâneo.
No desenho final, o sentido se impõe: 1956 nos entrega o espanto dos livros que mudaram o jogo. 2026 amplia o mapa — obras, autores e instituições — para transformar esse espanto em reflexão pública e projeto cultural. Porque comemorar literatura não é apenas lembrar datas. É decidir, de novo, o que permanece vivo.

*Afonso Borges é jornalista, escritor e gestor cultural.
**Os textos dos articulistas não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.






