
Entramos em 2026 com menos ilusões e mais dados. O livro continua vivo. O que está em disputa não é sua existência, mas a presença de quem escreve.
A inteligência artificial deixou de ser promessa. Ela já está na escrita, na revisão, na pesquisa, na tradução e nas capas. O debate ético, antes abstrato, tornou-se prático: o leitor quer saber como esse livro foi feito? Teremos livros “com IA”, “livres de IA”, híbridos? Ou isso será menos relevante do que a qualidade da obra, a força da ideia e sua repercussão cultural?
As capas geradas por IA são um bom termômetro dessa tensão. Mais do que estética, elas comunicam processo, valor e posicionamento. E determinados públicos percebem (e reagem). Por isso, ouvir o leitor e entender para quem se publica deixou de ser recomendação: virou condição.
O maior aprendizado de 2025 foi simples e incômodo: o leitor não acompanha mais quem não conversa com ele. Enquanto parte do mercado ainda debate se “precisa investir nas redes”, o público já decidiu quem escutar. Não se trata de performance, mas de abertura — de pensamento, processo, pesquisa e dúvida.
Vejo isso no trabalho com editoras que se posicionam. As que funcionam melhor não esperam o livro não vender para pensar em comunicação. Elas se antecipam, criam contexto, constroem repertório e desejo antes, durante e depois do lançamento. E isso não se faz sozinho.
As tendências também não nascem no vácuo. O sucesso recente das novelas turcas eróticas na Netflix não é acaso. É sinal. O público busca narrativas próximas da vida real, que falem de relacionamentos, desejo, poder, conflito moral, religião e política, como já nos ensinava Nelson Rodrigues, sem filtros nem concessões.

Ao mesmo tempo, guerra, colapso social, distopia e utopia seguem fortes, mas menos conceituais e mais encarnados em personagens reconhecíveis, sustentados por comunidades, mídia e estratégias de pertencimento. Premiações como o Globo de Ouro reforçam isso: histórias sociais seguem relevantes, mas aquelas que unem crítica, emoção e entretenimento alcançam mais gente. Até o cinema mais poético precisa de público, circulação e conversa (e hoje os atores participam ativamente desse processo).
É esse olhar que estimulo em alunos e mentorados.
O autor que não consome cultura, não observa comportamento e não se aproxima das pautas do seu tempo escreve em descompasso.
Há ainda um ponto pouco falado: tem escritor escrevendo pouco. Não em número de livros, mas em presença pública e pensamento compartilhado. Escrever para o leitor também é escrever artigos, dar entrevistas, emitir opinião (não como autopromoção, mas como continuidade do trabalho intelectual).
Os grandes autores sempre fizeram isso. Existiam no debate do seu tempo. Hoje, quando se convida um autor a escrever um artigo ou dar uma entrevista, a resposta muitas vezes é “não tenho tempo”. Não tem tempo de pensar em voz alta, mas espera ser lido em silêncio.
Como mostrar a voz de um autor se ele se cala?
Como criar vínculo se ele não fala, não escreve fora do livro, não aparece?
O leitor não acompanha apenas histórias. Ele acompanha visões de mundo.
2026 não pede autores performáticos.
Pede autores presentes — no pensamento, na cultura e na conversa.
O livro continua sendo o centro. Mas ele não chega sozinho ao leitor. Nunca chegou. Quem ainda acredita que esse peso pode ser transferido ao editor, à livraria, à distribuidora ou ao algoritmo está apenas adiando uma responsabilidade que também é autoral.
Escrever continua sendo o começo.
Nunca foi o fim.
É por isso que sigo aqui: ensinando marketing de forma honesta para autores e autoras, levando livros à mídia, produzindo obras com curadoria e leitura crítica, e defendendo algo básico — e muitas vezes esquecido: não se ignora o leitor. Nem para formá-lo, nem para surpreendê-lo.
*Lilian Cardoso é jornalista, especialista em marketing literário e fundadora do Grupo LC – Agência de Comunicação que atende, há 16 anos, as maiores editoras do Brasil. É autora do best-seller O livro secreto do escritor (Citadel) e, desde 2020, dedica-se à formação de novos escritores, promovendo conversas abertas sobre escrita, mercado e presença autoral. Desenvolve workshops gratuitos em seu canal no YouTube e coordena o curso on-line Escritores Admiráveis, que reúne profissionais do setor para compartilhar experiências, práticas e aprendizados reais da cadeia editorial.
**Os textos dos articulistas não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.






