A influência substitui a crítica?
PublishNews, Gabriel Mattos, 05/03/2016
A partir de um artigo de Fernando Baldraia veiculado na revista Piauí, pesquisador analisa sobre como a dinâmica das redes sociais altera a percepção de credibilidade do leitor

Gabriel Mattos © Monica Ramalho
Gabriel Mattos © Monica Ramalho
Para não dizerem que tô fazendo um clickbait (ou caça-cliques, em bom português), a resposta direta é: não. Definitivamente. Mas a pauta tá quente, tá na mesa e, claro, faz barulho no mundo literário, nas redes sociais e no mercado editorial.

Essa semana eu li o ótimo artigo do Fernando Baldraia, na Piauí, Contra o monopólio da razão literária. Fazendo um apanhado dos debates entre forma e conteúdo, que explodiram na mídia em 2025 após a entrevista da professora da USP Aurora Bernardini, Baldraia constrói um excelente panorama das críticas dirigidas à literatura negra contemporânea.

Mas o que me trouxe aqui foram as reflexões que o historiador apresenta ao tratar as dores e delícias da crítica literária hoje. Um trecho citado da entrevista do crítico Paulo Roberto Pires ao podcast Fio da Meada vale o destaque pra gente começar esse papo: “O leitor comum é aquele que garante a sobrevivência das obras. Por associações muito particulares, que não visam um discurso de autoridade, ele faz o seu repertório, e ele sobrevive. O leitor comum é o que garante a literatura, é o que faz o futuro da literatura. O crítico, por sua vez, deixa de ser uma figura de autoridade absoluta. Críticos que faziam livros e destruíam livros, isso não existe mais. E é excelente que não exista mais para todo mundo, para os críticos e para quem lê.”

Com esse protagonismo mais distribuído, a crítica tradicional passou a conviver com a enxurrada de conteúdo digital, sobretudo produzida por influenciadores literários. De um lado, o mercado ficou mais “dependente” dos criadores para que os livros, de fato, furem determinadas bolhas; de outro, a comunicação mediada por veículos tradicionais — historicamente associados à crítica clássica — também perdeu espaço.

Quando fui a campo entender melhor essa história de BookTokers e leitura algorítmica, segui um caminho conhecido na literatura acadêmica: a análise de conteúdo. Bardin sistematizou esse método justamente para lidar com discursos densos. Ele permite criar categorias, agrupar sentidos, identificar recorrências. Ao trabalhar com entrevistas extensas, falas de mercado e opiniões que se cruzam — e às vezes se tensionam —, essa organização ajuda a enxergar padrões com mais nitidez.

Uma das categorias da minha pesquisa — que deu origem ao livro Entre livros e likes (MapaLab, 2025) — investigava a relação entre engajamento e relevância dos criadores de conteúdo. Dei a ela o nome de “Percepção de credibilidade dos booktokers”. Nela, apareceram trechos que dialogam diretamente com a fala do Paulo Roberto. O primeiro veio de uma entrevista com uma editora.

“A gente não tem, pelo menos no Brasil, críticas literárias que se debruçaram no Young Adult. Existem críticas que não criticam apelo comercial, por exemplo, mas não são especialistas no tema. No Brasil — e aqui eu posso ser um pouco injusta de falar isso —, a crítica literária ficava muito restrita à ficção literária. Então a ficção se entende como valor literário, né? Tanto que os grandes medalhões da indústria acham que o Harry Potter não é literatura. Esse pessoal da crítica literária nunca quis se debruçar no Young Adult.”

Quando perguntei sobre as diferenças entre a crítica tradicional e os criadores, ela destacou como a própria dinâmica das redes altera a percepção de credibilidade do leitor.

“Essa comunidade digital que abraça esse gênero é feita de pessoas iguais a você; há uma identificação entre os pares, que se espalha numa velocidade absurda. E o melhor: você tem acesso à vida daquela pessoa, ao dia a dia dela, ao lifestyle dela — diferente do crítico tradicional, de quem você lê o nome e o que ele escreve, mas não acessa simbolicamente aquela persona para além disso.”

Em outra entrevista, com uma autora best-seller, apareceu um tom mais conciliador.

“Dizer que os booktokers estão estragando uma geração? Não, não estão. Acredito que os livros existem por motivos diferentes, para tocar pessoas diferentes, em momentos distintos da vida. Às vezes você começa por um tipo de livro e termina em outro. O fato é que não faço julgamento de valor sobre o que merece ser lido. Sei que haverá quem faça, que argumente, mas contra-argumentarei com certeza. Acho importante termos essa discussão. Questionar como as redes sociais impactam a literatura é ótimo, e não é algo novo. A literatura sempre foi influenciada por algo: crítica, mercado, tendências. Autores já escreviam pensando no que fazia sucesso; a pressão sempre existiu. Agora ela vem, sobretudo, das redes sociais.”

Por fim, uma das frases que mais me marcou nessas entrevistas foi a de uma booktoker. Ela diz que “o BookTok foi muito importante para a iniciação de leitores, mas não necessariamente para a formação de leitores”. E é aí que, pra mim, está a bossa do debate.

O deslocamento das conversas para o ambiente digital parece irreversível. Mais do que resistir a ele, talvez faça mais sentido aprender a operá-lo como porta de entrada. Que o primeiro contato aconteça no feed, se for o caso. E que, depois, haja espaço para aprofundamento e leitura crítica. Uma jornada pode começar nas redes, mas não precisa terminar nelas.

Se o ambiente digital já se consolidou como espaço decisivo para a descoberta de livros, talvez a pergunta relevante seja como transformar esse primeiro impulso em percurso. A iniciação pode acontecer no feed, no vídeo curto, na recomendação de alguém que se parece com você. A formação, porém, exige tempo, fricção, confronto de ideias. Talvez o papel da crítica, hoje, seja menos o de árbitro e mais o de aprofundamento, oferecendo camadas que o vídeo de um minuto com hook (aquele gancho que puxa a atenção do público) poderoso nunca vai alcançar. Não vejo um enterro em curso, mas sim rearranjos de fala, pluralidade e descentralização das conversas. E a literatura, como sempre, segue encontrando leitores por caminhos que nem sempre passam pelos mesmos portões.


* Gabriel Mattos é mestre em Economia Criativa, Estratégia e Inovação pela ESPM-RJ e professor convidado dos programas de MBA do IBMEC e da ESPM-RJ. Autor do livro "Entre livros e likes" e sócio da agência TwoCom, que desde 2018 teve como clientes os maiores grupos editoriais do país, como Sextante, Arqueiro, Rocco, Harper Collins, Globo Livros e Ediouro.


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