Livro deve continuar plastificado, mas de forma sustentável
PublishNews, Afonso Borges, 04/02/2026
A fábula do dia em que o livro lembrou do futuro — e acabou com a derrubada das florestas para fazer papel e, logo depois, acabou com o plástico que polui a natureza e os mares

Imagem ilustra o “Manifesto Pelo Livro Sem Plástico”, assinado por centenas de pessoas
Imagem ilustra o “Manifesto Pelo Livro Sem Plástico”, assinado por centenas de pessoas
Era uma vez — e não faz tanto tempo assim — um acordo silencioso entre leitores.

Nada foi assinado, nenhum manifesto circulou nas vitrines, nenhuma campanha ocupou as redes. Ainda assim, a decisão estava tomada: a partir de amanhã, ninguém mais compraria livros embalados em plástico shrink.

No primeiro dia, as livrarias estranharam. Os livros estavam ali, alinhados, brilhando sob a película transparente. Mas os leitores entravam, pegavam, olhavam — e recuavam. Alguns diziam apenas: “Assim, não”. Outros explicavam com calma: “Quando tirar o plástico, eu levo”. A maioria não dizia nada – e saía.

O mesmo aconteceu com as plataformas. Chegava livro shirnkado, era devolvido na hora. Às vezes, sem abrir o envelope. E as plataformas perceberam rápido. Algoritmos não leem fábulas, mas leem números. Vendas interrompidas, estoques parados, milhares de devoluções. O sistema reagiu, como sempre, procurando respostas.

E foi então que alguém, no meio da cadeia, lembrou de uma história antiga: houve um tempo em que fazer livros significava derrubar árvores. Florestas inteiras caíam para virar papel. O livro, esse símbolo de futuro, carregava em si um rastro de devastação e destruição da natureza. O problema era enorme — maior do que o do plástico. E parecia insolúvel.

Mas não foi.

A ciência entrou em cena. A tecnologia também. O setor aprendeu a substituir a extração predatória pelo cultivo planejado, o corte definitivo pelo ciclo renovável. A celulose deixou de vir da floresta virgem e passou a vir da mata cultivada, controlada e replantada. O papel continuou existindo — melhor, mais responsável, regenerável e sustentável. E a cadeia produtiva do livro resolveu um problema central na sua existência.

Na fábula, essa memória foi decisiva. Porque o desafio do plástico shrink, diante disso, já não parecia intransponível. Proteger o livro sem sufocar o planeta não era uma utopia — era apenas a próxima etapa de uma história já conhecida.

E foi justamente nesse ponto que a história deu mais um passo. Foi redigido o “Manifesto Pelo Livro Sem Plástico”, assinado por centenas de pessoas e um artigo intitulado “O livro, o plástico e as 700 toneladas no lixo”, publicado na Folha de S. Paulo, no dia 15/11/2025, que expôs a contradição de embalar conhecimento em filme termoencolhível colocou o tema no debate público. A pergunta deixou de ser retórica e passou a ser técnica: se já resolvemos o problema das árvores, por que não resolver o do plástico?

A resposta tem que vir, mais uma vez, da ciência e da tecnologia.

Deste chamado — do Manifesto, do artigo, da discussão aberta — tem que surgir uma empresa que desenvolva um invólucro de base vegetal, feito de celulose, reciclável, capaz de substituir o shrink plástico sem alterar a lógica da produção, sem desmontar máquinas, sem comprometer a proteção do livro.

Ao contrário do shrink tradicional, que permanece no ambiente por décadas e se fragmenta em toneladas de microplásticos, tem que se criar um wrap de celulose que se reintegre ao ciclo natural.

Em condições ambientais comuns, este plástico se degradar em meses, sem deixar resíduos tóxicos, sem contaminar o solo, os rios ou o ar. E não liberar microplásticos, não carregar aditivos petroquímicos persistentes. Não poluir os mares nem deixar herança ambiental.

E assim, quando os leitores recusaram o livro plastificado, não estavam rejeitando o livro. Estavam apenas pedindo que ele fizesse o que sempre fez ao longo da história: aprender, mudar e seguir adiante, com ciência, tecnologia e responsabilidade.

Toda fábula serve para ensinar algo simples. Não se trata de atacar as editoras, culpar as plataformas, dissertar sobre a necessidade de impedir que o livro se degrade nas livrarias pelo país afora.

O livro pode e deve continuar plastificado, por proteção ao objeto físico mas de forma sustentável, economicamente viável – para não gerar aumento de preços - e sem poluir a natureza.

© Aline Reis
© Aline Reis
*Afonso Borges é jornalista, escritor e gestor cultural.

**Os textos dos articulistas não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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