Três Perguntas do PN para Toni Grado
PublishNews, Monica Ramalho, 20/02/2026
A morte precoce da irmã levou o escritor paulistano a produzir três volumes já publicados de 'Não branco não homem'; o quarto volume encerra a tetralogia em 2026

“Os alicerces do nosso mundo emocional são feitos de pessoas", lapidou a médica e escritora Ana Claudia Quintana Arantes, no livro Pra vida toda valer a pena viver (Sextante, 2021). O escritor paulistano Toni Grado engrossa o coro: foi a partir da morte de sua irmã muito antes do esperado que Toni se lançou diante da tela em branco e produziu mais de 1.400 páginas de uma história humana, demasiadamente humana.

O que começou como tentativa de dar forma a um luto atravessado por silêncio e vazio evoluiu, ao longo de anos de estudo de psicanálise, mitologia e filosofia, para a arquitetura de Não branco não homem, publicados em três livros reunidos num box pela Nine Editorial.

A série aposta em humor, brutalidade e reflexão para investigar o “não ser” que escapa às categorias identitárias e simbólicas, e prepara, para este ano, um desfecho que promete reorganizar todo o percurso narrativo — e preencher a caixinha, que veio com dois dedos a mais para o encaixe do título que encerra a tetralogia.

"Simplesmente fui escrevendo, cortando, remontando, reescrevendo até me dar por satisfeito, face ao arcabouço de ideias que eu tinha preparado. O título tem um caráter muito mais filosófico que político, é a ideia do Não Ser que não se enquadra, escapa e extravasa todos os esquemas e representações do ser", conta Toni ao PublishNews. Leia a entrevista completa:

PUBLISHNEWS — Você escreve desde muito jovem, mas conta que a escrita ganhou outro sentido após a morte precoce de sua irmã. Em que momento esse luto deixou de ser apenas experiência pessoal e passou a se transformar em matéria literária estruturante para Não branco não homem? Quando ficou claro que essa investigação exigiria múltiplos volumes, e não um romance único? E o que esse título carrega de sentido para você hoje?

TONI GRADO — Após a morte da minha irmã, eu me vi atravessado por um som grave e vazio, desconhecido para mim. Esse estado de espírito por si só me empurrou mais para a escrita, sempre uma conversa comigo mesmo. Uns três anos depois, meio em câmera lenta, fui parar numa terapia. Apesar do medo e do sofrimento, achei tudo aquilo fascinante e me pus a estudar sozinho psicanálise, tentando me entender. Esse eu diria que foi o ponto de ruptura entre o luto e a criação de algo novo. Três peças de teatro resultaram daí. A esses estudos se somaram a mitologia e a filosofia, que me colocaram na trilha de um livro de filosofia sobre ontologia do desejo que eu nunca terminei, mas que serviu de preparação para o romance Não branco não homem.

Nunca antecipei a extensão que ele alcançou, de mais de 1400 páginas. Simplesmente fui escrevendo, cortando, remontando, reescrevendo até me dar por satisfeito, face ao arcabouço de ideias que eu tinha preparado. O título tem um caráter muito mais filosófico que político, é a ideia do Não Ser que não se enquadra, escapa e extravasa todos os esquemas e representações do ser. É o que Lacan chamaria de furo no simbólico, aquilo que não cabe em nada, de fundamental importância para nos reconectar com nós mesmos.

PN — A série traduz em literatura conceitos que vêm da filosofia, mas evita o tom didático. Como foi o desafio de transformar ideias tão abstratas em ação narrativa? E por que optar pelo humor como elemento de costura em uma obra marcada por brutalidade, guerras, especulação imobiliária, disputas políticas e violências urbanas?

TG — Todo mundo diz que não se deve carregar para a ficção uma mala cheia de ideias e princípios filosóficos porque eles vão acabar na boca de maus personagens engessados. É um risco que se corre e que eu a todo custo tentei evitar. Foi trabalhoso, mas valeu a pena, tanto para a minha ficção, quanto para minhas ideias filosóficas, que acho terem saído dessa interação melhor do que entraram. Quanto ao humor, penso ser indispensável tanto para a literatura quanto para a vida. Não existe tema onde ele não caiba, se seguirmos a máxima do dramaturgo romano Terêncio, de que nada do que é humano nos deveria ser estranho. E depois pense o seguinte, colocamos bebês nesse mundo com a possibilidade de uma vida miserável e uma morte horrível. Sem o senso de humor, seria impossível ter filhos, o que nos condenaria como espécie.

PN — Você afirma que escreveu o final antes do início e que um mau desfecho é imperdoável para o leitor. O que está em jogo, literariamente, nesse último volume previsto para 2026?

TG — Outro dia assisti a um bom filme irlandês - Acabe com eles - no qual para mim, pelo menos, o autor não soube terminar a boa história que criou porque não se preparou para falar sobre o tema escolhido, a violência. Ele se assustou com seus personagens e acabou por sufocá-los. Esse romance Não branco não homem fala sobre muitas coisas, mas ao cabo todas convergem para um estudo profundo do EU, tão negligenciado no nosso tempo. Os três volumes anteriores levam o leitor a esquecer disso, como se o importante fossem os outros e sua rede de conflitos. Mas eu, como autor, devo ter a disciplina de retomar no quarto volume, no ato final, o tema central e resolvê-lo e foi isso que eu busquei fazer. Posso adiantar que haverá um grande twist o qual, se tudo funcionar como planejado, dará conta tanto da expectativa dramatúrgica quanto da intenção filosófica. Será interessante observar as reações.

[20/02/2026 08:00:32]