
O livro marca a estreia de N.Netta na ficção e aborda o aborto a partir de uma perspectiva íntima e retrospectiva, ambientada no final dos anos 1980. A narrativa acompanha a protagonista diante do silenciamento, da repressão social e da omissão do Estado após decidir interromper uma gravidez. Referências culturais da época, como Cazuza (1958-1990), Madonna e a banda Legião Urbana, atravessam o texto.
Com apresentação de Isadora de Araújo Pontes (tradutora de Annie Ernaux no Brasil), a obra se insere em uma tradição autoficcional que parte da experiência individual para dialogar com uma vivência coletiva. “A obra de estreia de N.Netta na literatura é uma narrativa retrospectiva sobre uma experiência extremamente íntima da narradora, que, ao mesmo tempo, evoca a experiência de milhares de outras mulheres”, escreve Isadora na apresentação.
A autora afirma que a escassez de romances brasileiros que tratem do aborto foi um dos impulsos para a escrita, ao lado da leitura de O acontecimento, de Ernaux, e Dezessete anos, de Colombe Schneck. Diferentemente das autoras francesas, que escreveram em contextos de legalidade, N.Netta destaca que seu livro foi concebido em um cenário de dupla ilegalidade: tanto a experiência narrada quanto o momento da escrita ocorrem sob a vigência da proibição no Brasil.
Formada em Jornalismo pela PUC Minas, mestra em Teoria da Literatura pela UFMG e especialista em Escrita Criativa, a autora levou cerca de um ano para concluir o romance. Segundo ela, um dos principais desafios foi encontrar a voz narrativa em primeira pessoa e lidar com a exposição que o tema impõe. N.Netta trabalha em seu segundo romance, que dialoga com o livro de estreia.






