
Longe de ser novidade, visto que as homenagens são recorrentes desde o primeiro desfile no Carnaval do Rio, em 1932, a nova rodada de personalidades escolhidas como matéria-prima do enredo elegeu grandes contadores de histórias, nos livros ou nas canções. Pela primeira vez, o Império Serrano vai homenagear uma escritora. Depois de celebrar Jorge Amado (1902-2001), Vinicius de Moraes (1913-1980), Ariano Suassuna (1927-2014) e Manoel de Barros (1916-2014), entre outros tantos, será a vez de criar fantasias sobre vida e obra de Conceição Evaristo.
“O que acho interessante é que essa leva de homenagens não significa que os enredos sejam similares. Pelo contrário. São personalidades das mais plurais. Tem gente vinculada à literatura, gente da música e gente que transita entre literatura e música", pincela o escritor e pesquisador Luiz Antonio Simas, um especialista, autor de uma pilha de livros com motivos carnavalescos, entre eles o recente relançamento Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos (Mórula Editorial), coescrito com Fábio Fábato, com ilustrações do carnavalesco Fernando Pamplona (1926-2013).
Alberto Mussa é outro que vê com bons olhos a nova safra de homenagens. Ele está curioso para admirar a obra da escritora mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977) cruzando a Sapucaí, a bordo da Unidos da Tijuca. Marcada pela experiência da fome, da favela e da exclusão, a literatura seminal de Carolina — Quarto de despejo: Diário de uma favelada, de 1960 — convida o público a reler o Brasil a partir de vozes historicamente silenciadas.

“Não sei exatamente como as escolas têm se preparado para desenvolver os enredos, mas o nome de Carolina Maria de Jesus dispensa qualquer comentário em relação à grandeza da importância dela no panorama da literatura brasileira", comenta Mussa, apontando para outra escolha feliz, a de Conceição pelo Império. “Acredito que o impulso das duas mulheres vai trazer um grande axé para essas escolas aqui do Rio de Janeiro”, diz ele, que viu, em 2024, um livro seu virar tema de enredo da Acadêmicos do Grande Rio.
No ano em que completará 80 anos, a mineira Conceição Evaristo vive um auge de popularidade no país, sendo reconhecida por onde passa. O seu conceito de ‘escrevivência’ vai ganhar formas e movimentos nos carros alegóricos e no corpo dos passistas, que prometem samba no pé para conquistar uma vaga no Grupo Especial. A literatura está na alma do Império desde o desfile inaugural, em 1948, quando a escola exaltou os versos de Antônio Castro Alves (1847-1871), o poeta dos escravizados.
A pesquisadora Rachel Valença, integrante da Velha Guarda do Império Serrano, contou que "Conceição vestiu a camisa verde e branca e tem estado conosco em todos os momentos: desde as eliminatórias para escolha do samba-enredo, assim como nas feijoadas na quadra, nos ensaios de rua, até o ensaio técnico na Sapucaí, não perde nada! Isso significa muito para os componentes. Ela acredita em nós. Conceição é coisa nossa!". Rachel está com livro novo nas prateleiras: a plaquete Aqui nasceu Lima Barreto e outras histórias (MapaLab, 2025).
Já a carioca Mocidade Independente de Padre Miguel escolheu a polivalente Rita Lee (1947-2023), cantora, compositora e escritora de São Paulo, como figura condutora de seu Carnaval. O enredo jogará luz na dimensão autoral da artista, cuja produção combina letras afiadas, humor crítico, crônica urbana e ótica feminista, abusando da autobiografia. Para uma nação que canta Rita Lee há décadas, vai ser uma festa assistir à transmutação do seu rock'n'roll em samba-enredo na Sapucaí.

Também no Grupo Especial, a Imperatriz Leopoldinense prestará tributo em vida ao cantor Ney Matogrosso, 84 anos com tudo em cima. Embora não seja escritor no sentido estrito, Ney construiu uma linguagem própria, marcada por personagens, figurinos, poesia, erotismo e transgressão, numa narrativa biográfica contínua que será traduzida em Carnaval. O samba evoca alguns de seus sucessos, é claro.
Já a Acadêmicos do Grande Rio apostou em um enredo dedicado ao Manguebeat, nascido na ponta de uma caneta. O manifesto Caranguejos com cérebro, de 1992, foi escrito com a aspiração de renovar o ambiente cultural de Recife. O saudoso Chico Science, um dos fundadores do movimento, completaria 60 anos neste 2026, e as suas letras ainda vibram como poesia urbana e ensaio social, dignas de reverberar bonito na passarela do samba.
Samba, negritude e espiritismo em São Paulo
Em São Paulo, a Estrela do Terceiro Milênio homenageará o poeta e escritor Paulo César Pinheiro, 76 anos, autor de mais de mil canções imortalizadas por grandes intérpretes, como Maria Bethânia, Clara Nunes e João Nogueira, parceiro essencial. “Ser homenageado no Carnaval é uma consagração popular", afirma Paulinho, ao telefone. “O Brasil de hoje não é mais o do meu samba, mas acredito na força do que está feito", arremata o poeta, mangueirense de coração.

A Mocidade Unida da Mooca vai defender um enredo ancorado na escrita como ferramenta de pensamento e transformação social, partindo da valorização do Instituto Geledés, organização dedicada às mulheres negras, com destaque à paulistana Sueli Carneiro, 75 anos, figura central do feminismo negro no Brasil. A pedido de Sueli, haverá alas com referências a nomes como a historiadora Beatriz Nascimento (1943-1995) e a ativista Laudelina de Campos Melo (1904-1991). Afinal, a luta é sempre coletiva.
Por fim, a Tom Maior escolheu celebrar o legado do médium mineiro Chico Xavier (1910-2002), um dos autores mais lidos da história editorial do país. Com dezenas de livros que continuam a ser reimpressos e a circular de mão em mão, a sua produção espiritual aparece no enredo como narrativa de alcance simbólico, evidenciando o livro como espaço para garantir que ideias, valores e afetos não se percam depois da quarta-feira de cinzas.
Ouça abaixo alguns dos enredos citados na reportagem:
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