
O lançamento ocorre exatamente 30 anos após a defesa do trabalho e no ano em que a autora mineira completa 80 anos. Produzido em um ambiente acadêmico que pouco reconhecia a literatura de autoria negra como objeto legítimo de estudo, o ensaio articula análise crítica, pesquisa histórica e reflexão conceitual para examinar a constituição de uma poética marcada pela afro-brasilidade.
Ao analisar poemas de autores negros dos séculos XIX e XX, com destaque para a produção publicada na série Cadernos Negros, do coletivo Quilombhoje, Conceição investiga a literatura como espaço de afirmação identitária, memória e resistência. O livro reúne o texto pioneiro que alimentou o surgimento do conceito de escrevivência, posteriormente desenvolvido pela autora em sua obra ficcional e ensaística, ao compreender a literatura negra como um discurso em que o sujeito negro se apresenta como agente de sua própria história.
O percurso crítico inclui autores como Luís Gama, Maria Firmina dos Reis, Machado de Assis, Cruz e Sousa, Lima Barreto e Solano Trindade, além de contemporâneos, compondo um panorama que evidencia a presença contínua e historicamente silenciada das vozes negras na literatura brasileira. Temas como uso da língua, oralidade, memória do corpo negro, reconstrução da história oficial e a dimensão política da criação literária atravessam o ensaio.
Com apresentação da escritora e professora Denise Carrascosa (UFBA), orelha do professor Eduardo de Assis Duarte (UFMG) e prefácio em que a própria autora revisita o contexto de produção da pesquisa, Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade se afirma como documento histórico e instrumento fundamental para compreender a formação de um pensamento crítico ancorado em saberes negros e ancestrais no campo dos estudos literários brasileiros.
“Como pesquisadora negra, eu queria ser agente própria de uma análise, de uma investigação, de uma conceitualização, de uma teorização marcada por suportes teóricos construídos no campo de uma episteme negra e ancestral. Salvei-me pelos textos poéticos apresentados, porque a arte chega antes de qualquer teoria. Repito: A nossa Escrevivência não é para adormecer os da casa-grande, e sim para acordá-los de seus sonhos injustos”, escreveu Conceição em trecho destacado no release para a imprensa.
Com parte expressiva de sua obra publicada pela Pallas Editora, Conceição Evaristo soma este lançamento a títulos como Olhos d’Água, Ponciá Vicêncio, Becos da memória e Canção para ninar menino grande, ampliando um catálogo para além da criação literária.






