O que estou lendo: Felipe Cabral
PublishNews, Monica Ramalho, 14/01/2026
'Os relatos da Christiane são diretos e sinceros, o que torna toda sua jornada com as drogas ainda mais impactante para quem lê. Eu diria que é impossível terminar o livro do mesmo jeito que começamos', diz o escritor

"Acabei de ler a nova edição de Eu, Christiane F., 13 anos, droga, prostituída, da própria Christiane V. Felscherinow, em depoimentos recolhidos por Kai Hermann e Horst Rieck, publicada pela Bertrand Brasil. Já tinha assistido ao filme há muitos anos e sempre tive curiosidade de ler a obra original. Quando, ainda no ano passado, comecei a frequentar o Nar-Anon (irmandade para amigos e familiares de adictos), fui atrás de livros de não-ficção sobre dependência química para me aproximar destas vozes e buscar melhor compreensão do que acontecia ao meu redor. Foi assim que, dentre outras publicações, finalmente cheguei na história de Christiane F.

Esta foi minha última leitura de 2025 e posso dizer, com sinceridade, que foi uma das minhas melhores leituras da vida. Os relatos da Christiane são diretos e sinceros, o que torna toda sua jornada com as drogas ainda mais impactante para quem lê. Eu diria que é impossível terminar o livro do mesmo jeito que começamos. A adaptação audiovisual é muito forte por nos dar imagens, mas o livro me tocou mais profundo, porque era eu quem criava as próprias imagens de tudo que aquela adolescente viveu.

Sabe uma coisa que me surpreendeu? Que entre os capítulos narrados pela Christiane, teriam relatos de sua mãe, por exemplo. Foi muito interessante ver como sua mãe, que não estava por dentro do que a filha fazia nas ruas, encarava cada situação. Acompanhamos tudo pelos olhos da menina, no olho do furacão, sem nenhum pudor em nos contar tudo, para, na sequência, trocarmos o ponto de vista e encararmos tudo pelos olhos de sua mãe. Parte o coração ver como eram duas realidades muito diferentes e como os familiares, de fato, não possuem controle sobre o que uma pessoa com dependência química faz com sua vida.

Como alguém que já publicou histórias com protagonistas adolescentes e dá cursos sobre narrativas jovens adultas, o livro acaba sendo mais um exemplo de narrativas jovens nada glamourizadas. Mas a leitura, desta vez, não teve nenhum objetivo profissional. Foi simplesmente para me aproximar deste universo, a nível pessoal.

Recomendo essa leitura porque é um clássico, de verdade. Tenho lido muitas biografias e obras de não-ficção de pessoas que já enfrentaram seus vícios e este, certamente, é um dos mais impactantes. Vemos, página a página, como Christiane vai se aproximando do mundo das drogas, sempre achando que jamais se tornaria 'um deles'. Assim como, meses depois, já viciada, a menina acha que será fácil largar a droga, ainda que as recaídas sejam constantes e tudo ao seu redor seja destruído. É um relato forte e sincero que todos deveriam ler".

*Felipe Cabral é autor de O primeiro beijo de Romeu, seu romance de estreia publicado pela Galera Record em 2021; e do romance Nossa grande chance, que saiu em 2025 pela Verus. Roteirista e ator, já foi curador da Bienal do Livro do Rio em 2019 e 2021. Felipe escreve de olho nas vulnerabilidade da juventude LGBTQIA+.


*Mais de 15 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades do mercado editorial. E o melhor: É gratuito! Clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews — se puder, também indique para um ou dois amigos e colegas.

[14/01/2026 08:25:06]