Três Perguntas do PN para C.S. Soares, biógrafo de Machado de Assis
PublishNews, Monica Ramalho, 13/11/2025
Biografia de Machado de Assis é lançada em passeio com o autor por lugares que fizeram parte do roteiro do fundador da ABL e autor de obras que elevaram a literatura brasileira

Que tal conhecer um pouco da história de Machado de Assis (1839-1908) enquanto faz um passeio guiado pelo Rio Antigo com o autor da biografia Machado: O filho do inverno (Ação Editora), recém-chegada às livrarias? Essa é a proposta do encontro Machado da Gema, que será realizado no próximo dia 26, das 10h às 15h, com ele, Claudio de Souza Soares, que assina a obra como C. S. Soares.

O roteiro vai contemplar lugares por onde andou o fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), há 128 anos, partindo do Morro do Providência e percorrendo a Praça Tiradentes, o Cais do Valongo, a Igreja da Lampadosa e todo aquele chão da legendária Pequena África.

Trechos do livro serão lidos e explicados em cada parada, levando o público a entender um pouco mais dos caminhos percorridos pelo criador de tamanha obra literária. Mas corra porque há poucas vagas! Interessados devem escrever para mariana.bastos@acaodacidadania.org.br a fim de garantir o passaporte ao passado que o livro, e o personagem, trazem.

Em entrevista ao PublishNews, Soares disse que o livro reivindica a negritude de Machado e percorre os seus quarenta anos, até 1880 — oito anos antes da assinatura da Lei Áurea, quando o Rio de Janeiro já era capital e centro literário do país, e possuía uma população estimada em 250 mil habitantes, ao passo que hoje são mais de 17 milhões. Imagine só!

Machado viveu aquele ano publicando, entre março e dezembro, a história do morto que rebobinava os seus privilégios de homem branco e pertencente à elite escravocrata, no folhetim que chegava aos leitores encartado na Revista Brasileira. Memórias póstumas de Brás Cubas foi transformada em livro no ano seguinte pela Tipografia Nacional e o resto você já sabe! Virou a obra-prima, considerada divisora de águas na literatura brasileira.

Nessa entrevista, Soares explica que a biografia “revela a lenta edificação de um homem que aprendeu o ‘ofício de desaparecer’ em meio à escravidão e ao preconceito. Ao investigar suas estratégias de silêncio, disfarce e ironia, procuro mostrar como Machado converteu o apagamento em linguagem e a marginalização em forma estética”. Linguagem e forma estética que, em 2025, ainda nos guiam como faróis. E adianta, em linhas gerais, o que o leitor pode esperar do segundo volume. Leia a entrevista completa:

PUBLISHNEWS — Em Machado – O filho do inverno, você se detém nos primeiros 40 anos do escritor e o lê como autor negro em meio a uma sociedade escravocrata. Como nasceu esse recorte? E uma curiosidade: qual é o nome reconhecido em cartório de C. S. Soares?

C. S. SOARES — O recorte da biografia surgiu de modo quase inevitável, já que a crítica há muito reconhece duas fases na obra de Machado de Assis: a primeira, romântica, e a segunda, realista. Originalmente, o projeto seria uma trilogia, mas uma frase de Augusto Meyer, escrita em 1958, me fez redefinir o seu eixo — “Entre ontem e hoje, entre Machadinho e Machadão, cabem todas as fantasias do devir que está sendo e ainda não é”. Essa imagem de passagem e metamorfose sintetiza o espírito deste primeiro volume, Machado – O filho do inverno, que nos bastidores chamo de “Machadinho”, uma biografia que busca restituir a identidade negra e social do escritor, lendo seus primeiros quarenta anos como o período em que ele forjou sua genialidade no coração de um país erguido sobre o racismo e a desigualdade.

O arco narrativo, de 1839 a 1880, culmina em Memórias Póstumas de Brás Cubas e revela a lenta edificação de um homem que aprendeu o “ofício de desaparecer” em meio à escravidão e ao preconceito. Ao investigar suas estratégias de silêncio, disfarce e ironia, procuro mostrar como Machado converteu o apagamento em linguagem e a marginalização em forma estética. Lê-lo como autor negro não é gesto ideológico, mas ato de reparação, que o devolve à plenitude de sua história e de sua voz. A biografia sustenta que Machado não foi gênio apesar de sua cor, mas porque fez do silêncio imposto um idioma de resistência, transformando a dor em estilo, o disfarce em pensamento e a invisibilidade em arte.

No papel timbrado da República e carimbado em cartório, C. S. Soares atende por Cláudio de Souza Soares.

PN — Em meio aos 640 páginas do volume, você cruza genealogia, contexto social, tensão racial, infância, a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas… Entre tantos elementos, qual foi o desafio mais delicado, e gratificante, em “dar carne” ao mito de Machado?

CSS — O desafio mais delicado foi demonstrar que o Machado negro não é uma hipótese lateral nem uma variação interpretativa, mas o único Machado possível. Essa certeza me obrigava a enfrentar uma pergunta incômoda: o que se desestabiliza quando recusamos a ideia apaziguadora de um autor “acima das questões raciais” e deixamos cair a ficção confortável do “escritor universal”? Reconhecê-lo como um homem negro do século XIX, filho da pobreza e sobrevivente de um país erguido sobre a escravidão e ainda governado, mesmo após a Abolição, pelas engrenagens persistentes do racismo estrutural é recolocar sua obra no território concreto da história e da desigualdade que a moldou.

Biografar Machado de Assis foi, assim, um ato de resistência. Dar carne ao mito exigiu enfrentar o apagamento de sua identidade e restituir-lhe corpo, cor e contexto. O trabalho consistiu em escavar o silêncio: compreender um homem que aprendeu a existir nas brechas, a transformar o silêncio em linguagem e o disfarce em pensamento. Era preciso rejeitar a imagem do autor etéreo e encarar o cálculo que construiu sua invisibilidade.

A recompensa foi restituí-lo por inteiro, não como lenda, mas como sobrevivente. Lê-lo sob essa luz não estreita sua literatura, amplia-a, revelando novas camadas de sentido e de urgência. Reconhecer sua negritude é reconhecer o motor secreto de sua arte.

PN — A escolha do selo Ação Editora parece ressoar com o seu projeto de releitura de Machado. O que espera que esse primeiro volume provoque nos leitores? A continuação já está escrita? O que pode adiantar dela pro PublishNews?

CSS — Excelente pergunta, porque a escolha da Ação Editora não foi apenas editorial, mas simbólica. A casa nasce de um projeto voltado à cidadania, igualdade e diversidade, e Machado – O filho do inverno compartilha desse mesmo impulso: restituir voz, corpo e cor a quem a história oficial tentou apagar. Meu desejo é que o livro provoque, ao mesmo tempo, encantamento e desconforto, levando o leitor a reconhecer um Machado mais vivo, mais humano, mais político e, portanto, mais próximo de nós.

Quero que ele perceba que a genialidade de Machado não floresceu apesar de sua cor, mas a partir dela, como forma de resistência e invenção. Se o livro conseguir reabrir o debate sobre quem foi realmente esse homem e sobre o que o Brasil ainda não quis enxergar nele, já terá cumprido sua função.

Este primeiro volume também traz aspectos pouco explorados de sua trajetória, como a investigação sobre a possível inspiradora da icônica Capitu, a rede de maçons negros que ofereceu apoio a Machado em um período de extrema precariedade e as descobertas genealógicas inéditas que ajudam a reconstruir suas origens familiares e sociais. São novos fios que, entrelaçados aos já conhecidos, revelam um Machado mais complexo, enraizado e intensamente atravessado por seu tempo.

Quanto ao segundo volume, posso adiantar que já está em processo avançado de escrita. Ele acompanha Machado do auge literário à consolidação como mito nacional, revelando os bastidores da fundação da Academia Brasileira de Letras, sua relação com o poder, as disputas raciais e intelectuais da virada do século e as sombras e silêncios do velho Dom Casmurro que ele próprio se tornou. Em síntese, se o primeiro volume mostra como Machado se fez invisível, o segundo mostrará como ele se tornou inevitável.

[14/11/2025 09:14:20]