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Livros, comunidades e o combate à epidemia do nosso tempo
PublishNews, André Palme, 20/03/2025
Em novo artigo, Palme fala sobre a experiência da leitura comunitária e como o livro pode ser, mesmo no ambiente digital, ser um elemento agregador e comunitário

A leitura, por natureza, é uma atividade solitária. Iniciamos um livro e mergulhamos em um universo particular. Diferente do vídeo, da música e de outras formas de conteúdo, o consumo em si do livro é algo que se faz individualmente. Apesar de que hoje, até isso mudou: você já ouviu falar dos sprints de leitura? Grupos que se reúnem online – às vezes por horas – em um call onde ninguém fala nada e cada um fica lendo o próprio livro. Um misto de comunidade e criação de hábito e rotina de leitura.

Os livros têm um imenso poder de gerar conversas, conectar pessoas e formar comunidades. No mundo físico e digital, a literatura se transforma em um catalisador social, impulsionando diálogos, trocas de ideias e movimentos culturais.

© Eduardo Aigner
© Eduardo Aigner
Desde os tradicionais – e cada vez mais atuais – clubes do livro até as discussões no ambiente digital, o ato de ler está longe de ser uma experiência exclusivamente individual. Encontros presenciais ou virtuais permitem que leitores compartilhem suas impressões, debatam interpretações e descubram novas perspectivas sobre uma mesma obra. Esses grupos fortalecem o vínculo entre os participantes e criam espaços de aprendizado e troca genuína.

No Brasil, a TAG tem se destacado com suas iniciativas de clubes do livro há alguns anos. Mas agora, em uma fórmula ainda mais poderosa, uniu os dois lados da história: creators com comunidades estabelecidas e curadoria de bons conteúdos. Primeiro com o Bookster, agora com a Marcela Ceribelli, promovendo uma experiência mais profunda e compartilhada com a literatura. Isso reforça o papel do livro como ponto de conexão.

As redes sociais ampliaram ainda mais esse fenômeno. Instagram, TikTok e X (antigo Twitter) viram o crescimento de comunidades apaixonadas por livros. Movimentos como o #BookTok demonstram como a literatura pode gerar milhões de interações e até impulsionar vendas, resgatando obras antigas ou destacando novos autores. O que antes acontecia apenas em pequenos grupos agora pode alcançar milhões de leitores ao redor do mundo.

O Skoob, a maior rede social de leitores do Brasil, também é um exemplo de como a literatura pode criar conexões. A plataforma permite que leitores avaliem livros, compartilhem resenhas e participem de desafios literários, tornando a experiência de leitura mais interativa e social. O sucesso do Skoob mostra que, mesmo em um ambiente digital, o livro consegue ser um elemento agregador e comunitário.

Outra fonte de conversas são os podcasts literários, que desempenham um papel essencial na ampliação desse diálogo. Eles permitem que leitores se aprofundem em temas, conheçam a visão de especialistas e descubram novas obras a partir de recomendações. Da mesma forma, fóruns online criam ambientes onde as pessoas podem trocar resenhas, sugerir leituras e discutir personagens e enredos em detalhes.

Existe ainda um outro ponto, uma questão bastante contemporânea, onde o livro pode atuar. No último SXSW, um dos temas mais debatidos foi a solidão no mundo digital. Especialistas destacaram que a hiperconectividade nem sempre significa proximidade real, e que a solidão se tornou uma epidemia global. Nesse contexto, o livro pode assumir um papel ainda mais relevante ao oferecer um ponto de encontro genuíno para pessoas se conectarem além das interações superficiais das redes sociais. A literatura, ao estimular debates e reflexões, pode servir como uma ferramenta poderosa para resgatar o senso de pertencimento e comunidade, além de conversas e maior interação social.

E, para trazer tudo isso também como uma oportunidade para a indústria, vou trazer um novo conceito que a Bia Granja trouxe à tona, também no SXSW: o ROF (Return Over Fan), que destaca a importância da construção de comunidades autênticas e engajadas, em vez de focar apenas no alcance ou no volume de seguidores. No universo dos livros, essa ideia se aplica perfeitamente: mais do que vender exemplares, o verdadeiro impacto de uma obra está na sua capacidade de gerar identificação e conversas duradouras entre os leitores. O crescimento de clubes do livro, redes sociais literárias e fóruns especializados reforça que os livros não são apenas produtos culturais, mas também gatilhos para a formação de laços e de um senso de pertencimento, gerando conversas e negócios!

Embora a leitura seja uma experiência individual, seu impacto vai muito além do leitor solitário. O livro tem o poder de conectar pessoas, estimular conversas e construir comunidades vibrantes, tanto no ambiente físico quanto no digital. Em um mundo cada vez mais fragmentado e solitário, a literatura se revela uma ferramenta poderosa para unir ideias e promover diálogos significativos.

André Palme possui mais de 20 anos de carreira, sendo 14 deles dedicados ao mercado editorial e à transformação do ecossistema do livro no Brasil. Ao longo da trajetória, liderou projetos de inovação envolvendo publishing, tecnologia, conteúdo digital e novos modelos de negócio em empresas como Storytel e Skeelo. Atualmente, lidera a Estante Virtual, marketplace de livros do Magalu, trabalhando na construção de uma plataforma onde cultura, descoberta e commerce se encontram através dos livros. Seu trabalho conecta cultura, tecnologia e mercado, com foco em ampliar as formas de acesso, circulação e relevância dos livros na vida das pessoas. Também atua como colunista, professor, mentor e membro da Comissão de Inovação e Tecnologia da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews

Tags: Skoob, TAG
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