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Uma vida entre amores e livros
PublishNews, Leonardo Garzaro, 14/11/2023
O editor argentino Luciano Paez Souza se diz um afortunado por ter nascido não em um berço de ouro, mas sim em um berço de livros; ao conhecer a sua história, é difícil discordar

"Yo me siento un gran afortunado. En español existe una expresión que és 'nació en cuna de oro'. En mi caso, nací en una cuna de libros." Foi assim que o editor argentino Luciano Paez Souza começou a me contar sua história, quando lhe pedi que, sem pressa alguma, apegando-se aos detalhes, falasse sobre sua jornada no mercado editorial. Não havia nascido em meio a uma enorme fortuna, em uma família de posses, em berço de ouro. Contudo, nasceu no mercado editorial e dele nunca mais saiu. Em um berço de livros.

Sua avó é natural de um país que não existe mais, a Tchecoslováquia. Falava oito idiomas. A família veio para a América Latina em 1939, quando estourou a Segunda Guerra Mundial. Primeiro, foram para o Chile, onde nasceu sua mãe. Quando começou a ditadura, foram para a Argentina. Estabeleceram-se trabalhando no mercado editorial, a avó como tradutora, a mãe como editora, revisora e diagramadora. Uma casa sustentada por mulheres e por livros.

Aos seis anos, Luciano brincava com o pagemaker, o principal software de design da época. Aprendeu a ler e escrever fazendo-se de revisor. Divertia-se com a obra Cem mil milhões de poemas, de Raymond Queneau, um livro interativo no qual é possível arranjar os versos de infinitas maneiras.

Aos 15 anos, seu primeiro emprego foi como vendedor em uma livraria. Antes dos 18, trabalhou também como revisor e assistente editorial. E, claro, quando chegou o momento de entrar na universidade, imediatamente soube que carreira cursar: Biologia! Definitivamente, um ótimo exemplo de crise adolescente.

O curso nunca foi concluído. Trabalhou na Biblos, uma editora acadêmica. Na editora argentina Interzona, engatou carreira até o cargo de editor-chefe. Em dez anos, assinou mais de 500 títulos. As edições argentinas de Wilson Bueno e Marco Lucchesi vieram graças às suas pesquisas da literatura brasileira, da qual é especialista.

Luciano e Yanina na Feira do Livro de Sharjah 2023
Luciano e Yanina na Feira do Livro de Sharjah 2023
Para escrever essa coluna, forcei-me a lembrar quando exatamente o conheci. Não consegui. Estou certo de que foi na feira do livro de Sharjah, a primeira após a pandemia, porém, quem sabe em que momento. Talvez tenha sido quando me contou que, certa vez, comeu tanto em uma churrascaria argentina que colocaram sua foto atrás da porta, alertando os garçons para proibi-lo de voltar. Ou então quando falou apaixonadamente sobre José Agrippino de Paula, escritor brasileiro que nunca li. A melhor parte do mercado editorial é quando encontramos alguém com verdadeira paixão pelos livros. Um estrangeiro que conheça literatura brasileira é um encanto!

Luciano era solteiro quando nos conhecemos. Certo dia, acessei suas redes sociais e o vi na cerimônia de casamento. De repente! Eu sequer sabia que estava namorando! Dei os parabéns e não resisti a perguntar como havia acontecido. Tão de repente! Ele me contou que estava na FED, a Feira de Editores Independentes de Buenos Aires, que é marcada pelo costume do editor vender seus próprios livros. Procurou-o a editora paraguaia Yanina Azucena, que estava interessada em conhecer o editor do livro Mar Paraguayo, de Wilson Bueno. Nesta obra, o autor trabalha o chamado portunhol selvagem, o modo como se fala na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, marcado pela mistura do português, o espanhol e o guarani. Conversaram, olhos nos olhos. Trocaram cartões. Combinaram de conversar sobre literatura latinoamericana, da distribuição de livros em seus países, de novos autores. Um contato profissional.

No dia seguinte, com o cartão de Yanina em mãos, Luciano confidenciou o conflito para seu amigo German Baquiola, editor equatoriano. Estava encantando com Yanina, estava apaixonado, queria convidá-la para um café. Porém, se as coisas dessem errado, arruinaria um bom contato profissional. Além disso, não gostava de misturar as coisas. Haviam trocado cartões pensando em relações profissionais, queria mesmo trabalhar mais com o Paraguai. Paquerar Yanina poderia arruinar tudo.

German, muito solidário, propôs uma solução simples. Ele poderia conversar com Yanina e estabelecer contatos profissionais. Luciano estaria livre para os contatos pessoais. Caso desse errado, as boas relações seguiram.

A solução pareceu arriscada, principalmente por German também ser solteiro. Assim, Luciano abandonou de uma vez as preocupações éticas e convidou Yanina para que o acompanhasse em um lançamento literário. Em um café, com os livros autografados sobre a mesa, beijaram-se pela primeira vez.

Três meses após este primeiro encontro, passeavam em uma livraria quando Luciano, pensando em voz alta, disse "Eu me casaria com você". Yanina imediatamente respondeu "Eu também me casaria com você". Assim, estava decidido. Contaram para os amigos no mesmo dia. E a data e local do matrimônio pareceu igualmente óbvia: a feira do livro de Buenos Aires, que ocorreria em março do ano seguinte. Seis meses entre se conhecerem e se casarem.

Mês passado, durante a feira do livro de Sharjah, os editores amigos se reuniram à noite em Ajman, um emirado vizinho onde o consumo de álcool é liberado. Estávamos em um bar à beira mar, trocando histórias e rindo sem pressa. Luciano e Yanina compartilharam sua história, narrando apaixonadamente como se conheceram e se casaram, seus planos de viverem entre livros. Ao terminarem, alguém suspirou e disse "uau, então essas coisas realmente acontecem...". Ao que parece, acontecem sim, mas somente na Argentina.

Leonardo Garzaro é escritor, editor e jornalista. Paulista, nascido em 1983, fundou diferentes editoras independentes e editou dezenas de livros. Seu primeiro romance, o infantojuvenil O sorriso do leão, teve os direitos vendidos para editoras de seis países, com traduções para o inglês, espanhol, turco e árabe. Alguns de seus contos foram publicados na premiada revista norte-americana Literal Latin Voices. É consultor de literatura brasileira das editoras Interzona, da Argentina; Arlequin Ediciones, do México; e Corredor Sur, do Equador. Lançou em 2022 O guardião de nomes, que foi elencado como um dos melhores romances de 2022 pelo Suplemento Literário Pernambuco.

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