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Para onde foram os leitores de CTP? - Uma análise da conjuntura brasileira
PublishNews, Henderson Fürst e Mariana Bueno*, 11/11/2020
Em artigo escrito a quatro mãos, Henderson Fürst e Mariana Bueno analisam os números do segmento do mercado editorial de CTP

Em artigo escrito a quatro mãos, Henderson Fürst e Mariana Bueno analisam os números do segmento do mercado editorial de CTP | © Alfons Morales / Unsplash
Em artigo escrito a quatro mãos, Henderson Fürst e Mariana Bueno analisam os números do segmento do mercado editorial de CTP | © Alfons Morales / Unsplash
Após a conclusão de algumas pesquisas sobre o mercado editorial brasileiro, convidei Mariana Bueno, economista e consultora da Nielsen Book, para escrevermos sobre os números do segmento do mercado editorial chamado de CTP (Científico-Técnico-Profissional).

Segundo a Série Histórica da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro¹, as editoras de livros Científicos, Técnicos e Profissionais (CTP)² registraram, em 2019, o pior resultado em mais de dez anos em que o mercado é analisado, apresentando uma queda acumulada de 41%³ em termos reais nos últimos 14 anos. Esse resultado negativo teve início em 2015 e, de lá pra cá, o subsetor registra decréscimo acumulado de 50% em termos reais.

É válido notar que essa queda ocorre após o segmento registrar crescimento substantivo no período imediatamente anterior (2006-2014), com variação positiva de 16,7%.

Naturalmente que a crise econômica que se iniciou em 2015 é um fator importante para a compreensão desse declínio e resultou num impacto negativo para todo o mercado editorial, não apenas para as editoras de CTP. Contudo, as bruscas e subsequentes quedas apresentadas pelas editoras de CTP e o resultado negativo de 2019, ano que o mercado apresentou crescimento importante e significativo, fazem com que as empresas que produzem este tipo de livro acendam o alerta: o que acontece com as vendas de livros técnicos? Costuma-se apontar alguns fatores, tal como o fim de programas governamentais de bolsas ou financiamento universitário, reduzindo o número de universitários, por exemplo. Nesse sentido, os estudantes que conseguiram se manter nas universidades, muitas vezes não conseguem comprar o livro indicado e acabam procurando outras formas de adquirir esse material, tal como pirataria, compartilhamento de conteúdo ou ainda estudo por conteúdos on-line.

Mas será que a queda das matrículas seria tão impactante assim?

É fato que os cortes do governo reduziram o número de matriculas em alguns cursos, tal como Pedagogia (que apresenta um decréscimo de 16% de 2014 para 2018) e Administração (cuja queda é de 30,5% no mesmo período). A informação está no site do Inep.

Todavia, o número total de matriculas no ensino superior não apresentou queda tão acentuada como o mercado editorial CTP, sofrendo variação negativa de 1,4% entre 2018 e 2019, quando considerado apenas as matriculas em cursos presenciais. Se considerarmos os cursos presencias e os cursos a distância, há um incremento de 8% no mesmo período – mas naturalmente que é preciso considerar que o aluno do curso a distância possui um perfil muito diferente do aluno do curso presencial, pois, segundo o Ideb, 90% desses cursos são oferecidos por universidades privadas, as mensalidades são sabidamente mais baixas e, portanto, atingem camadas mais populares e mais afetadas pela crise e pelos cortes em programas governamentais.

Mais que isso, ao observar o as variações das matriculas dos cursos de direito e medicina – dois cursos cujo os livros adotados são majoritariamente produzidos e comercializados por editoras de CTP e que não possuem graduação na modalidade EAD –, as alterações são muito tímidas em comparação com as variações registradas pelo mercado editorial CTP, como os gráficos indicam:

As matriculas no curso de direito apresentam um ligeiro crescimento de 6% entre 2014 e 2018 e as matriculas para o curso de medicina apresentam expressivo crescimento de 40,6% no mesmo período.

E aqui cabe um contraponto interessante: quando se compara esses dados com a produção de livros físicos focada nessas duas categorias, há uma inversão. De 2014 a 2019 o mercado editorial enxugou em 64% o número de exemplares produzidos de direito e medicina, segundo a pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro. A pesquisa não possui dados acerca das vendas efetivamente realizadas dessas categorias, mas é difícil imaginar que essa redução não esteja acompanhada de uma redução nas vendas desses livros, afinal não faz sentido as editoras não reduzirem expressivamente a produção de livros que permanecem com o mesmo volume de vendas, de modo que consideramos válido considerar que a redução da produção de exemplares consumidos está diretamente relacionado à queda de vendas das obras para o público deste segmento.

Assim, se não houve redução de matricula, ou seja, se o número de estudantes para ambos os cursos, fator determinante para a demanda de CTP, não sofreu alteração negativa, qual seria o motivo para essa redução na produção e nas vendas desses livros?

Outro argumento utilizado para explicar tal redução é o de que estaria ocorrendo uma migração da demanda do livro físico para o conteúdo digital produzido por essas editoras.

De acordo com a pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro, existe de fato uma migração para tais conteúdos, mas ela não é suficiente para cobrir a queda com o livro físico. Ainda que o conteúdo digital amenize a queda, não consegue resolver a queda: se, entre 2016 e 2019, a queda de faturamento com o livro físico é de -28%, quando inserido o faturamento com o digital, a queda segue existindo, com -24%.

Também percebemos isso quando consideramos números de exemplares vendidos. O subsetor de CTP apresentou uma redução de 7,5 milhões de exemplares no livro físico entre 2016-2019, e no mesmo período houve um aumento de 800 mil unidades digitais, o que comprova que, embora aconteça uma migração, há um déficit de leitura que ainda não se explica.

É fato que existem outras formas de comercialização de conteúdo digital – que, como vimos, em termos de faturamento não invertem o resultado, mantendo a queda do subsetor. Mas estaria aí a diferença restante de 6,7 milhões de exemplares entre físico e digital? As bibliotecas virtuais, as assinaturas de conteúdo digital e os cursos online cobririam essa diferença? A questão estaria na diferença do preço entre digital e físico? Ou seja, na perda de valor dessa produção?

Parece-nos que a resposta para a redução do mercado se encontra em outro fenômeno, e essa suspeita se confirmou com a publicação da 5.ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro. Dentre os dados que nos chamam a atenção, podemos citar o fato de que o percentual da população brasileira estimada como leitora caiu de 56% em 2015 para 52% em 2019. Na faixa universitária, que compreende entre 18 e 24 anos, a queda é ainda maior: de 67% para 59% - a maior variação entre as faixas etárias. A pesquisa ainda levantou os dados por escolaridade, e novamente a queda no ensino superior de leitores é a maior: de 82% para 68%. Ainda entre os leitores com escolaridade superior, o principal motivador para a leitura está em “crescimento pessoal” e “atualização cultural ou conhecimento geral”, ganhando de “aprender algo novo ou desenvolver alguma habilidade”, “atualização profissional ou exigência do trabalho” e “exigência escolar ou da faculdade”.

Isso demonstra que o hábito de leitura do leitor de CTP se modificou. Se antes era marcado pela leitura compulsória para aprender, se atualizar ou aprimorar conhecimento e práticas profissionais, hoje está mais ligado em aprender softskills. E mesmo essa forma de leitura, que não é essencial para aprendizagem formal ou atividades profissionais e, por isso mesmo, feita em tempos livres, perde na disputa com atividades como “assistir a televisão”, “usar a internet”, “escutar música ou rádio”, “usar whatsapp” e “assistir filmes”.

Outro fenômeno que a observação empírica (não formalizada em pesquisas) indica, ou seja, aquilo que notamos de nossos alunos e colegas, é a migração do consumo para outras formas de conteúdo, como aquele produzido por youtubers, blogueiros e outros, ainda que não sejam formalmente acadêmicos ou professores do que se propõem a transmitir.

Assim, o que podemos concluir é que a matrícula de universitários e a migração do conteúdo impresso para o digital podem explicar apenas parcialmente a queda dos últimos anos do segmento editorial CTP. No grande cenário, todavia, é facilmente identificável a perda de interesse no conteúdo editorial, por mais que se repute como fonte de conhecimento qualificado, preciso e confiável, substituindo-o ou por conteúdo de fácil acesso e consumo on-line, ou por nenhum outro consumo, o que explica a queda de leitores no nível superior.

Ainda não podemos determinar quais serão os reais impactos dessa redução, seja para o mercado de CTP, seja para o desenvolvimento profissional desses indivíduos. Mas dada a relevância do tema, convidamos a todos refletir sobre o assunto.


[1] A pesquisa Produção e vendas é realizada pela Nielsen Book e coordenada pelo SNEL e pela CBL. Os dados da série Histórica são deflacionados por meio da variação acumulada do IPCA.

[2] A pesquisa divide o mercado editorial em quatro subsetores: Didáticos, Obras Gerais, Religiosos e CTP (Científicos, Técnicos e Profissionais). O subsetor é determinado pela autoclassificação da editora, com base no seu faturamento. Uma editora que tenha a maior parte do seu faturamento com a venda de livros didáticos é considerada uma editora do subsetor de Didáticos.

[3] As variações apresentadas levam em consideração apenas as vendas realizadas ao mercado. As vendas ao governo não foram consideradas para essa análise, pois não são determinantes para o mercado de CTP.


Mariana Bueno - formada em economia pela PUC-SP, com MBA em Inteligência Estratégica, Competitiva e Econômica pela FIPE-USP. Consultora Nielsen Book onde é responsável pelas pesquisas “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro” e "Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro". Participou da pesquisa “How big is global publishing?” publicada pela BookMap. É colaboradora do blog da CERLALC e nos últimos anos vem se dedicando a estudar o desempenho do mercado editorial brasileiro e de outros países.

Nas horas ocupadas, Henderson Furst é editor jurídico do Grupo Editorial Nacional; nas horas livres, flautista, escritor e mestre cervejeiro. Bacharel em Direito pela UNESP, mestre e doutor em Bioética pelo CUSC, com pesquisas no Kennedy Institute of Ethics, Georgetown University, e doutor em Direito pela PUC-SP, Henderson também é professor de diversos programas de pós-graduação em Direito, tal como PUC-Campinas e Academia Brasileira de Direito Constitucional. Advogado, foi editor jurídico da Thomson Reuters/Revista dos Tribunais e da Editora Saraiva. Atua nas linhas editoriais de obras universitárias, profissionais e acadêmicas, bem como projetos especiais, educação a distância e periódicos científicos. Sua coluna analisa o mercado jurídico-editorial, suas tendências, notícias, peculiaridades, bem como a cultura artística e etílica que envolve o segmento. Voltada a bibliófilos jurídicos, profissionais do mercado editorial (jurídico ou não), autores, leitores e curiosos de plantão, será publicada quinzenalmente para que o leitor não se enjoe do colunista e tampouco se esqueça dele. Comentários, críticas e sugestões podem ser enviados para seu e-mail hendersonfurst@gmail.com ou via Facebook. A opinião do colunista não representa a de qualquer instituição científica ou profissional a qual seja vinculado.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

Tags: CTP
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