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Europa: o livro nos tempos do vírus
PublishNews, Julio Silveira, 23/04/2020
Livrarias italianas podem abrir, mas não querem; letãs querem abrir no fim de semana, mas não podem; francesas não podem vender, mas também não deixam a Amazon tomar seu espaço: como o livro europeu se vira com o vírus

No último dia 9, houve um encontro, ou melhor, uma teleconferência, que pode definir novas bases para o livro na Europa. A ideia é “aproveitar” a disruptura provocada pela pandemia para afinar a legislação e “consertar” a economia da indústria editorial, além de pleitear apoio financeiro (principalmente) e institucional. De um lado estava a Federação dos Editores Europeus e Internacionais (EIBF), do outro lado (ou, em outra tela) estava a comissária da União Europeia para Inovação, Investigação, Cultura, Educação e Juventude. A EIBF reúne editores de 28 países da Europa e oito estrangeiros e, quando fundada, em 2017, estava mais preocupada com questões de direitos autorais (e a “ameaça” digital), mas agora concentra seus esforços para defender um “ecossistema livreiro, sustentável e competitivo.”

Mas, apoios (e verbas) institucionais à parte, qual é a situação das editoras e livreiros no espaço europeu, e como elas podem ser “sustentáveis” (ou minimamente viáveis) em tempos de vírus?

Ler Devagar, agora vazia, é uma livraria que se tornou símbolo de Portugal | © Redes sociais da livraria
Ler Devagar, agora vazia, é uma livraria que se tornou símbolo de Portugal | © Redes sociais da livraria
Em Portugal, os números da terceira semana de “Estado de emergência” (com as livrarias fechadas) vieram um pouco menos catastróficos. Depois de uma semana em que as vendas caíram a 30% do mesmo período de 2019, na semana seguinte o número subiu para 36%. Não é muito, mas indica talvez que já se passou o “pico da curva” do prejuízo. Serve de algum consolo que a venda nos supermercados (que correspondem a 40% do mercado local) caíram apenas 18%, contra os 78% das livrarias. A pesquisa da GFK, divulgada pela Associação Portuguesa de Editores de Livros (Apel), não tem números para o mercado digital, que ainda era incipiente mas está em franco crescimento, com as próprias editoras perdendo o pudor e divulgando a venda direta em seus sites.

Na França, uma sondagem do Livres Hebdo prevê quebra de 27% no faturamento em 2020, após as livrarias registrarem que venderam apenas metade no mês de março, em relação ao ano anterior. A pesquisa também calcula em 30% a perda de receita total das editoras. Lembrando que a França ainda está sob estado de emergência com sérias restrições ao comércio. Os números um pouco mais brandos talvez reflitam a proibição da Amazon de vender livros durante a pandemia. Um tribunal francês obrigou a gigante varejista a se limitar a vender “produtos essenciais” (uma lista que não inclui livros), em respeito à saúde de seus trabalhadores locais.

Após um mês fechadas, as livrarias na Alemanha poderão abrir a partir do dia 20. A Börsenverein, associação do livro alemã, estima que este mês de portas fechadas custou à economia do livro teutão meio bilhão de euros.

Já na Itália, já foi permitida reabertura das livrarias mas… elas não querem abrir, aparentemente. A Librai Editori Distribuzione in Rete, uma plataforma digital de 247 livrarias, afirmou que seus associados se manterão com as portas fechadas até tempos mais seguros. “Como livreiros, estamos felizes com a atenção repentina dada a nosso trabalho… mas não temos intenção nenhuma de nos expor somente para fingir uma recuperação cultural das almas, que só será obtido quando a segurança de todos for assegurada.”

Na Letônia, as livrarias foram reabertas, mas só nos dias de semana, e alguns varejistas falam em perdas de 45% do faturamento.

Na Holanda (ou, como querem agora, nos Países Baixos), as livrarias nunca ficaram muito tempo fechadas, mas as que ficavam no aeroporto e estações de trem, e que respondiam por parte significativa das vendas, acabaram fechando por falta de público, dada a proibição de viajar. Por sinal, os editores estão preocupados com a possível proibição de viagem nas férias de verão (que sempre puxa as vendas) e se perguntam se os holandeses que forem forçados que passar as férias em casa terão disposição para ler.

Na Espanha, a grande expectativa era em torno deste dia 23 de abril, quando se comemora o dia de São Jorge (Saint Jordi) na Catalunha e, as ruas e ramblas de Barcelona se enchem de barraquinhas de flores (que os homens compram para oferecer às mulheres) e… de livros (que as mulheres oferecem aos homens). O dia 23 de abril, por sinal, é o Dia Internacional do Livro, e a data sempre foi considerada a “partida” para os grandes lançamentos (e festas) editoriais. Porém, uma vez o vírus foi especialmente cruel com a Espanha, dessa vez nem São Jorge deu um jeito, e a festa foi mesmo adiada para dia 23 de julho.

Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, que investiga a publicação digital e transmídia. Dirige o projeto “NossaLíngua.Doc” que documenta e estimula as conversas mundiais em português, em mídia social, livros e filme. É promotor de festivais de literatura e atual curador do LER, Salão Carioca do Livro.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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