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Uma biblioteca no Museu Nacional
PublishNews, Felipe Lindoso, 02/09/2019
Em sua coluna, Felipe Lindoso chama atenção para a importância do acervo bibliográfico e documental das bibliotecas do Museu Nacional, que foram destruídas no incêndio do ano passado

Nesta segunda-feira, dia 2 de setembro, completa um ano do incêndio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. Já muito se comentou sobre a perda de coleções, incluindo aí os frágeis artefatos de arte plumária. E o esforço para recuperação do que sobreviveu às chamas está sendo feito com muito rigor e dedicação pela equipe do Museu e funcionários da empresa encarregada de limpar o sítio e criar as condições para o restauro do prédio.

Pouco se tem dito, porém, de outro tipo de perda fundamental: a das bibliotecas instaladas no Museu Nacional. A Biblioteca Histórica e o Centro de Línguas Indígenas foram destruídas. E destaco a perda da Biblioteca Francisca Keller, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), e do material de pesquisa acumulado nas salas dos professores. Ressalto, particularmente, os espaços ocupados pelo NuAP – Núcleo de Antropologia Política.

Fui aluno do PPGAS no final da década de 70 e começo dos anos 80. Lá fiz meu mestrado, orientado por Afrânio Garcia, e participei de várias atividades do que então era informalmente uma espécie de núcleo de estudos de economia camponesa, coordenado pelo Moacir Palmeira, com a participação da Lygia Sigaud e dos já doutores e professores do PPGAS – Afrânio Garcia, José Sérgio Leite Lopes, Beatriz Herédia, Rosilene Alvim e outros mestres em Antropologia Social que já desenvolviam atividades profissionais fora do MN. Outros grupos também desenvolviam linhas de pesquisa em várias áreas. Otávio Velho também estudava sociedades camponesas; João Pacheco, sociedades indígenas. Roberto da Matta, Luiz de Castro Farias e muitos outros integraram o grupo discente do PPGAS e fiz cursos com vários deles.

Na época, os cursos do PPGAS se estruturavam principalmente como seminários temáticos, com uma severa carga de leitura e participação nas discussões. As leituras eram muito variadas, desde os clássicos da Antropologia Social até pesquisas recém terminadas, além de textos ainda não publicados de professores e colegas antropólogos.

Esse regime de estudos impunha o uso extensivo e intensivo da Biblioteca do PPGAS, naqueles anos ainda relativamente modesta (e, ouso dizer, com muitas cópias reprográficas de textos inacessíveis), mas muito significativa na área. Foi crescendo, e antes do incêndio já contava com mais de 37 mil itens. Os cursos realmente exigiam uma carga intensa de leituras. Embora não houvesse uma cobrança explícita, coitado de quem era alvo de um dos olhares da Lygia Sigaud, por exemplo, quando percebia que alguém não havia lido – e refletido a respeito – do texto em discussão.

A vida nos levou – a mim e à Maria José Silveira, que fez o Mestrado em Ciências Políticas na USP e vários cursos no PPGAS – para outros caminhos. Mas a ligação com o Museu Nacional, por tão profunda, marcou a ambos. Quando vou ao Rio de Janeiro, procuro meios de encontrar antigos colegas e professores. Fui até membro de uma banca de mestrado, convidado pelo Moacir Palmeira, na discussão da dissertação de uma aluna peruana que trabalhou sobre o movimento sindical camponês daquele país. Quando exilados – por conta da ditadura que, segundo o sujeito que está lá no Planalto, nunca existiu - havíamos feito a graduação em Antropologia Social na Universidad Nacional Mayor de San Marcos. Fizemos um estudo em comunidades andina e fomos coautores, com o prof. Rodrigo Montoya, do livro com a pesquisa em uma dessas comunidades.

O espaço do NuAP, em um rincão do terceiro andar, era cheio de arquivos com materiais de pesquisa – cadernos de campo, fotografias, gravações, textos em andamento – tudo, enfim, que resultava de um trabalho cientifico, coletivo e individual, do mais alto nível, com diversas publicações, livros, coletâneas e artigos nas revistas especializadas.

Confesso que, quando aluno, ao passar pelas salas de exibição e às vezes vagar pelo Museu Nacional, sempre ficava receoso ao constatar a precariedade das instalações, principalmente em relação a incêndios. Os alunos sabiam das demandas constantes, de todas as áreas do Museu, por recursos para reforma e manutenção das instalações, assim como do teto e de outros aspectos da edificação, visivelmente deterioradas. Com as janelas fechadas quando não era horário de visita – às vezes tinha uma impressão fantasmagórica, ao passar pelas múmias, pelo esqueleto do dinossauro e outras salas de exposição.

Além da Biblioteca do PPGAS, a Biblioteca principal do MN era um monumento. A enorme coleção de materiais bibliográficos, que incluía relatórios de viagem de naturalistas e outros cientistas que vieram ao Brasil, principalmente na segunda metade do Século XIX, fotografias e documentos cruciais para o estudo do Brasil, estava lá. Com o passar dos anos e o crescimento da coleção, o piso do terceiro andar ameaçava colapsar e, felizmente, uma boa parte da Biblioteca do MN foi transferida para o prédio anexo no Horto. Mas o Arquivo Histórico e o material de estudos de línguas indígenas (CELIN) permaneceram no prédio principal.

Há alguns anos, quando nossa biblioteca particular exigia uma seleção de descarte (brinco sempre que, para quem trabalha na área editorial, livros se reproduzem em ninhadas...), o natural foi selecionar as obras de Antropologia e Ciências Sociais, fazer uma lista e perguntar para a Biblioteca do PPGAS o que lhes interessava. Quase tudo, menos os livros mais comuns, editados no Brasil, dos quais havia várias cópias no acervo. E mandaram uma Kombi que levou várias caixas de livros para o Rio de Janeiro.

Dito seja que sou contra políticas de acervo de bibliotecas que dependem de doações. Já vi muito lixo retirado de casas e deixado na porta de bibliotecárias, onde bibliotecários não dispõem nem de luvas e máscaras para manusear e separar o lixo do que ainda pode ser aproveitado. Nossos livros, entretanto, eram – e são – muito bem cuidados, e as eventuais doações geralmente são antecedidas pelo envio de lista, de modo que os responsáveis possam escolher o que desejam. O mesmo já fizemos aqui em S. Paulo algumas vezes com o Sistema Municipal de Bibliotecas Públicas.

A perda desse acervo bibliográfico e documental das bibliotecas do MN não tem sido muito comentada. Alguns podem pensar que, diante da tragédia do incêndio dos artefatos e do prédio, essa seria uma parte secundária.

Só que não é.

As bibliotecas, particularmente as acadêmicas, são vivas. Os livros e documentos são constantemente revisitados, reestudados e reelaborados. Os documentos de campo do Malinowski, um dos pioneiros da Antropologia Cultural, por exemplo, já foram reexaminados tanto para verificação da acuidade dos registros como para rediscussão de métodos de pesquisa e registro, assim como os de muitos outros antropólogos. É também assim que a ciência progride

No caso da Biblioteca do PPGAS, a incorporação do acervo do prof. Luis de Castro Farias foi uma perda enorme. Castro Farias acompanhou a expedição do Lévi-Strauss no Brasil Central, além de outras empreendidas por sertanistas e antropólogos, e todo o material havia sido doado à biblioteca.

E nem falemos da extensa documentação de viajantes, naturalistas, que faziam parte do Arquivo Histórico.

Logo depois do incêndio ainda pensei que pelo menos parte da documentação de pesquisa do NuAP, guardada em arquivos de aço, pudesse ter sido salva. Essa ilusão foi dissipada em conversa com o prof. Moacir Palmeira. O teto daquele segmento do terceiro andar havia sido parcialmente reformado, com laje (a continuação desse trabalho, aliás, foi interditada pelo IPHAN), mas o piso cedeu no incêndio e tudo aquilo desabou por dois andares, além de ter sido incendiada, possivelmente pelo calor, se não diretamente pelas chamas. Moacir tinha manuscritos e anotações não digitalizadas que estavam em sua mesa para servir em uma reunião de trabalho que aconteceria na terça-feira. Domingo, 2 de setembro de 2018, a tragédia bateu.

Quero destacar também, para os estudiosos e interessados em Antropologia, que o PPGAS edita, desde 2002, uma importante revista com trabalhos de alunos, ex-alunos e pesquisadores, a MANA com conceito 1A do Qualis Capes e indexação no ISI Web of Science. Não é para qualquer um. Aliás, o PPGAS, desde seu o início, recebe a nota máxima na avaliação que a CAPES faz dos programas de pós-graduação.

Dulce Paes de Carvalho, a biblioteca-chefe da BFK, explica que a meta é recompor e ampliar o acervo até alcançar 40.000 exemplares. Já foram recebidos aproximadamente 10.500 livros, com mais 8.000 exemplares a caminho. De todo o mundo. De outras bibliotecas científicas, que enviam duplicatas, editoras acadêmicas e instituições variadas.

Nós mesmo, outra vez, ao mudar de casa, selecionamos tudo o que não tinha um valor emocional ou pessoal, encaixotamos e mandamos para a recuperação do acervo da Biblioteca Francisca Keller, do PPGAS.

É pouquíssimo, comparado com a perda e até mesmo com a quantidade que havíamos enviado antes, mas é a contribuição mínima que pudemos fazer.

A Biblioteca Francisca Keller foi reinstalada no prédio do Horto para onde já havia sido transferida parte da Biblioteca do Museu Nacional. As instalações ainda são provisórias e a equipe se dedica hoje a receber e processar as doações recebidas, além de atender, na medida do possível, às demandas de professores e alunos do PPGAS, altamente prejudicadas, como se pode imaginar. A Biblioteca Francisca Keller estava digitalizando teses e trabalhos anteriores a 2006, ano em que passou a receber esse material em PDF e que estão a salvo, digitalizados. Os anteriores, entretanto, foram em grande parte perdidos no incêndio. A BFK está fazendo um chamamento a fim de recuperar esses trabalhos, anteriores a 2006, com a ajuda de todos os pesquisadores que já passaram pelo Programa, solicitando que enviem os arquivos que não aparecem em texto completo na Base Minerva (banco de dados do sistema de bibliotecas da UFRJ).

O PPGAS tem uma página no Facebook, noticiando as várias campanhas para o reerguimento da Biblioteca.

O antigo site da Biblioteca Francisca Keller, acessível aqui ainda dá informações sobre as antigas instalações e o acervo da biblioteca.

O novo projeto arquitetônico já foi elaborado por professores e alunos da FAU/UFRJ, que pode ser visto clicando aqui.

O mais importante, entretanto, é que todos podemos ajudar. A Biblioteca Francisca Keller tem aberta uma campanha na Benfeitoria, com meta de arrecadar R$ 129.000,00 para compra de móveis, computadores e outros equipamentos. Já recolheu R$ 105.990,00 até hoje, e as doações podem ser feitas a partir de R$ 20,00. Mas, apressem-se, pois a campanha será encerrada no dia 12 de setembro próximo. Contribua aqui.

O Museu Nacional é um centro de resistência, democracia e ciência. Não pode e não vai morrer.

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blog www.oxisdoproblema.com.br. Em sua coluna, Lindoso traz reflexões sobre as peculiaridades e dificuldades da vida editorial nesse nosso país de dimensões continentais, sem bibliotecas e com uma rede de livrarias muito precária. Sob uma visão sociológica, ele analisa, entre outras coisas, as razões que impedem belos e substanciosos livros de chegarem às mãos dos leitores brasileiros na quantidade e preço que merecem.

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