Publicidade
Publicidade
Solstício de inverno (e da crise)
PublishNews, Carlo Carrenho, 21/12/2018
Vinte e um de dezembro é o dia mais curto do ano no hemisfério norte. A partir de agora, os dias serão cada vez mais longos. O mesmo vai acontecer com o mercado editorial brasileiro em 2019

Rua de Estocolmo após nevasca em dezembro. © Lima Andruška
Rua de Estocolmo após nevasca em dezembro. © Lima Andruška

Como muitos já sabem, eu me mudei para a Suécia no início de 2018. A decisão foi tomada no fim de 2017, vistos foram obtidos, abrimos mão de tudo no melhor estilo “Família Vende Tudo” e chegamos de mala e cuia (no caso, 16 malas e nenhuma cuia) no aeroporto de Arlanda, em Estocolmo.

O ano de 2018, portanto, foi muito desafiador em termos de aprendizado e adaptação no novo país. Apesar de a Suécia ser a sociedade que melhor trata imigrantes no mundo, de já termos morado antes no país, de estarmos absolutamente legais e de termos uma rede de amigos ali, nem sempre as coisas são fáceis como parece no meu timeline do Facebook. Imigrar é foda. E um dia ainda conto as aventuras de tirar carteira de motorista derrapando o carro no gelo ou de comprar um julgransfot (veja no Google) para o Natal.

A esmagadora maioria dos suecos, obcecados com o clima, não entendem o que fizemos. “Mas por que vocês deixaram o sol e o calor do Rio para morar neste país frio?”, perguntam. A resposta curta é sempre a mesma: “Valores”. Ou värderingar na língua dos vikings. Mas se nossa decisão tem todo o sentido – considerando os valores sociais democratas suecos e o caminho escolhido democraticamente pela sociedade brasileira nas últimas eleições –, a pergunta dos escandinavos não fica atrás, afinal o clima na Suécia não é para qualquer um. E, não, não estou falando do frio. Para o frio há roupa e calefação. O problemas são os dias curtos no outono e inverno.

Hoje, aliás, é o solstício de inverno no hemisfério norte, ou o dia mais curto do ano em 2018. Em termos práticos, o sol nasce hoje em Estocolmo às 8:43 e se põe às 14:48. Entre estes dois horários, a luz é nublada, discreta e indireta. Apesar de tudo isso, hoje é um dia em que fico feliz. Por quê? Porque a partir de agora os dias são cada vez mais longos. Eu simplesmente odeio o outono escandinavo e ver os dias definhando – não tem paisagem verde-amarela e folhinhas caindo que compense isto. Cada dia menor que o anterior. Mas tem data para acabar, e em 2018 é exatamente hoje. Vinte e um de dezembro é o nadir (adoro esta palavra) das horas de luz – ou o fundo do poço em linguagem menos requintada. Amanhã já melhora; daqui a pouco é primavera e logo depois chega o verão com sol até quase meia-noite.

Mas isso tem algo a ver com o mercado editorial no Brasil? Muito; e a verdade é que estes ciclos da natureza têm muito a nos ensinar. Estamos, sim, na maior crise da história de nosso mercado de livros. Mas o solstício de inverno me lembra que tudo acaba um dia. Que há um nadir, há um fundo do poço. E 2019 será o ano deste fundo do poço editorial. As consequências da quebra da Saraiva e Cultura na comercialização de livros e nos fluxos de caixas vão estar presentes ainda por vários meses. Não será nada fácil. Editoras, gráficas e outras empresas vão ter um início de ano bem difícil. Vai chover, nevar, as árvores vão perder suas folhas. Algumas empresas não resistirão, outras serão absorvidas. Os dias serão cada vez mais curtos. O espaço do livro vai diminuir. O sol não vai dar as caras. Mas depois disto tudo, chega-se a um limite, chega-se ao solstício da crise.

O ano que vem, portanto, tem que ser visto não como um ano de crise, mas como o ano do fim da crise. Espero que o dia exato deste solstício venha logo, quem sabe no primeiro semestre. Mas, cedo ou tarde, ele vai vir. E acho que a postura mais saudável é encarar 2019 desta forma, lembrando do que virá depois. Teremos claro que lutar. Vamos ter que colocar luvas, gorro, casacos, tirar muita neve das ruas e do quintal, jogar sal e queimar lenha. Mas não podemos esquecer que a crise vai passar e que a primavera vai chegar, por mais que isto pareça improvável em alguns momentos.

Concluindo, há duas maneiras de encarar o solstício de inverno deste dia 21 de dezembro. A primeira é lamentar, de forma pessimista, que será o dia mais curto do ano. A segunda é comemorar, de forma otimista, que a partir de hoje cada dia será melhor.

E você, como vai encarar o solstício da crise do mercado editorial em 2019?

Carlo Carrenho, editor colaborador do Publishing Perspectives, é consultor editorial brasileiro radicado na Suécia e membro da consultoria Alpine Global Collective.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

Publicidade
Leia também
Tecnologia de inteligência artificial avança tão rápido que levanta uma questão desconfortável: o que será se o próximo formato a desaparecer não seja apenas a forma de entrega, mas o audiolivro gravado em si?
Biblioteca Árabe Digital pode marcar um ponto de virada para os livros digitais no mundo árabe
Carlo Carrenho traz dados e análises sobre os mais recentes dados do mercado editorial sueco
Carlo Carrenho compartilha sua apresentação, análises e dados sobre o mercado de audiolivros na região nórdica, apresentado no Parix Audio Day 2025 em Madri
Teriam as duas plataformas de assinatura de conteúdos em áudio dado o primeiro passo para um relacionamento mais estável?
Publicidade

Mais de 13 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Desta forma, elas estão sempre atualizadas com as últimas notícias do mercado editorial. Disparamos o informativo sempre antes do meio-dia e, graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades. E o melhor: É gratuito! Não perca tempo, clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews.

Outras colunas
Nessa semana, espaço publieditorial traz quatro livros da Ases da Literatura e um da Literare Books
Escritora, roteirista e pesquisadora das artes da cena, Nayara Farias nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, e encontrou na escrita um espaço de expressão e criação
Ao longo do livro, a autora aborda situações comuns do cotidiano e propõe novas formas de olhar para os desafios
Livro convida crianças e adultos a refletirem sobre a importância de escutar as emoções, especialmente aquelas que costumam ser silenciadas
Livro explora todas as possibilidades de comunicação com as mãos
A escrita sendo mais mentirosa é mais verdadeira.
Mia Couto
Escritor moçambicano

Você está buscando um emprego no mercado editorial? O PublishNews oferece um banco de vagas abertas em diversas empresas da cadeia do livro. E se você quiser anunciar uma vaga em sua empresa, entre em contato.

Procurar

Precisando de um capista, de um diagramador ou de uma gráfica? Ou de um conversor de e-books? Seja o que for, você poderá encontrar no nosso Guia de Fornecedores. E para anunciar sua empresa, entre em contato.

Procurar

O PublishNews nasceu como uma newsletter. E esta continua sendo nossa principal ferramenta de comunicação. Quer receber diariamente todas as notícias do mundo do livro resumidas em um parágrafo?

Assinar