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A primeira Gotemburgo a gente nunca esquece
PublishNews, Carlo Carrenho, 27/09/2018
Carlo Carrenho estreia no maior evento do livro da Escandinávia e relata o que sentiu

Pavilhão da Feira de Gotemburgo | © Niklas Maupoix / Divulgação
Pavilhão da Feira de Gotemburgo | © Niklas Maupoix / Divulgação

Depois de ter perdido a conta de quantas Feiras de Frankfurt eu já fui e de ter visitado eventos da indústria editorial em lugares tão inusitados quanto Pequim, Sharjah ou Tessalônica, eu não esperava voltar a sentir aquele frio na barriga que novatos sentem ao estrear em alguma feira mundo afora. Mas hoje eu senti.

Hoje é o primeiro dia da minha primeira vez na Feira de Gotemburgo, na Suécia. Embora eu tenha um enorme carinho por este país nórdico, a proximidade com a Feira de Frankfurt nunca permitiu que eu visitasse o evento gotemburguês. Mas agora, morando na Suécia, bastou pegar uma “ponte aérea” de Estocolmo para chegar em 55 minutos na segunda maior cidade sueca. E é justamente porque decidi morar na Suécia, sem data para voltar, que eu estou com este frio na barriga. Afinal, a Feira de Gotemburgo passa ser o grande evento do livro perto de casa – ela agora é a minha feira, mais do que as bienais brasileiras. E a primeira vez na grande feira de livros do país onde moramos a gente nunca esquece.

A Feira de Gotemburgo começou em 1985, quando apenas cinco mil pessoas visitaram o evento. Trata-se de um evento aberto ao público, mas com o primeiro dia e a manhã do segundo dia dedicados a profissionais do livro. Na edição deste ano, os números impressionam. São mais de 800 expositores em mais de 11 mil m² e um extenso programa de eventos profissionais e culturais que ultrapassa 3.500 atividades. O desafio este ano para os organizadores é o número de visitantes. Enquanto em 2015 e 2016 cerca de 95 mil pessoas passaram pelos corredores da feira, este número caiu para pouco mais de 77 mil em 2017.

A razão para a queda do público no evento gotemburguês está diretamente relacionada à controvérsia que aconteceu com neonazistas e a extrema direita no ano passado. Dentro do espírito de absoluta liberdade de expressão que rege a sociedade sueca, editoras de extrema direita puderam participar da Feira de Gotemburgo em 2016 e 2017, e a revista Nya Tider, que tem tal orientação, esteve presente. Isto na época causou protestos e editoras como a ETC e Leopard boicotaram o evento. Mas o maior problema no ano passado foi uma manifestação do grupo neonazista Movimento de Resistência Nórdica bem no sábado em que evento livreiro ocorria. Quando a manifestação – aprovada pela polícia – se aproximou da área da feira, muitos manifestantes tentaram furar o bloqueio e sair da área e rotas previamente designadas. O resultado foi prisão de 60 manifestantes, entre nazistas e opositores, e duas pessoas feridas. Nada para os padrões brasileiros, mas bem grave para o padrão escandinavo. Estima-se que um terço do público deixou de comparecer naquele sábado.

Todo este quiproquó gerou mais pressão dos editores contra as editoras de caráter fascista. Houve uma troca da direção da feira e, sob a nova direção de Froda Edman, o evento optou por vetar a participação de editoras de extrema direita. Com isso, editoras como a Leopard voltaram a participar.

A ilustradora Graça Lima também esteve em Gotemburgo para receber receber a Estrela de Prata do prêmio Peter Pan pelo livro 'A boca da noite', no Brasil publicado pela Zit | © Carlo Carrenho
A ilustradora Graça Lima também esteve em Gotemburgo para receber receber a Estrela de Prata do prêmio Peter Pan pelo livro 'A boca da noite', no Brasil publicado pela Zit | © Carlo Carrenho
As editoras vetadas resolveram então organizar uma feira paralela, mas a cidade de Gotemburgo vetou o evento na última terça-feira (25), por motivos de segurança. E não é à toa que o tema da Feira deste ano seja “Respeito, imagens e questões da mídia”.

Entre os autores convidados, destacam-se a ganhadora do Prêmio ALMA, Jacqueline Woodson, e a best-seller Jojo Moyes. Entre os brasileiros, destaque para Daniel Galera, que participa nesta sexta-feira (28), de um bate-papo sobre o papel masculino e sua conexão com a violência junto com o escritor irlandês Colm Tóibín. Outro destaque é a presença da ilustradora Graça Lima (na foto ao lado). Ela vem receber a Estrela de Prata do prêmio Peter Pan pelo livro A boca da noite (escrito por Cristino Wapichana e publicado no Brasil pela Zit). A láurea é concedida pelo IBBY (International Board on Books for Young People) da Suécia. A obra foi traduzida por Helena Vermcrantz e lançada em sueco pela editora Hjulet.

Daqui a pouco o frio da barriga passa. A não ser que os neonazistas resolvam dar o ar da graça. O que de graça não teria nada.

Carlo Carrenho é o fundador e CEO do PublishNews. Formado em Economia pela FEA-USP, especializou-se em Edição de Livros e Revistas no Radcliffe Publishing Course, em Cambridge (EUA). Atualmente é advisor da Bookwire, Meta Brasil e da BR75. Como especialista no mercado de livros, já foi convidado para dar palestras e participar de mesas em países como EUA, Alemanha, China, África do Sul, Inglaterra e Emirados Árabes, entre outros.

É co-coordenador do curso MBA Book Publishing, da Casa Educação em São Paulo, depois de coordenar por diversos anos o curso de pós-graduação da FGV-RJ sobre o negócio do livro. Sempre atento aos novos modelos de negócio e às mudanças tecnológicas, Carlo possui um de seus focos na questão dos livros digitais e segue com afinco o que acontece no setor digital no Brasil, tanto que é autor do capítulo brasileiro do livro Global eBook: a report on market trends and developments.

Carlo é paulista, mas vive no Rio de Janeiro. É cristão, mas estudou em escola judaica. É brasileiro, mas ama a Suécia. Enfim, sua vida tende à contradição. Talvez por isso ele torça para o Flamengo e adore o seriado Blue Bloods.

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