Publicidade
Publicidade
Mercado editorial e a sutil arte de ligar o foda-se
PublishNews, Julio Silveira, 10/08/2018
Em sua coluna, Julio Silveira faz sua análise da atual crise do mercado editorial e conclui: 'Se é forte a crise, mais forte é o livro'

O livro no Brasil vai mal mas isso não é notícia (afinal, o que é que não vai mal no Brasil?) e tampouco é novidade (raras vezes não estivemos em crise). A gente vai levando enquanto pode (quem pode) e vai mantendo a fé ou a pose. Só que agora está dando na vista. Espaços vazios nos shoppings onde havia livrarias e livrarias que se mantêm abertas, mas vazias de fregueses são a face escancarada da crise editorial que já é comentada nas redes, nas esquinas e na tevê.

Dois dos construtores do livro moderno no Brasil, Luiz Schwarcz e Marcos Pereira, conversaram com Pedro Bial sobre a (falta de) perspectiva e sobre a crise que, segundo o fundador da Companhia das Letras, é talvez a mais forte das suas quatro décadas de atuação. Diante da ameaça de fechamento das duas maiores compradoras de livros que, junto com o governo, eram o esteio do mercado, os editores procuraram soluções para salvar as livrarias, incluindo a remarcação do preço dos livros… para cima. Argumentaram que o preço de capa não acompanhou a inflação e que livros mais caros garantiriam margens mais robustas para as livrarias cobrirem seus custos. Faltou explicar como, a arrepio dos fundamentos da economia, um aumento de preço poderia levar a um aumento da demanda, mas a equação do mercado editorial não costuma levar em conta a variável “leitor”. Já o apelo ao governo é invariável.

Uma comitiva de editores, representados pelos presidentes da CBL e do SNEL esteve com o presidente Temer para “pedir apoio na busca de soluções para a contenção dos problemas financeiros enfrentados pela indústria editorial brasileira” e saiu com promessas de linhas de crédito e financiamento para dar sobrevida ao varejo. Por sinal, antes do encontro, esse governo, no apagar das luzes (em todos os sentidos), mostrou-se mais preocupado com soluções para a segurança, propondo desviar verbas da cultura (voltou atrás) ou do Sesc, que muitas vezes faz o que o Ministério da Cultura não pode ou não tem dinheiro para fazer. A alegação é que falta dinheiro para a segurança, concretizando a profecia de Darcy Ribeiro: “se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”.

Enquanto editores procuram manter vivo o varejo (e a agonia do mercado) e esperam o livro volte a funcionar por decreto, o leitor dá seu jeito de contornar a situação e as livrarias. Se elas eram o “lugar de mercado”, hoje importa mais o marketplace. As editoras estão vendendo mais por canais que sequer veem os livros passarem por suas prateleiras. Um atestado disso é que na Bienal do Livro de 2018, onde não se vê estande da Saraiva, ergue-se imponente um do Mercado Livre, uma das maiores “intermediadoras” entre os leitores e as editoras. Esta relação, porém, está ficando ainda mais direta e íntima: seguindo a picada aberta pelos clubes de livros por assinatura, as editoras estão reforçando a venda direta e até arregimentando leitores em grupos como o  “Intrínsecos”, criado justamente por uma das editoras que mais contava com as redes de livraria para seu sucesso.

Se é forte a crise, mais forte é o livro: esse vigor se vê nas redes, nos festivais literários, nos novos formatos, nos leitores e escritores. Também se vê por aí gente nas editoras e livrarias inventando soluções, se virando. Talvez seja isso do que precisamos para virar essa página: deixar para lá uma equação que já não dava resultado e tentar outras, para, quem sabe, reescrever esse negócio do livro.

Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, que investiga a publicação digital e transmídia. Dirige o projeto “NossaLíngua.Doc” que documenta e estimula as conversas mundiais em português, em mídia social, livros e filme. É  promotor de festivais de literatura e atual curador do LER, Salão Carioca do Livro.

Publicidade

BR75

A BR75 desenvolve soluções personalizadas de criação e edição de texto, design gráfico para publicações impressas e em outras mídias e coordena sua produção editorial. Cuidamos de todas as etapas, conforme as necessidades e características de seu projeto, e sua empresa ganha em eficiência e qualidade. Quer saber mais? Fale com a gente ou agende uma visita!

Leia também
Como editores e profissionais da ideia podem prosperar em tempos em que a informação parece não valer nada?
Julio Silveira faz balanço da Flip, elogia a curadoria de Josélia Aguiar e dá força para a criação da 'federação de festivais', ideia proposta durante mesa na Casa PublishNews
Nosso colunista Julio Silveira esteve no Festival de Literatura-Mundo na ilha do Sal, em Cabo Verde. De volta ao Brasil, ele conta o que viu por lá.
Em sua coluna, Julio Silveira fala do caso Cosac e conclui: 'se não mudarmos, bibliocídios como a da Cosac vão se repetir, e se intensificar. E os livros no Brasil continuarão não valendo nada.
O livro vai mal, e vai ficar igual se a gente não pensar diferente
Publicidade

Mais de 13 mil pessoas recebem todos os dias a newsletter do PublishNews em suas caixas postais. Desta forma, elas estão sempre atualizadas com as últimas notícias do mercado editorial. Disparamos o informativo sempre antes do meio-dia e, graças ao nosso trabalho de edição e curadoria, você não precisa mais do que 10 minutos para ficar por dentro das novidades. E o melhor: É gratuito! Não perca tempo, clique aqui e assine agora mesmo a newsletter do PublishNews.

Outras colunas
Toda semana você confere uma nova tira dos passarinhos Hector e Afonso
Toda semana você confere uma nova tira dos passarinhos Hector e Afonso
Em sua coluna, Paulo Tedesco fala sobre a importância de se investir na educação e, claro, nos livros
Toda semana você confere uma nova tira dos passarinhos Hector e Afonso
Em sua coluna, Henrique Rodrigues avalia os limites das relações profissionais e humanas no turbilhão da vida editorial brasileira
Minha experiência é que quando falo para crianças ou jovens, são eles que ganham. Mas quando falo para adultos quem ganha sou eu, porque, finda a palestra, o público me traz um precioso feedback sobre o meu trabalho.
Marina Colasanti
Escritora brasileira
Publicidade
Publicidade

Você está buscando um emprego no mercado editorial? O PublishNews oferece um banco de vagas abertas em diversas empresas da cadeia do livro. E se você quiser anunciar uma vaga em sua empresa, entre em contato.

Procurar

Precisando de um capista, de um diagramador ou de uma gráfica? Ou de um conversor de e-books? Seja o que for, você poderá encontrar no nosso Guia de Fornecedores. E para anunciar sua empresa, entre em contato.

Procurar

O PublishNews nasceu como uma newsletter. E esta continua sendo nossa principal ferramenta de comunicação. Quer receber diariamente todas as notícias do mundo do livro resumidas em um parágrafo?

Assinar