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Sete microanálises da pesquisa da Fipe
PublishNews, Carlo Carrenho, 01/06/2016
Os sete aspectos mais importantes revelados pelos dados da pesquisa da Fipe são analisados e e destacados pelo fundador do PublishNews

Já faz algum tempo que eu desejava escrever uma coluna no PublishNews, mas a procrastinação sempre levava a melhor. Agora, a divulgação da pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro (PVSEB), nesta quarta-feira (1º), foi o empurrão que faltava.

Realizada pela Fipe, sob encomenda da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), a PVSEB acontece desde 1990, oferecendo uma série histórica de 25 anos. Esta, alias, é a maior virtude da pesquisa: permitir acompanhar o histórico da performance do mercado do livro no Brasil.

Abaixo, sete análises breves que considero fundamentais sobre os dados da PVSEB:

1 – A queda real histórica

Fonte: Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro
Fonte: Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro

A pesquisa aponta uma queda nominal de 3,27% no faturamento dos editores brasileiros. No entanto, a inflação de 2015 foi bastante alta e, se aplicarmos o IPCA de 10,67% a este número, teremos uma queda real de 12,60%. É histórica, pois a última vez que o faturamento dos editores de livros decresceu nestes níveis foi em 2002, quando houve uma queda real de 14,51% impulsionada por uma inflação de 12,53% de acordo com o IPCA daquele ano. Basicamente, em tanto em 2002 quanto em 2015, o mercado não apenas não acompanhou a inflação como teve quedas nominais relevantes de vendas.

2 – Obras Gerais têm a pior performance do século

Fonte: Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro
Fonte: Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro

A situação do segmento de Obras Gerais, também chamado de Interesse Geral, é ainda pior na PVSEB. Ou seja, os editores que produzem literatura em geral, seja ela de entretenimento ou de alta qualidade, de ficção ou não ficção, foram os que mais sofreram. O faturamento deste segmento caiu nominalmente 10,25%. Se acrescermos o IPCA de 2015 chegamos a uma queda de 18,90%! Trata-se da maior queda do faturamento real neste século – ou desde 1999, quando a queda real do subsetor foi – pasmem! – 33%! Uma vez que este é o setor que mais movimenta as livrarias e a cadeia tradicional do livro, trata-se de uma situação preocupante. Vale observar que a principal causa da péssima performance do subsetor foi a queda radical das compras governamentais, que ultrapassou 60%!

3 – O governo comprou mais, mas comprou menos

Fonte: Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro
Fonte: Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro

A participação do governo no faturamento dos editores em 2015 foi da ordem de 23,48%. O resultado é compatível com os índices de anos anteriores, como 22,9%, em 2014, e 27,51%, em 2013. Em comparação com 2014, a queda nominal foi de apenas 0,86% (9% em termos reais), bem menor do que o setor privado. O que mudou de fato foi a composição das compras, já que em 2015 não houve compras do PNBE e do PNAIC. Em compensação, as compras do PNLD foram maiores que no ano anterior com um crescimento nada desprezível de 15,43%, equivalentes a mais de R$ 155 milhões. Mas não estavam todos reclamando que o governo não comprava, não pagava e atrasava programas? Bem, as compras do PNLD em 2015 se referem a editais e programas de anos anteriores, por isso a crise ainda não apareceu. Além disso, a pesquisa computa faturamento e não pagamento, portanto eventuais atrasos nos pagamentos das faturas governamentais passam despercebidos.

O resultado principal desta nova composição de compras governamentais é que enquanto o subsetor de didáticos tem pouco para reclamar em termos de faturamento em 2015, os editores de interesse geral – via de regra muito menores e que são os grandes fornecedores do PNBE e também participam do PNAIC – perderam um faturamento de mais de R$ 160 milhões.

4 – A situação na década

Um dos grandes méritos da PVSEB é permitir que analisemos as séries históricas. Como, por exemplo, o mercado vem se comportando nos últimos 10 anos. Para saber isso, é preciso trazer os valores de anos anteriores a valores presentes, resultando no gráfico acima. Como se observa, se de 2006 a 2013 o faturamento dos editores se apresentava basicamente estagnado, com algum crescimento entre 2010 e 2013, a situação desde então é de queda. Em 2014, uma queda causada apenas pelas menores vendas governamentais, enquanto que em 2015 tanto o setor privado como o estatal contribuíram para o cenário negativo do setor editorial.

5 – A situação da década para os livros de interesse geral

Como o gráfico acima mostra, uma vez que deflacionamos os números e utilizamos valores de 2015, a situação do setor de livros de interesse geral se mostra bastante temerária. Na década de 2006 a 2015, o setor caiu 32,34%. A curva verde do governo é particularmente interessante, pois mostra que assim como as compras governamentais subiram entre 2007 e 2009 para se estabelecer no patamar de R$ 200 milhões, elas caíram abruptamente nos últimos dois anos. Também é interessante notar como o subsetor de interesse geral depende menos do governo. Na década em questão, apenas 10,63% do faturamento dos editores veio do governo – e em 2012, ano da maior participação do governo na década, ela chegou a apenas 16,36%.

6 – E se compararmos com o PIB da década?

Esta é uma comparação que sempre gosto de fazer: o crescimento do mercado editorial com o crescimento do PIB brasileiro. O gráfico acima traz a comparação ano a ano. Em termos consolidados, na década entre 2006 e 2015, o PIB brasileiro cresceu 30,67%. Enquanto isso, o faturamento dos editores de livros no Brasil caiu 6,75%. É para se preocupar e a situação exige que o mercado reconheça sua estagnação de longo prazo tanto quanto sua queda de curto prazo, passando a buscar soluções que sem dúvida passam por aumento da produtividade e melhoria da eficiência.

7 – E o ano de 2016?

É inegável que o desafio para o setor de livros será enorme em 2016. A queda de 12,60% em 2015 já fez um belo estrago, e temos que lembrar que, em 2014, a queda foi de 5,16%, o que significa uma queda acumulada de 17,11% nos dois últimos anos. Considerando a expectativa de retração da economia este ano e um governo instável e obstinado por corte de gastos, a situação exigirá muita criatividade e perseverança do setor. É bem provável que em 2016 as próprias compras do PNLD sofram séria redução, como resultado até dos atrasos em editais e nos processos de licitação.

A situação, claro, é ainda pior para o subsetor de interesse geral, que já amarga uma perda acumulada de 22,77% nos dois últimos anos. Se considerarmos que não haverá PNBE este ano e que as vendas governamentais de literatura tendem a se reduzir mais ainda, o cenário fica ainda pior. Além disso, segundo o Bookscan da Nielsen, o varejo de livros teve queda nominal de 2,67% nos três primeiros meses de 2016. Este índice reflete muito a performance do subsetor, uma vez que ele depende fortemente de vendas no varejo. E a grosso modo, mantendo-se tal queda ao longo do ano, a qual em termos reais pode significar algo na faixa de 9%, o segmento de interesse geral terminaria 2016 com uma queda de faturamento acumulada de aproximadamente 30% em três anos. Isto sim seria uma crise.

Conclusão

O desafio é grande, mas se o setor de livro buscar melhorar sua produtividade e eficiência com melhores práticas de gestão e logística, boa governança e uma melhor integração da cadeia, eu acredito que todos sobreviveremos à tempestade. A hora de agir é agora.

Clique aqui para baixar a íntegra da pesquisa.

Carlo Carrenho é o fundador do PublishNews. Formado em Economia pela FEA-USP, especializou-se em Edição de Livros e Revistas no Radcliffe Publishing Course, em Cambridge (EUA). Atualmente é advisor da Ubook, Meta Brasil e da BR75. Como especialista no mercado de livros, já foi convidado para dar palestras e participar de mesas em países como EUA, Alemanha, China, África do Sul, Inglaterra e Emirados Árabes, entre outros.

É co-coordenador do curso MBA Book Publishing, da Casa Educação em São Paulo, depois de coordenar por diversos anos o curso de pós-graduação da FGV-RJ sobre o negócio do livro. Sempre atento aos novos modelos de negócio e às mudanças tecnológicas, Carlo possui um de seus focos na questão dos livros digitais e segue com afinco o que acontece no setor digital no Brasil, tanto que é autor do capítulo brasileiro do livro Global eBook: a report on market trends and developments.

Carlo é paulista, morou no Rio, e atualmente vive em Estocolmo. É cristão, mas estudou em escola judaica. É brasileiro, mas ama a Suécia. Enfim, sua vida tende à contradição. Talvez por isso ele torça para o Flamengo e adore o seriado Blue Bloods.

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