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A levedura e o livro
PublishNews, 14/07/2015
O que a cerveja e o livro têm em comum? Henderson Fürst responde em sua coluna de hoje.

A divulgação do relatório da Fipe com a Pesquisa de produção e vendas do setor editorial brasileiro, promovida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL) pôs todo o mercado a refletir sobre os caminhos do livro – embora o grande público de leitores e autores ainda ignorem o relatório.

Carlo Carrenho escreveu dois ótimos textos sobre os dados. Em um, analisando apenas o relatório e o ano de 2014, chama a atenção ao fato da queda de títulos lançados, embora tenha um ligeiro aumento na quantidade de exemplares vendidos. Em outro, que deveria ser panfletado, demonstra a década perdida do mercado editorial: o setor editorial cresceu apenas 5,79% enquanto o PIB avançou 39,45% na década de 2005 a 2014!

O mercado para o segmento CTP – em que se enquadra o editorial jurídico - enxugou a quantidade de títulos lançados e aumentou ligeiramente a quantidade de exemplares vendidos. O que isso significa? Que temos muito a aprender com a cerveja!

A levedura
Qualquer pós-adolescente sabe listar de cor os ingredientes da cerveja: água, malte, lúpulo e levedura – e se não for conservador, ainda irá listar aditivos, cereais não malteados e afins.

O que poucos sabem é que a cerveja, como a conhecemos, não é concebida assim desde os povos antigos. O lúpulo, por exemplo, flor de uma trepadeira (o trocadilho é livre), foi adicionado à receita básica apenas após 1100, quando (a Santa) Hildegard von Bingen descreveu o uso não apenas como antibiótico, mas também para a conservação e amargor de algumas bebidas, como a cerveja.

As leveduras, por sua vez, foram conhecidas acidentalmente. Elas se encontram por toda parte, de diversas formas e características. Um pouco de exposição da mistura de cereais já seria suficiente para ter uma boa quantidade de leveduras fermentando a cerveja. E surge assim uma infinidade de possibilidades, pois muito das características aromáticas e gustativas de uma cerveja é dada pelos resíduos orgânicos da fermentação que cada espécie de levedura possui.

Assim, com o desenvolvimento das cervejarias organizadas em mosteiros, na Idade Média, para que a fermentação pudesse ser facilitada, os monges cervejeiros deixavam as janelas de suas cozinhas abertas por muitos dias para que a sorte trouxesse boas leveduras silvestres ao mosto.

Cada tanque de fermentação possuía uma cerveja diferente, que também variava para cada safra, região, época do ano e afins, tudo graças à aleatoriedade das leveduras que fermentava cada safra, algumas com características excepcionais e outras intragáveis. Isso fez que se produzissem técnicas rudimentares para aumentar a probabilidade de determinadas leveduras atuarem, tal como colocar para fermentar em tonéis de uma determinada madeira, ou a uma temperatura específica etc.

Cada mosteiro conseguia, aos poucos, cultivar uma linhagem específica de levedura conforme a preferência de seus monges, mas o isolamento de então não possibilitava a troca de técnicas ou mudas entre as cervejarias, algo que apenas aconteceu com o ressurgimento das urbes. Dessa forma, aprimora-se o cultivo e conhecimento das leveduras para a produção das cervejas das mais diversas formas, conforme o gosto do cervejeiro e seu público. E essa preocupação com o cultivo e aprimoramento da levedura seguiu-se até 1883, quando Emil Christian Hansen desenvolveu a técnica de purificação, possibilitando o surgimento de bancos de leveduras – aí sim, um menu completo para cada cervejeiro atingir o paladar que quisesse para o público a qual se destina!

A história da cervejaria caminhou da aleatoriedade da levedura ao cultivo e extrema precisão da escolha.

O livro
O que a história da cerveja tem a contribuir com a compreensão do livro jurídico? Muito! Se antes os editoriais jurídicos (e também todas as áreas de CTP) aguardavam a espontaneidade dos autores submeter originais para escolher quais publicariam, a reação do público leitor de ler (e comprar) menos livros faz que os editoriais busquem aquilo que publicará e cultivem o estilo ou o autor para aprimorá-los ao público que se destina e com o qual consegue se comunicar.

A literatura comercial há muito aprendeu isso e já desenvolveu sensibilidade para identificar públicos e reconhecer os autores e estilos para cada qual. Enquanto possamos achar estranho alguém publicar livros para pintar, com cachorro, vampiros ou bruxos, e depois nos espantemos com o volume de vendas, há por trás disso muito talento para identificar públicos e tendências. E os autores de literatura comercial já buscam (re)conhecer e identificar o público para o qual escreve(rá).

O enxugamento de catálogo, indicado pelos números do relatório da Fipe, demonstra que as editoriais de CTP começaram a aprender algo com a cerveja, e começam a aprimorar suas linhas editoriais como forma de melhor sobreviver aos novos tempos. E isso tem impacto direto a autores e leitores.

Autores precisarão identificar melhor o público a qual se destina seu texto, ou escrever pensando nas características de quem irá ler. Há um equívoco comum de que um relatório científico, como uma dissertação ou tese, já seja um texto pronto para ser publicado. E isso não significa que é preciso simplificar ou rechear de figuras coloridas (ou para colorir...), mas sim que conhecer o perfil do leitor a qual se destina para adequá-lo será uma exigência constante – e embora os autores se ofendam agora, chegará um momento que compreenderão a necessidade disso.

Leitores encontrarão livros mais bem posicionados para si, e identificarão autores, coleções e editoras que preferem, conforme necessidade e gosto. E espera-se que assim reconquistem o hábito de ler (de realmente ler, e não apenas de colocar na ficha de emprego e no Tinder que o hobby é a leitura) e a frequentar livrarias para comprar livros, em vez de ficar esperando alguém disponibilizar pela internet.

Creiam: Há mais coisas entre a levedura e o livro que nossa vã filosofia pode imaginar!

Nas horas ocupadas, Henderson Furst é editor jurídico do Grupo Editorial Nacional; nas horas livres, flautista, escritor e mestre cervejeiro. Bacharel em Direito pela UNESP, mestre e doutor em Bioética pelo CUSC, com pesquisas no Kennedy Institute of Ethics, Georgetown University, e doutor em Direito pela PUC-SP, Henderson também é professor de diversos programas de pós-graduação em Direito, tal como PUC-Campinas e Academia Brasileira de Direito Constitucional. Advogado, foi editor jurídico da Thomson Reuters/Revista dos Tribunais e da Editora Saraiva. Atua nas linhas editoriais de obras universitárias, profissionais e acadêmicas, bem como projetos especiais, educação a distância e periódicos científicos. Sua coluna analisa o mercado jurídico-editorial, suas tendências, notícias, peculiaridades, bem como a cultura artística e etílica que envolve o segmento. Voltada a bibliófilos jurídicos, profissionais do mercado editorial (jurídico ou não), autores, leitores e curiosos de plantão, será publicada quinzenalmente para que o leitor não se enjoe do colunista e tampouco se esqueça dele. Comentários, críticas e sugestões podem ser enviados para seu e-mail hendersonfurst@gmail.com ou via Facebook. A opinião do colunista não representa a de qualquer instituição científica ou profissional a qual seja vinculado.

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