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Uma bolha (de livros) prestes a estourar?
PublishNews, 09/02/2012
Uma bolha (de livros) prestes a estourar?

A autopublicação pode ser a redenção dos escritores — ou agravar uma situação já insustentável

Minha primeira euforia de autopublicação, disparada por uma nova e revolucionária tecnologia, foi há muito tempo. Muito tempo. Um colega chegou com uma novidade incrível: poderíamos criar nossos próprios adesivos! Bastava uma tesoura e um papel mágico chamado contact. Maravilhados com a liberdade de expressão, a turma (segunda série, se não me engano) passou a recortar, adesivar e colar tudo o que achasse de (vagamente) interessante nas revistas. Aventuras do Cebolinha, campanhas educativas com o Sugismundo e robôs do recém-lançado “Guerra nas estrelas” (sim, sou velho) ganhavam, pela mágica do contact, as capas dos cadernos, os estojos, as prateleiras, as roupas, as portas, as cadeiras, janelas, o braço, a testa… No frenesi autopublicador, valia todo lugar e qualquer assunto, o importante era a brincadeira e a liberdade. Até o ponto em que a sala de aula ficou forrada de pedaços de classificados, fragmentos de quadrinhos, anúncios imobiliários. E aí cansamos. Então alguém trouxe um ioiô, a nova febre se instalou e ninguém mais quis colar nada em lugar nenhum.

Sábado passado, um amigo meu veio me mostrar o livro que ele havia “publicado” no Author, o software de edição para iPad acoplado à loja de livros da Apple. Exibiu-me deliciado as imagens rotativas, os vídeos interativos, as “páginas” autodiagramadas. Lindo. Pedi para ler com mais atenção e deparei-me com o famoso “Lorem ipsum dolor sit amet…”. O texto era cego, estava ali para ocupar espaço, somente. O “livro” (ou iBook) do meu amigo era um invólucro fascinante para um conteúdo inexistente.

Não quero aqui equiparar meu amigo a meninos de sete anos. Ele é um excelente profissional da multimídia, com muitos anos de experiência (e vai ler este artigo). Eu compartilho plenamente sua empolgação frente às possibilidades de expressão e à liberdade conquistada com a publicação digital. Porém, por dever profissional (tanto para escrever esta coluna quanto para assegurar que eu, editor, terei uma profissão no futuro breve), tenho que refletir sobre as implicações dessa liberdade autopublicadora oferecida não só pelo sensual Author da Apple, quanto pela luxuosas opções gráficas do Lulu ou a presteza do Smashwords, Perse, Bookmaker, entre as dezenas de opções de autopublicação que pululam na web. E dessa reflexão vem a pergunta básica: haverá conteúdo — e leitores — suficientes para dar sentido a tantos livros?

O descompasso entre a oferta de livros e a demanda não é uma questão nova. Já o Eclesiastes advertia ao leitor para que não se angustiasse em ler tudo porque “se podem multiplicar os livros a não mais acabar” (12:12) — e olhe que a produção literária no século 5 a.C. se restringia a variações sobre a Torá. Mais tarde temos Balzac que, depois de falir como editor e tipógrafo, escreveu, apropriadamente, As ilusões perdidas (1837), e que assim retratou a resposta de um editor a um candidato a autor:

“Se eu fosse dar conversa a todo escritor que põe na cabeça que eu devo ser seu editor, eu teria que fechar a loja, passaria meu tempo muito agradavelmente, mas a conversa me custaria muito. Ainda não sou rico o suficiente para ficar ouvindo todos os monólogos autocongratulatórios. Ninguém pode se prestar a isso, a não ser quando assiste tragédias gregas.”

Mesmo com a resistência (ou, digamos, a triagem) exercida pelos editores antipáticos (os famigerados gatekeepers), a quantidade de livros já era avassaladora e, algumas décadas mais tarde, Eça de Queirós colocou assim seu espanto diante da enxurrada de livros recém-viabilizados pela Revolução Industrial:

“Durante todo o ano não se interrompe, não cessa essa publicação fenomenal, essa vasta, ruidosa, inundante corrente de livros, alastrando-se, fazendo pouco a pouco, sobre a crosta da terra vegetal do globo, uma outra crosta, de papel impresso. (…) Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridículo(…) e balbuciando, com a boca aberta: — Jesus! tanto livro!” (Cartas da Inglaterra, 1874)

Já em nosso século, Gabriel Zaid sintetizou a questão no sombrio Livros demais!, demonstrando que o estoque de livros publicados apenas em um ano nos Estados Unidos bastaria para suprir a demanda por leitura no planeta inteiro, por décadas.

Convém ressaltar que Zaid publicou seu livro (mais um!) numa época em que ainda não se falava seriamente em e-books. Se já havia livros demais quando havia requisitos de capital, administração de estoque, frete etc., o que esperar de uma nova situação, em que não há restrições ou barreiras para quem quiser publicar? E quando gigantes como a Amazon e a Apple estão cortejando e estimulando os escritores de gaveta a se lançarem nas prateleiras?

O que vai acontecer quando a oferta de livros, que já excedia de longe a demanda, explodir com a autopublicação? A primeira consequência, se cumprirmos a lei da oferta e da procura, será a desvalorização. Quando se nota que a maioria dos e-books da lista dos mais vendidos da Amazon custa menos de um dólar (ou é gratuito), quanto valerá um e-book? “De graça é um preço caro demais para um e-book autopublicado” disse um editor tradicional inglês em recente debate onde se discutiu a relevância dos editores no futuro.

Há uma semana, Ewan Morrison alertou, no Guardian, que estamos diante de uma bolha especulativa, tão sorrateira e perigosa quanto a bolha imobiliária que estourou e pôs o mundo em recessão. Trata-se da “bolha da autopublicação”. Morrison, que já publicara o apocalíptico artigo Os livros estão mortos? Os escritores sobreviverão?, agora demonstra como a euforia autopublicadora tem paralelos notáveis com as bolhas especulativas. A mecânica é a mesma: em resumo, alguém começa a ganhar muito dinheiro de um modo ilusoriamente fácil, uma multidão segue atrás e cria-se um verdadeiro mercado para estimular esses novos integrantes (semelhantes àqueles que entram nas pirâmides financeiras para enriquecer… quem está no topo). A euforia espalha-se como vírus, tudo cresce exponencialmente, até que para. E tudo rui. Pop!

“A questão toda da autopublicação (selfpublishing) é que ela traz para o mercado ‘as pessoas que não estariam normalmente lá’. Da mesma forma como nos prometeram que poderíamos pagar boas casas com hipotecas baratas, agora eles [as empresas do digital, a Amazon, a Apple e a imprensa] nos dizem que podemos todos ser escritores, e fazer sucesso”.

Morrison ainda insinua onde está de fato o dinheiro que circula nessa história toda:

“As pessoas que estão se autopublicando pela primeira vez estão também comprando seus primeiros iPads e Kindles, para entender a tecnologia. Elas podem estar dando seus livros de graça, mas estão gastando de mil a dois mil reais em aparelhos tecnológicos — mais até do que gastam em livros por ano”. E esse investimento em dinheiro não rende sequer retorno em literatura, já que o produto são “centenas de milhares de novos e-books para os quais praticamente não há leitores, porque terão visibilidade zero”.

Euforia (“liberdade ao escritor!”) e ansiedade (“os livros vão acabar!”) são comuns em fases de transição, como a que estamos presenciando. Quando não há ainda regras de funcionamento, vale tudo. Como dizem, “o ideograma chinês que representa crise também representa oportunidade”. Porém, assim como esse aforisma é simplesmente falso (pergunte a um chinês), talvez só nos venha a crise. Ou só as oportunidades. Talvez só venhamos a saber no longo prazo, quando o tempo tiver decantado o que fará sentido (econômico e cultural) publicar… e o que valerá a pena ler.

Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, que investiga a publicação digital e transmídia. Dirige o projeto “NossaLíngua.Doc” que documenta e estimula as conversas mundiais em português, em mídia social, livros e filme. É promotor de festivais de literatura e atual curador do LER, Salão Carioca do Livro.

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