
A tarde do primeiro dia da 34ª Convenção Nacional de Livrarias (realizada nesta quarta e quinta-feira, no Distrito Anhembi, em São Paulo) foi marcada por um intenso debate em torno das feiras com desconto no preço dos livros. O debate expôs incômodos por parte de livreiros com o grande faturamento de eventos como a Festa do Livro da USP. A Convenção também recebeu um painel sobre a relação do mercado do livro com a cidade, bem como sobre as iniciativas do coletivo de livrarias de rua de São Paulo.
Após o intervalo de almoço, um painel reuniu Eliete Cotrim (Editora 34), Marcio Pelozio (Festa do Livro da USP), Paulo Werneck (A Feira do Livro) e Leo Wojdyslawski (Livraria Eiffel), para discutir "Feiras, descontos e a decisão de compra". Acalorada, a conversa trouxe à tona opiniões divergentes em torno da realização de grandes feiras de livros que oferecem descontos.
O foco das discussões foi o impacto da Festa do Livro da USP no faturamento das livrarias. Há um argumento corrente entre livreiros de que o desconto de 50% oferecido pela feira da cidade universitária é prejudicial à cultura e ao ecossistema do livro. Ao longo do painel, Marcio Pelozio reiterou o posicionamento da Edusp e da Festa do Livro como importante extensão universitária da USP, que possibilita maior democratização de acesso ao espaço da universidade, muitas vezes rotulado como um campus isolado e fechado em si. "O grande carro chefe é promover uma extensão da USP, de acesso à cultura e ao território da universidade", relatou o representante da Edusp.
Da plateia, Alexandre Martins Fontes, que mais cedo reiterou seu posicionamento contra descontos em seus livros na Amazon, afirmou que considera a Festa do Livro da USP um "desserviço à cultura brasileira e ao ecossistema do livro". O PublishNews também pediu um posicionamento oficial da ANL sobre o caso.
A gerente comercial da Editora 34, Eliete Cotrim, revelou ao longo do painel que 10% do faturamento da 34 vem da Festa do Livro da USP. A editora adota a postura de participar de eventos literários com parcerias com pequenas livrarias em diferentes regiões do país. "A Editora 34 tem uma postura muito firme em eventos. Não vendemos direto em nenhum deles, mas sim com parceiros locais. Estabelecemos com esses parceiros que a editora paga o frete da volta dos produtos e o valor do estande", diz. Ela não considera a Festa da USP nenhuma vilã e, em seu comentário respondendo aos questionamentos da plateia, afirmou que o debate deve se concentrar no controle de vendas dos marketplaces digitais.
Em tom otimista, Paulo Werneck se colocou contrário à afirmação categórica sobre a feira universitária, e afirmou que não acredita haver um movimento que queira destruir livrarias. Ele reforçou o momento de florescimento das livrarias de rua em São Paulo. "Uma coisa que a gente precisa reconhecer é que a gente tem visto no mercado uma valorização maravilhosa das livrarias de rua, como uma ação das próprias livrarias, não é nenhum favor. Não é brincadeira o que tem acontecido nos últimos tempos", disse o idealizador d'A Feira do Livro do Pacaembu.

Em resposta à declaração do representante da WMF Martins Fontes e que é também presidente da Associação Nacional de Livrarias, Marcio Pelozi disse discordar de que o evento seja um desserviço e argumentou que o modelo não é exclusivo da USP, mas sim replicado por universidades como UFPR, UFMG e UnB, e que o formato que traz impactos positivos à cultura e ao público final. Marcio reiterou seu posicionamento de abertura e diálogo com editoras e livrarias, e afirmou que não é impossível chegar a um consenso sobre o desconto na Festa da USP. Atualmente, a Edusp está em processo de associação à ANL.
O que permeou tanto as falas positivas quanto as negativas foi um aparente consenso de que há uma cultura de descontos em produtos presente em toda a cultura brasileira. "Os professores eram as pessoas que mais solicitavam esses pedidos de descontos dos livros. A partir da segunda edição da Feira da USP, passou a ter pedidos dos próprios acadêmicos de oferecer descontos aos livros que os alunos leriam em tempos próximos da feira", comentou Eliete. Paulo Werneck e Marcio também reforçaram a necessidade de haver uma coleta efetiva de dados que possam mostrar o tamanho do impacto das vendas da Festa do Livro para as livrarias e editoras.
Destaques da programação

Com atraso, a última mesa do dia destacou o percurso até a realização da primeira edição do Mapa das Livrarias de Rua de São Paulo e da Noite das livrarias. Em sua fala, João Varella, editor da Lote 42 e livreiro, contou que o Mapa está em fase de produção de uma nova edição e que é possível que livrarias e outras empresas interessadas em apoiar a iniciativa se inscrevam nas redes do Mapa das Livrarias.
Em clima mais leve, o último painel do dia teve como tema central a cidade, os espaços púbicos e o objeto livro. Foram convidados Yara Hwang, da livraria Aigo, localizada no Bom Retiro, e Nabil Bonduki, vereador que possui um projeto de lei em torno das livrarias.
O projeto, ainda em discussões iniciais na Câmara Municipal, prevê a isenção de impostos para livrarias de rua. "Fizemos uma primeira discussão com livrarias e editoras, na perspectiva de talvez ampliar um pouco esse projeto para ter outras formas de incentivos, entendendo que as livrarias são espaços de cultura importantes para a cidade", afirmou o vereador.

Yara relatou o exemplo do impacto da Aigo em seus entornos. Durante muito tempo, o bairro do Bom Retiro ficou sem nenhuma livraria. "O atendimento é o grande diferencial das livrarias independentes. Os nossos clientes conhecem as livreiras pelo nome. Esse contato, de conhecer, saber que nessa semana o cliente levou isso, na semana que vem leva outra coisa, realmente transforma a experiência da compra".






